JOÃO LOPES FILHO: Turismo e Cultura são o caminho para o desenvolvimento de São Nicolau

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O professor e escritor não vê que a Agricultura tenha grande importância para o futuro local, até por razão da dificuldade de escoamento dos produtos, decorrente do isolamento a que a ilha tem sido votada. Numa conversa breve, JSN traça o retrato de um homem natural de São Nicolau e figura maior da nossa cultura


 

Conversar com este homem é viajar num universo de memórias, de cultura e conhecimento. Antropólogo, engenheiro agrónomo, escritor e professor universitário, é impossível ficar indiferente a João Lopes Filho, o vencedor do Prémio Sonangol 2011, que contemplou o seu primeiro romance, “Percursos & Destinos” (o 24º livro editado pelo escritor) – uma obra que tem como estrutura central a emigração cabo-verdiana.

A surpresa pelo romance, para mais logo premiado, foi comum no meio literário cabo-verdiano, conforme na ocasião sublinhou a linguista e escritora Ondina Ferreira. “Normalmente estávamos habituados ao antropólogo, ao etnólogo, ao ensaísta, mas desta vez ele enveredou-se mesmo para o mundo da ficção. Mas, ainda que ficção, sente-se a mão, a pena, o pensar do antropólogo, do analista”, disse a ex-ministra da Educação, acrescentando que “há na obra, no universo do romance, uma espécie de panorama muito bem condensado da vida crioula”.

Com o prémio de 50 mil dólares, o escritor resolveu criar uma fundação virada para as artes e literatura em homenagem a seu pai, João Lopes, um dos fundadores da revista Claridade fundada, em 1936, na cidade do Mindelo, que teve na sua génese nomes tão importantes como Baltazar Lopes da Silva, Manuel Lopes e Jorge Barbosa, entre outros.

Recuperar a memória do pai

O esquecimento a que a memória (curta) coletiva votou o nome do pai, levou o escritor, investigador e professor a avançar com a Fundação João Lopes que, entretanto, tem vindo a desenvolver grande atividade a favor das artes e da literatura, mas não só: a recuperação para o domínio público deste nome referencial dos “claridosos” releva também a urgência de se conhecer melhor o importante papel que a revista teve e o seu contributo para enformar a consciência nacionalista em cabo-verde. No centro de um emergente movimento de afirmação cultural, social e política, a Claridade teve como inspiração os neo-realistas portugueses, afirmando no arquipélago a causa de um povo dominado pela ocupação estrangeira, revolucionando a literatura cabo-verdiana e asseverando, de forma muito clara, uma matriz político-ideológica em rutura com o colonialismo.

Novo rumo para o desenvolvimento

À margem da conferência ‘’A cultura como vetor para o desenvolvimento sustentável da Ilha de São Nicolau”, em que João Lopes Filho (agraciado com a “Ordem do Vulcão, em, 2007 – uma das mais altas condecorações do Estado cabo-verdiano) foi um dos principais intervenientes, decorreu esta conversa, infelizmente breve, sobre os caminhos para o desenvolvimento de São Nicolau, mas também versando a atividade da Fundação João Lopes.

Uma velha polémica está instalada na ilha: um setor cada vez mais minoritário sustenta que o desenvolvimento local passa pelo investimento na Agricultura, vista como o setor principal para alavancar a economia; por outro lado, afirma-se cada vez mais a ideia que é no Turismo, ligado à Cultura, que reside o caminho para afastar o espectro da pobreza e do desemprego, dando a São Nicolau a importância que já teve no arquipélago, gerando desenvolvimento, progresso social e reforçando a sua contribuição para a economia do país.

Quem aporte a São Nicolau, instintivamente, percebe quase de imediato que tomar a Agricultura como base de desenvolvimento contraria a experiência conhecida de outros países, particularmente aqueles com natureza arquipelágica e tropical. A Agricultura, por norma, nunca é o primeiro fator de desenvolvimento de um país, normalmente aparece em segundo lugar nessa linha de desenvolvimento; ademais, tendo em conta as características da ilha, pela sua tradição histórica e cultural, pela sua paisagem, pelas condições próprias da natureza, o caminho estaria muito virado para o Turismo, embora numa linha diferente daquela que se conhece em Cabo Verde, nomeadamente, nas ilhas do Sal e da Boa Vista, conhecido por “Turismo de Massas”.

Um caminho que, no nosso caso, teria muito a ver com o Turismo Residencial, o Turismo Rural, o Turismo de Natureza e o Turismo Cultural, suportado por pequenas unidades hoteleiras com não mais duas dezenas de quartos. Uma linha em que se revê João Lopes Filho. “Partilho totalmente essa sua opinião, conheço bem a ilha de ponta a ponta, neste momento pensar no “Turismo de Massas” era dar cabo de São Nicolau e da sua especificidade. Há o aspeto negativo do isolamento de São Nicolau, sob o ponto de vista do desenvolvimento, mas tem o aspeto positivo derivado da sua identidade, Portanto, o Turismo Cultural e de Natureza são as potencialidades da ilha, decorrente de até ao momento ter mantido as suas características, preservando intactas as capacidades de se desenvolver”, diz o professor, acrescentando que “o Turismo de Natureza deve estar centrado na relação com o mar, nos desportos náuticos, e no montanhismo, mas também no espaço rural”, e sublinhando que “a Cultura é que vai alavancar tudo isto”.

Quanto à Agricultura, João Lopes filho é muito claro: “não vejo grandes potencialidades, produzem mas não escoam, e sem escoamento a Agricultura não pode avançar”. Um problema crónico que os poderes públicos nunca puderam ou quiseram resolver.

Fundação ao serviço de Cabo Verde

Com vocação transatlântica, a Fundação João Lopes Filho não limita a sua atividade a Cabo Verde e a Portugal. “A fundação tem como lema servir Cabo Verde, o arquipélago e a diáspora. Temos acordos com autarquias e instituições onde haja uma comunidade representativa. Neste momento, temos delegações a trabalhar em Lisboa, na Bélgica e na Holanda e vamos abrir uma delegação nos Estados Unidos. As delegações trabalham sempre ouvindo a comunidade cabo-verdiana, auscultando as suas necessidades e apoiando a Cultura, a identidade e o desenvolvimento”, refere o professor.

AAP

 

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Comentários (1)

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  • Cada um fala aquilo que quiser. Se a ilha esta isolada para a agricultura ela não estará também isolada para o turismo?

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