PRAIA D’TEDJA: Magia até ao fechar do pano

. Publicado em São Nicolau

À alegria do êxito da edição deste ano do festival do Tarrafal, junta-se a tristeza de ter chegado ao fim. Mas a máquina já está afinada para o próximo ano, onde a fasquia de exigência está mais elevada. Sons da alma, ritmos intensos e um fecho com chave de ouro são notas deste Festival de Praia d’Tedja 2014. Até para o ano!


 

Utilizando uma linguagem teatral, o pano fechou no encerramento do Festival de Praia d’Tedja, mas a magia fez-se ao palco como no primeiro dia, transformando a areal num espaço de liberdade, de partilhas e cumplicidades. Foi bonita a festa!

A Batucada Copa Cabana marcou o ritmo para aquela que haveria de ser uma noite e madrugada de ouro. Ao toque dos tambores, o público foi-se aproximando do palco, numa impressionante vaga humana que se manteve firme até às sete horas deste sábado. O grupo da Ribeira brava rompeu a noite com a estridência de um rufar que prenunciava nove horas de sons e ritmos, mas também de muita alegria e cumplicidade entre o público e os artistas.

Sons da alma

Naiss d’Socol faz-se ao palco com a genialidade de seu violino, levando o público ao delírio em ritmos de Mazurca, sons das tradições de uma terra que, apesar de migrado no Sal, este homem de Fajã nunca apagou do seu ser mais profundo. O que lhe sai do instrumento é bem mais que um gemido de cordas, são memórias da alma que Naiss partilha com todos fazendo da sua atuação um dos momentos mais altos deste festival, aproximando ainda mais o público do palco, envolvendo numa impressionante comunhão gente de várias gerações. Estava marcado o ritmo para uma edição que fechou com chave de ouro.

Pela primeira vez neste festival, tivemos o grato prazer de estar perante um grande senhor da música caboverdiana. Referimo-nos ao compositor e cantor Daniel (Nhelas) Spencer. Já havíamos dado pela sua presença sóbria e competente no palco de Praia Branca, por altura do Festival da Morna, mas agora tivemos a confirmação da sua reconhecida qualidade. Cinco temas da sua autoria e “Mal acostumado”, de Dudo Araújo, envolveram o público na magia mansa da Morna. São, também, sons da alma o que tivemos ocasião de registar na presença Nhelas em palco.

Ritmos intensos

Com Oliveira e Amigos, vindos diretamente da Boa Vista, inaugurou-se uma fase de ritmos intensos apelativos à agitação dos corpos suados no imenso areal de Praia d’Tedja. A rapsódia de Carnaval e uma miscelânea de sonoridades deram o tom para os momentos que se seguiram e guinaram a noite para uma viagem de alegria esfusiante.

“Cosa sab” levou ao palco Ell Cosme, um jovem da Ribeira Brava que vive há nove anos na cidade da Praia e se lançou nestas coisas da música seis anos atrás. RnB, Zouk, Rap, deram o ritmo para trinta minutos de atuação em que Ell Cosme, aos poucos, foi conseguindo a atenção do público e envolvendo-o numa sonoridade nem sempre fácil ao primeiro contacto. Um estilo muito virado para gente mais nova e urbana, onde o jovem artista parece ter o seu público referencial.

Puto Máquina é um ciclone em palco, tendo na dança a sua “praia” natural. A presença em palco é um misto de várias coisas onde a coreografia, a música e o humor se misturam uma receita que parece agradar ao público mais dado a folguedos. Na sua primeira atuação em São Nicolau, Puto Máquina afirmou-se como um caso raro de capacidade de comunicação e empatia com um público heterógeno, atravessado por várias gerações e preferências. A receita está na interação com a assistência, empurrando pessoas para o palco, como a menina de “fogareiro grande” que, logo no início, envolveu o artista num abraço cúmplice com a multidão.

Meia hora depois das duas da madrugada, T-Cla-2 subiu ao palco e manteve a batida intensa, agitando os corpos da assistência e escaldando o areal de Praia d’Tedja, antecedendo a entrada muito aguardada de Johnny Ramos, já a caminho das quatro da madrugada.

Fechar com chave de ouro

O ex-Splash, regressa, dez anos depois, a um palco de São Nicolau. Proveniente da Holanda, onde reside, mas com origens em Cachaço, Johnny Ramos veio associar-se à homenagem aos emigrantes que, este ano, a autarquia decidiu ter como pano de fundo das festividades do município. Um momento de grande significado, levando ao palco o edil, José Freitas de Brito, que fez as honras da casa anunciando o artista. Numa navegação entre os temas do seu reportório e visitações pelos projetos Mobass e Splash, Johnny Ramos cantou e encantou não frustrando a grande expectativa que rodeou a sua atuação.

Uma atuação que teve de ser suspensa, decorrente de uma avaria no sistema interno de energia, a que a intervenção da rápida dos técnicos da 3S deu resposta pronta em dez minutos. Coisas normais em eventos desta natureza que em nada maculam o brilho do festival. Eram 4 horas da madrugada quando Johnny regressou ao palco, antecedendo a fantástica I Banda - “prata da casa” de uma ilha que é pródiga em artistas.

Pouco passava das 5 horas quando a & Banda subiu ao palco, da Ribeira Brava, envolvendo o público numa fusão de estilos e preparou a entrada da “estrela” da madrugada, Nish Wadada, que fez questão de acentuar a qualidade dos músicos.

Nome as ascensão no panorama do Reggae internacional, presença assídua nos melhores festivais do mundo deste género musical, Eunice Vieira – isto é, Nish Wadada – subiu ao palco de uma terra que também é sua para encerrar a edição do Festival de Praia d’Tedja. Eram sensivelmente 6 horas da madrugada quando a artista, nascida na Holanda de pais originários do Tarrafal, envolveu o público num potentado de voz e presença em palco, numa viagem pelos sons intensos do Reggae e perpassando mensagens que nos falam da necessidade de uma revolução dos espíritos, de indignação pela corrupção e pela manipulação promovida por poderes obscuros, pela libertação humana e a identidade africana dos caboverdianos. Ideias que serão a base do novo disco já em preparação.

Palmas para a organização

Como no dia anterior, o alinhamento da edição deste ano foi executado escrupulosamente, fazendo deste festival um caso raro de cumprimento de horários e de profissionalismo, com uma direção de palco irrepreensível a dar lições a outros eventos organizados por “especialistas” e onde artistas e público são muitas vezes desrespeitados. Com esta edição, o Festival de Praia d’Tedja parece ter entrado na sua fase adulta e numa nova etapa que, naturalmente, coloca a fasquia mais alta.

 

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