PRAIA D’TEDJA: Uma noite mágica

. Publicado em São Nicolau

Um primeiro balanço pode já ser feito: o Festival de Praia d’Tedja está a ser um êxito. Grandes artistas em palco, um público fantástico e um escrupuloso cumprimento de horários marcaram o primeiro dia da grande festa da música no Tarrafal de São Nicolau


 

Por vezes é difícil expressar por palavras o que nos vai na alma, e isso aplica-se inteiramente à edição deste ano do Festival de Praia d’Tedja, mais concretamente em relação ao primeiro dia. Fiquemo-nos, pois, por uma noite mágica.

Ao contrário de outros festivais, onde o público quase se atropela e se sente latente o desrespeito pelas pessoas, na bela praia do Tarrafal de São Nicolau sente-se aquilo que alguém remotamente definiu como morabeza (amorável, simpático, carinhoso…), e que tem na ilha de São Nicolau – para além da Brava, onde parece ter origem a palavra – uma expressão sentida e vivenciada no quotidiano. A morabeza e o civismo imperaram no primeiro dia do festival. É este o primeiro registo.

Em segundo, também ao contrário do que acontece em outros festivais, neste, os horários são cumpridos escrupulosamente. Marcado o seu arranque para as 22 horas desta quinta-feira, foi precisamente a essa hora que os primeiros artistas entraram em palco. E, apesar da longa jornada de nove horas inicialmente prevista, o último grupo deste primeiro dia saiu do palco uma hora depois do tempo previsto (pouco depois das oito horas da manhã de sexta), o que, tendo em conta o extenso grupo de artistas em presença, faz deste Festival de Praia d’Tedja um exemplo de rigor e de boa organização, a fazer inveja às maiores empresas caboverdianas de produção de espetáculos.

Santos da casa fazem milagres

Contrariando a máxima popular de que “santos da casa não fazem milagres”, a atuação dos Talentos do Tarrafal, um coletivo de jovens músicos e cantores, veio provar precisamente o contrário. Neste caso, poder-se-á dizer que “santos da terra fazem “milagres” e que, apesar de não serem ainda considerados “grandes estrelas” do panorama musical, não deixam nada a dever aos nomes mais sonantes da música caboverdiana.

Pelo profissionalismo (apesar de serem amadores), pela manifesta empatia com o público, Kénio, Réven, Tchon e Leroy Pinto (na foto) honraram a abertura do festival e afirmaram-se como nomes a ter em conta para o futuro. E muito bem esteve, de igual modo, a banda de suporte liderada por Didi (violão), que integra Nemias (baixo), Tony (bateria), Braz (percussão), Deiri (teclados) e Vá (guitarra).

Noite começa a aquecer

Embalado pelos sons destes jovens talentos, o público começa a afluir à parte fronteira ao palco e a entrar todo por inteiro nos ritmos da noite. Como uma onda, as pessoas agitam as ancas e erguem os braços ao som da música, aquecendo ainda mais a obscuridade morna banhada pelo mar calmo. O mote da noite estava lançado: a alegria domina o areal e os jovens marcam o ritmo da mole humana.

O caminho estava aberto para o grupo ribeirabravense Pedragal. Morna, Coladeiras, Zouk, Reggae fazem-se à noite e apresentam no palco a vencedora do Talento Strela, Leontina Fortes, que cantou e encantou o público com aquela inconfundível e envolvente voz que convenceu o júri do concurso musical. Este grupo está ao nível do que de melhor se faz hoje em Cabo Verde. E o cliché recorrente de que os caboverdianos têm a música na alma não justifica tudo. Há ali uma qualidade que só se alcança com muito trabalho e com músicos de excelência.

Um grande senhor da música

Um dos momentos mais aguardados da noite era a entrada em palco de Mamadou Sulabanku, um senegalês radicado no nosso país desde 2000, e que encontrou na cidade do Mindelo a sua segunda casa. Na sua primeira atuação em São Nicolau, a expectativa era grande e o músico e cantor não deixou créditos por mãos alheias.

Mamadou Sulabanku, fusão do seu nome de batismo com o projeto que junta músicos de várias proveniências, é grande em tudo: de altura e, fundamentalmente, de voz – um instrumento que utiliza com tudo no lugar, envolvendo com os ecos de suas cordas vocais a mole humana que já enche por completo o areal de Praia d’Tedja, num abraço de várias culturas. Um momento muito apreciado por todos, mas particularmente vivenciado pela crescente comunidade da África Ocidental que escolheu o Tarrafal para viver, trabalhar e ajudar ao desenvolvimento local.

Mamadou Bhour Guewel Sene - de seu nome de batismo - navegou pelos ritmos ancestrais do Senegal, abrindo pontes com a música tradicional caboverdiana e os ritmos universais da world music, a Mazurca, o Afropop e as músicas urbanas da cosmopolita cidade do Mindelo, numa fusão de ritmos, de transpirações da alma e de entrega total no palco.

Ser muito bom não justifica tudo

É assim: de facto, ser muito bom não justifica a longevidade de um grupo que, desde 1994, se impôs com uma das maiores referências da música popular caboverdiana. Incompreensível, à luz do “raciocínio lógico”, é que esta banda mantenha inalterável a grande empatia com o público, continuando a provocar explosões de agrado e de cumplicidade logo percetíveis à primeira vista. Referimo-nos a Cordas do Sol.

Pelo palco desfilaram os temas recorrentes de “Lume d’Lenha” – um dos melhores álbuns da música popular caboverdiana (para não dizer da worl music) que imortalizou o grupo de Santo Antão e faz dele uma das referências musicais da atualidade. Mas não só, Arlindo Évora – o líder informal das Cordas do Sol – quis trazer a Praia d’Tedja um “cheirinho” do próximo álbum, “Na montanha” (que brevemente entra em fase de gravação e é uma homenagem a Santo Antão). “Peixeira”, o tema executado pela primeira vez perante uma grande plateia, provocou um autêntico efeito de “mola” com a incondicional adesão do público, ou não estivéssemos numa ilha onde a pesca tem uma importância tão grande na vida das pessoas. No palco desfilaram, também, as duas vozes jovens que irão dar a cara pelo novo projeto, trazendo ao grupo uma ausente voz feminina desde a saída de Ceuzany.

Com o refrão de “Peixeira” na ponta da língua, o público deu o primeiro sinal de que o tema será, bem provavelmente, o cartão-de-visita do novo projeto musical do grupo e fazendo prever que “Na Montanha” repetirá o êxito de “Lume d’Lenha”.

Lugar aos novos

Antes do desfecho deste primeiro dia, consagrado com os memoráveis Ferro Gaita, pelo palco passaram ainda nomes da nova música cabo-verdiana, como DJ Hebraico (na foto), Rary Silva, Rapaz 100 juiz e Jay.

O mais jovem DJ caboverdiano confirmou aquilo que parece ser já um lugar-comum, as suas incursões no terreno do Soul Foul House e Afrobeat mobilizaram os mais jovens numa onda de cumplicidade com o jovem natural da Ribeira Brava. DJ Hebraico é, de facto, um grande nome deste género musical, o que parece ser extraordinário vindo de alguém que há tão pouco tempo era uma criança. Imaginamos onde ainda poderá chegar.

O autor de "Nha Feeling" (o seu mais recente álbum veio apenas confirmar o que já se sabia, particularmente ao interpretar "By the way", um tema do álbum que montou residência nos ouvidos do público mais jovem. Também natural da Ribeira Brava (e familiar de DJ Hebraico), Rary Silva navegou pelas sonoridades da Kizomba, Afrobeat, Afrohouse e Zouk Love, aquecendo ainda mais a noite de Praia d’Tedja e fazendo até despertar aqueles que, cansados da longa jornada festivaleira, já se haviam recolhido ao aconchego de mantas e lençóis no areal.

Antecedendo Jay, os Rapaz 100 Juiz agitaram a praia e mantiveram o público em ululante sintonia e acompanhando com os corpos os temas daquele que é considerado um dos melhores grupos de Rap/Hip-Hop-Reggae & RnB e que por tal foi consagrado no Cabo Verde Music Awards 2011.

Temas de “Claridade” e “Voz di Vozes” (os títulos do primeiro e segundo álbum) obrigaram o público a manter-se desperto e a vibrar com um grupo que faz da ironia uma corrosiva forma de crítica social.

“Orgulho”, o tema oficial dos IX Jogos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), deu o mote para 50 minutos de uma fantástica viagem pelos ritmos de “Mi ku Bo”, o ábum que catapultou Jay para a visibilidade e faz dele uma referência da nova música que por cá se faz. Sempre presentes, as sonoridades do Rap, do Jazz e do Funaná envolveram a mole humana e arrastaram o público até à chegada dos “velhos da noite” que encerraram o primeiro dia do fantástico Festival de Praia d’Tedja.

Reis do Funaná

Encerrando o primeiro dia, já com o intenso sol das sete horas matinais, os Ferro Gaita subiram ao palco e despertaram os últimos dorminhocos da noite que não resistiram a serpentear os corpos ao som dos temas de Fundu Baxu, Rei di Tabanka e Rei di Funaná – os álbuns referenciais deste grupo de Santiago.

“Quintal di Belinha” e outros temas, fizeram perceber o porquê de serem considerados os reis do Funaná e da Tabanka, bem assim uma das maiores referências da música caboverdiana além-fronteiras.

 

Leia mais adiante: Conversas com Mamadou Sulabanku e Arlindo Évora

 

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Comentários (1)

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  • obrigado JSN por mandar as noticias a tenpo e hora sobre nos festival saonicolau. onde sta nos tcv, mas sao nicolau e ta manda. proximo ano mi cre sta riba kel palco. força

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