AMIGOS DAS ILHAS: “É dever do ser humano ser solidário”

. Publicado em São Nicolau

JSN andou a entregar doações com João Câncio, o presidente de uma associação de emigrantes caboverdianos residentes em Itália que tem vindo a realizar um meritório trabalho de solidariedade em São Nicolau, mas não só. Da cidade do Tarrafal, a Cabeçalinho e Fragata, foi uma tarde de emoções vividas intensamente


 

A Associação Amigos das Ilhas tem fundação formal desde setembro de 2011, no entanto, a sua ação solidária é bem anterior a esta data, quando um grupo de amigos sentiram como obrigação atender às necessidades do povo das ilhas, em particular de São Nicolau, a origem de boa parte da comunidade caboverdiana residente em Itália.

Não é o caso do presidente da associação, João Câncio, nascido no Sal, no entanto, muito ligado à ilha do Chiquinho, onde viveu durante a infância e parte da adolescência.

No último sábado, JSN acompanhou Câncio e o representante da associação em São Nicolau, José Cabral (que é também diretor de Ambiente e Saneamento, e do Gabinete de Estudos da Câmara Municipal do Tarrafal), num périplo que nos levou a duas residências da cidade e às escolas básicas de Cabeçalinho e Hortelã.

Ser solidário

No Tarrafal, João Câncio quis conhecer duas pessoas que têm vindo a receber o apoio da associação. Antoninho Maninha, um homem de 45 anos, que há dois está confinado a uma cama, decorrente de uma trombose, precisa de fraldas descartáveis, um material que é muito caro no mercado, e conta desde essa altura com a solidariedade dos Amigos das Ilhas. Antoninho é uma figura bem conhecida das gentes da terra, durante anos pedreiro e grande humorista cuja doença deixou consternados os tarrafalenses. Ainda assim, este homem precocemente remetido à invalidez mantém uma grande alegria de viver e, apesar de não falar, mantém ainda o sentido de humor que expressa por gestos.

A próxima paragem foi em casa de Maria Francisca (Marê Chica), uma senhora formalmente registada com 105 anos, mas que os familiares suspeitam ter bem acima dessa idade. Um caso de longevidade de uma mulher que foi esposa de António Biscaia, um pescador português da ilha da Madeira, contratado pela SUCLA para ensinar a arte da pesca industrial aos tarrafalenses. Também confinada a uma cama (e necessitando de fraldas descartáveis), Marê Chica mantém ainda uma lucidez impressionante.

Emoções à flor da pele

No Cabeçalinho várias pessoas nos aguardam: mães, crianças, gente da terra e a professora Maria Paixão. O bidão proveniente de Itália contém roupas, calçado, massas alimentares, pratos, cadernos, canetas, lápis e borrachas que, por certo, irão ser de grande utilidade, como sublinhou a professora em breve agradecimento. Por exemplo, os pratos da escola têm já mais de vinte anos, de plástico, riscados por duas décadas de mão em mão.

João Câncio emociona-se ao recordar os seus tempos de menino pobre, onde ter um caderno ou uma caneta não era coisa fácil nem acessível a toda a gente. Por isso, emigrante em Itália, onde exerce as funções bem remuneradas de zelador de um prédio da burguesia romana, o presidente da associação sentiu ser uma espécie de imperativo moral ajudar o povo das ilhas por razão de um princípio de conduta que partilha há vários anos: “É dever do ser humano ser solidário”, diz como que a justificar a ação que os Amigos das Ilhas vêm empreendendo.

Em Hortelã a sala está mais composta. O jovem professor Jair Ribeiro, diretor da escola local, mobilizou pais, encarregados de educação algumas crianças para receberem Câncio. As palavras trocadas são marcadas pela emoção e o presidente da associação, mais uma vez, recorda a sua origem humilde, as suas raízes e o que faz mover os Amigos das Ilhas. Jair agradece em nome de todos e garante distribuição criteriosa das ofertas idênticas às de Juncalinho.

Não é fácil dirigir uma escola onde as dificuldades são mais que muitas, desde logo ao nível da alimentação das crianças. A horta escolar é de grande apoio à dieta alimentar e o almoço ali servido chega a ser, apesar da precariedade do conduto, a melhor refeição do dia para a maioria das crianças. A FICASE apenas fornece arroz, feijão e óleo e um subsídio anual de quinhentos escudos por criança, qualquer coisa como cinco mil escudos por ano – uma ridicularia. Neste contexto, o professor Jair tem necessariamente de fazer “milagres” para prover às necessidades alimentares dos seus meninos.

Uma vida de trabalho marcada pela solidariedade

Ainda menino, João Câncio rumou do Sal a Queimadas, hoje pertencente ao município da Ribeira Brava, mas aos 16 regressou à ilha natal. A fazer 63 anos, Câncio partiu para Itália com 23 (em 1975, três meses antes da Independência de Cabo Verde), e percorreu, como todos os emigrantes, um caminho ascendente até ao lugar bem remunerado que hoje ocupa. Em Roma, começou pelo trabalho doméstico, passou a motorista particular e ainda trabalhou com empregado de mesa em restaurantes. Só em 1993, dezoito anos depois da chegada a Itália, conseguiu a ocupação atual.

“Emociono-me sempre quando falo do meu tempo de menino, com muitos sacrifícios”, uma emoção (parece-nos) que o faz trocar o conforto de uma vida pacata pelo trabalho associativo e pela “militância” solidária ativa. “Construí alguma coisa com a minha mulher e acho que é justo ajudar os que estão pior”, sublinha com os olhos marejados de lágrimas incontidas. É assim este homem, não consegue, por mais voltas que dê, ocultar aquilo que, lá no fundo, o faz mover, a ele e aos Amigos das Ilhas.

O João diz que “nunca poderia ter uma vida tranquila sabendo que podia fazer alguma coisa, para ajuda ruma pessoa que está a sofrer, e não fazer”, justifica-se. Mas não era preciso. É percetível, logo ao primeiro contacto, que o bem fazer está inculcado no seu ser mais profundo. E impressiona a humildade, quase que a pedir desculpa por estar ali e “apenas” trazer “tão pouco”. O seu trabalho solidário é antigo, bem anterior à associação, quase sempre no anonimato e juntamente com amigos caboverdianos residentes em Roma.

A associação tem diversificado a sua ação, uma das contempladas tem sido a Delegacia de Saúde de São Nicolau. Um gerador, aparelhos de electrocardiograma e ecocardiografia e material hospitalar foram doados pelos Amigos das Ilhas, como também apoios pontuais aos mais fragilizados, a requalificação e construção de moradias, o auxílio a doentes evacuados, o apoio a escolas e, pontualmente, a estudantes caboverdianos em Portugal. Mas a ação associativa estendeu-se já a São Vicente e ao Sal.

A oficialização da associação junto das autoridades italianas, vai permitir ampliar a sua ação, apresentando projetos, recorrendo a fundos nacionais e da União Europeia e realizando o sonho de abrir uma sede. Entretanto, os Amigos das Ilhas suportam a sua atividade com as cotas dos associados e a organização de passeios por sítios históricos e religiosos de Itália, mas também rifas, bailes e festas caboverdianas, mas pouco porque o aluguer das salas é muito elevado.

A grande aposta, neste momento, vai no sentido do reconhecimento público da sua atividade pelas autoridades italianas, o que, como já se disse, abre portas a outras possibilidades, nomeadamente, a abertura de uma sede onde a associação possa ter a sua atividade, já que até agora o suporte de retaguarda tem sido as residências particulares dos membros da direção. A sede poderá vir a ser, também, um autêntico centro de divulgação dos produtos e da Cultura do arquipélago.

Uma queixa sentida e partilhada por João Câncio tem a ver com exorbitância das taxas alfandegárias pagas nos portos caboverdianos, porquanto parece incompreensível que produtos doados, decorrentes da solidariedade, tenham de pagar o mesmo que aqueles destinados ao comércio. Uma situação que exige medidas imediatas, como, por exemplo, uma iniciativa legislativa apresentada pelos deputados eleitos pela emigração. Fica a sugestão.

 

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