REGIONALIZAÇÃO: Em debate os novos caminhos para Cabo Verde

. Publicado em São Nicolau

Com a presença de Carlos Fortes Lopes, um dos autores de “Cabo Verde – Os Caminhos da Regionalização”, o pretexto foi dado para um debate muito enriquecedor sobre o tema que, apesar da fraca afluência, concitou a participação do público e abriu novos caminhos de reflexão sobre o futuro do país


 

A escassez de público, natural numa terra onde iniciativas desta natureza não são por regra muito participadas, não menorizou a qualidade do debate e a explanação das ideias sobre a regionalização, num final de tarde que teve por palco o Centro Cultural Paulino Vieira, no Tarrafal, e como pretexto a apresentação do livro “Cabo Verde – Os Caminhos da Regionalização”. Na mesa, Alírio Cabral Gomes (jornalista e assessor do edil local), António Alte Pinho (jornalista e editor do JSN) e o co-autor do livro, Carlos Fortes Lopes.

Regionalistas colocaram o debate na agenda política

Na sua breve intervenção inicial, António Alte Pinho teve ocasião de contextualizar o debate sobre a regionalização que, de forma mais sistematizada teve o seu primeiro grande momento em 2012, quando intelectuais caboverdianos da diáspora começaram a publicar textos na imprensa sobre o tema. Na ocasião, como referiu o jornalista, os autores foram quase cruxificados na praça pública, acusados de atentarem contra a unidade do país. Porém, dois anos depois, fruto de um trabalho de intenso debate público promovido pelos regionalistas, o tema foi mesmo colocado na agenda política obrigando os partidos a virem a público tomar posições, avançando modelos e diversificando conferências e debates sobre a regionalização.

Segundo Alte Pinho, este foi o segundo momento, desde que Cabo Verde é um Estado, que a pressão cidadã determinou a evolução dos acontecimentos, sendo a primeira em 1990, por altura do ocaso do regime de partido único, obrigando os políticos a reavaliarem posições e seguirem o querer coletivo.

Regionalização não põe em causa unidade nacional

Contrariando a tese de que a regionalização pode pôr em causa a integridade nacional, o jornalista deu como exemplo a autonomia dos Açores e da Madeira (Portugal), onde o processo de regionalização político-administrativa, pelo contrário, obstou a alguns laivos independentistas surgidos imediatamente a seguir à revolução do 25 de Abril de 1974 e instigados pelos saudosistas do regime fascista, resgatando estes dois arquipélagos da situação de miséria extrema em que viveram durante séculos e catapultando-os para o núcleo das regiões mais desenvolvidas de Portugal.

Centralismo põe em causa integridade do país

Para Alte Pinho, não é a regionalização que põe em causa a integridade nacional, antes sim as assimetrias sociais e regionais que, por exemplo, no caso de São Nicolau, colocam a ilha no primeiro lugar do ranking do desemprego em Cabo Verde e fazendo dela uma das regiões mais isoladas do país. Ou seja, a política centralista é que tem vindo a pôr em causa a unidade nacional, gerando fenómenos de desenvolvimento a várias velocidades, colocando as chamadas ilhas periféricas na cauda do progresso e do desenvolvimento social.

Considerando que a regionalização vai estar em banho-maria até 2016, o jornalista sublinha, porém que, ao colocar o tema na agenda política, os regionalistas obrigam necessariamente os partidos a inscreverem a regionalização nos seus programas eleitorais, transformando-a, seguramente, num assunto recorrente da próxima campanha eleitoral.

Dicotomias redutoras afetam debate de ideias

António Alte Pinho considera natural que o debate se tenha iniciado por iniciativa de intelectuais da Diáspora, já que o vivenciar de novas experiências e o conhecimento dos processos democráticos nos países de residência permitiu aos autores do livro ter uma visão política mais ampla, fora do espartilho redutor das duas grandes dicotomias caboverdianas, centradas nas redutoras “polémicas” sampadjudos-badios e tambarina-ventoinha que, considera, são responsáveis pelas minudências de que enforma o debate de ideias em Cabo Verde e obstam ao desenvolvimento do país.

Convergir num novo modelo político-administrativo

Carlos Fortes Lopes falou do percurso dos vários grupos de regionalistas que - mais concretamente, desde há dois anos a esta parte -, têm vindo a intervir no arquipélago e na diáspora, colocando a regionalização como um dos temas centrais do debate político, tendo o cuidado de acentuar que, no caso deste livro, onde não se fala apenas da regionalização, mas também de património e da língua, os autores não têm todos a mesma opinião sobre o tema central, embora convergindo na necessidade de se encontrar um novo recorte político-administrativo do país.

Novos caminhos para o País

O autor sublinhou que na génese do livro está a necessidade de a diáspora contribuir para o encontrar de novos caminhos para o País, alimentando o debate de ideias democrático e refletindo sobre a realidade concreta, o que é bem expresso na coletânea de textos que reúne nove autores, oito residindo na Europa e um nos Estados Unidos, todos eles com profundas ligações ao arquipélago e com um grande historial de reflexão e produção de ideias.

Dar a voz ao povo

Carlos Fortes Lopes considerou redutor centrar o debate na classe política e acentuou, pelo contrário, a necessidade de dar a voz ao povo de cada ilha e região para perceber o sentir mais profundo das pessoas e encontrar os melhores caminhos para o desenvolvimento do país. Para o autor, a democracia é património do povo e os partidos só existem por causa do povo, não podendo ser uma ilha isolada do querer coletivo.

Ressalvando o caráter pessoal da sua opinião, que não compromete o conjunto dos autores do livro, Carlos Fortes Lopes avançou com um modelo de desenho geográfico das regiões que considerou ser o mais adequado, tendo em conta a realidade caboverdiana.

Acentuando que o Turismo deve estar na linha central do desenvolvimento do país, Fortes Lopes defendeu uma regionalização assente em grupos de ilhas, tendo em conta as suas especificidades económicas, mas salvaguardando a necessidade de se realizarem referendos sobre o assunto para que as populações possam verter o seu sentir mais profundo.

Regionalização em duas fases

Considerando que o desenho da organização regional deveria ter duas fases. Uma primeira onde a regionalização fosse implementada por grupos de ilhas; e uma segunda, depois de assegurada a igualdade de desenvolvimento local, em que se avançaria para o esquema ilha-região, Carlos Fortes Lopes defendeu um modelo inicial onde Santo Antão São Vicente e Santa Luzia se constituíssem em região, um outro juntando São Nicolau, Sal e Boa Vista, e terceiro agregando Fogo, Brava e Maio e, por último, Santiago Norte e Santiago Sul. Modelos que, segundo o autor, estão centrados nas características económicas e de complementaridade que unem estas ilhas e que as podem alavancar em matéria de desenvolvimento.

Complementaridade orgânica

A propósito referiu que colocar São Nicolau no grupo de ilhas com Santo Antão iria esmagar completamente a produção agrícola da ilha, melhor sendo associá-la como fator complementar, acrescentando o turismo de montanha ao turismo de praia do Sal e Boa Vista e colocando-a como principal fornecedor de produtos agrícolas. É, aliás, essa tese da complementaridade que faz de Fortes Lopes um apologista deste modelo de divisão regional que, como referimos, corresponderia a uma primeira fase, posto o que – querendo as populações – se avançaria para uma regionalização ilha a ilha.

Após a intervenção gerou-se um vivo debate entre dois elementos da assistência e o autor. A próxima apresentação e debate acontecem na próxima sexta-feira, 22, pelas 19 horas, na Biblioteca Municipal da Ribeira Brava.

 

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