ONDINA FERREIRA: Gabriel Mariano entre a Lírica e a composição musical

. Publicado em Opinião

Vamos, primeiro, à apresentação biográfica do poeta. José Gabriel Lopes da Silva Mariano, cuja ilha natal é São Nicolau, onde nasceu na Vila Ribeira Brava, em 1928 e ilha também da sua infância. Os progenitores, ambos saniculaenses. A mãe, Maria Lopes da Silva Mariano, o pai, João de Deus Lopes Mariano, estudou no Seminário de S. Nicolau e lá foi funcionário público


 

Como se escrevia antigamente, nas cartas familiares: “escrevo estas mal traçadas linhas” escutando romanticamente (Isto não passa. Nem com a idade! Incorrigível!) a morna “Mudjer Bonita,” cuja letra é de Gabriel Mariano [na foto] e a música de Jacinto Estrela. Belíssima, nostálgica e magistralmente interpretada pelo piano de Chico Serra, pianista de mãos cheias que felizmente estas ilhas acarinham. Já agora, vale também dizer – o seu a seu dono! - que estou a ouvir a melodia através do blogue «Praia de Bote» de Joaquim Saial e que li o comentário de Zito Azevedo, outro internauta afamado e aclamado do «Arrozcatum» que julgava que era a morna homónima de Eugénio Tavares. Mas desfez logo aquilo que não chegou a ser uma pequena confusão, causada pela homonímia do título de ambas as composições.

Já agora, e como boa crioula que sou, vou entrar na “riola,” (ah! Nada como uma boa riola! Ah! Ah! Ah!) ratificando que a outra morna do mesmo nome (Mudjer bonita, pa el dabo gosto, pa el dabo cu bo amor…) a autoria é mesmo de Eugénio Tavares. A letra vem inserta nas suas «Mornas – cantigas Crioulas»

No entanto, eu própria, e durante algum tempo, julguei que a autoria dela fosse do Sr. Djoloca Feijó, talvez levada pelo facto do filho, o meu amigo Van (João Maria Feijó) a cantar tão bem nos nossos convívios, “in ille tempore.” …

Perdoem-me este pequeno intróito, que foi uma forma de dar corpo ao meu propósito, ao meu intento, em escrever hoje sobre alguma poesia lírica de Gabriel Mariano.

Aproveito para transcrever a letra de “Mudjer bonita” do poeta em análise e a música como aqui referida é de Jacinto Estrela. Não sem antes agradecer à minha amiga Dulce Ferreira Lima que ma enviou e a conseguiu da São Rocheteau, a quem também estendo os agradecimentos. De facto, esta morna «Mudjer Bonita», é mais executada e conhecida sob forma instrumental do que cantada. Daí não me ter sido fácil a busca da letra.

Nhor Deus screbê, nhor Deus dixâ

Nô tem qui cre pa nô bai céu

nha fé sagrado é um só na mundo,

é fé de Amor, fé de cretcheu.

Coro

Bejal na odjo,

Bejal na pêto, bis

bejal na boca

má co respeto.

II

Mudjer bonita é que é mudjer

mudjer bonita é qui ta credo

si bô atchal na bô caminho

pertal co força, pertal sem medo.

Coro

Mudjer bonita é ca dês mundo

é bem di céu, el é sagrado

si Deus dábo el pol num altar

pamode é scada qui ta ba céu.

IV

Mi nha cretcheu é más bonito

qui tudo santo qui tem na altar

odjo gaiato, riso sereno

ca tem na terra, ca tem na mar

G. Mariano, o meu poeta revisitado, dividiu-se entre a lírica escrita e a cantada, embora o peso da escrita tivesse sido muito maior.

Ora bem, para além da morna citada, Gabriel Mariano escreveu o poema e quase hino: “Sina de Cabo Verde” para a morna homónima, também em parceria musical com Jacinto Estrela. Este igualmente, grande compositor e senhor de melodias lindíssimas e de letras, que fixaram em alguma mornas, para sempre, e como ninguém, as majestosas montanhas e o mar bravio da ilha da Santo Antão.

Trago igualmente à colação, um artigo do ensaísta Luiz Silva em «Latitudes» nº.16 de Dezembro de 2012, intitulado: «A Homenagem a Gabriel Mariano». Nele recorda o articulista, a rica diversidade da produção deste autor, particularizando a produção de muitas peças teatrais, e destaca uma: “Os Clandestinos no Céu,” ao tempo (meados dos anos 50 do século passado) representado com êxito, no Grémio Recreativo Castilho em Mindelo, ilha de S. Vicente.

Nestas actividades culturais juvenis, ele esteve sempre muito ligado a Jorge Pedro Barbosa, outro poeta, já aqui recentemente visitado. Colegas liceais e co-fundadores também do jornal liceal: “Restauração”. Para além de terem sido parceiros, co-guionistas e escritores de peças de teatro, foram também organizadores de saraus, de récitas, que naquele tempo, e no então prestigiado Liceu de Gil Eanes, não faltavam.

E neste (re)buscar Gabriel Mariano, gostaria de me deter um pouco, num outro registo poético que ele nos legou, a poesia lírica.

Não vá sem dizer, que todos ou, quase todos que o lemos e o apreciamos, conhecemos bem melhor se calhar, o lado poético extremamente interventivo, a sua verve e o seu verbo protestativos e, fundamentalmente libertários, bem adequados a uma determinada época e a um contexto histórico. G. Mariano é célebre pelo seu “Capitão Ambrósio” pela seu “ Caminho Longe -Ladeira de São Tomé” pelos “12 Poemas de Circunstância”, entre outros, e muitos mais e que o distinguiram e o distinguem como um autor incontornável na poética cabo-verdiana, do século XX.

Vamos, primeiro, à apresentação biográfica do poeta. José Gabriel Lopes da Silva Mariano, cuja ilha natal é São Nicolau, onde nasceu na Vila Ribeira Brava, em 1928 e ilha também da sua infância. Os progenitores, ambos saniculaenses. A mãe, Maria Lopes da Silva Mariano, o pai, João de Deus Lopes Mariano, estudou no Seminário de S. Nicolau e lá foi funcionário público. Era também poeta e conhecido colaborador do Almanaque de Lembranças (1854-1932).

Gabriel Mariano viveu alguns anos na Praia. Fez os estudos secundários (os exames finais) na cidade do Mindelo. Vivia com os pais e irmãos, na cidade da Praia, na ilha de Santiago, onde, com explicadores, preparava os exames. Mais velho dos irmãos, e porque estes iam começar o Liceu, o progenitor, decidiu mudar-se com a família para Mindelo, onde G. Mariano terminou o Liceu. Os estudos universitários fê-los na Faculdade de Direito de Universidade de Lisboa. Jurista de profissão – foi Conservador dos Registos e Juiz, em Portugal, Angola, S. Tomé e Príncipe, Moçambique e Cabo Verde. Opositor do regime salazarista e pró-indenpendendista de Cabo Verde – Regressou a Portugal após 1974, e durante o conturbado período da independência das ilhas. Aí trabalhou como Juiz – Desembargador, vindo a falecer em 2002.

Descendente de um meio familiar privilegiado em que a boa leitura e a cultura eram quase domésticos e familiares como ele próprio no-lo diz através da interessante entrevista que deu a Michel Laban no Vol. I – «Cabo Verde Encontro com Escritores». Eis as palavras esclarecedoras de Gabriel Mariano: “A ilha de S. Nicolau, onde eu nasci, foi uma ilha muito rica do ponto de vista cultural, porque foi a ilha onde surgiu o primeiro instituto de ensino, digamos superior – que foi o Seminário de Cabo Verde, onde estudou o meu pai” (…) No meu caso específico, individual, eu nasci de uma família que pertencia àquilo que vocês aqui na Europa, chamam a média ou a alta burguesia.(…) Do lado materno, os Lopes da Silva que constituíam uma das grandes famílias da ilha de S. Nicolau (…) Os meus avós já eram indivíduos dados às letras, às artes, com curiosidade intelectual. (…) Esse ambiente familiar de muita cultura, contaminou-me desde criança (…)”.

Autor de vasta obra em que sobressaem contos, poemas, estudos e ensaios sobre a cultura e a identidade cabo-verdiana. Nota-se que nestas duas últimas modalidades, os estudos e ensaios, o autor explicita muito claramente o apreço pelo valor acrescentado, que ele confirma ter acontecido no processo da mestiçagem cabo-verdiana, o que ele ninudencia de forma exemplar por ter contribuído (causa/efeito) para que cedo o cabo-verdiano, o crioulo, ou o mulato, no dizer do autor, fosse senhor das suas ilhas e se apossasse intimamente da sua identidade e da sua cultura. Daí que, sem qualquer hesitação, e como ponto de chegada das suas muitas análises, Gabriel Mariano tenha chegado à seguinte conclusão, transmitida ao investigados francês Michel Laban na obra, já aqui citada e que vale a pena ler ou reler, para se entender de vez, que a questão identitária que se punha aos intelectuais do continente africano não se assemelhava à nossa, ou melhor, não se coloca aos nossos grandes intelectuais, como alguns pretenderam forjar a questão aqui nas ilhas.

Ora oiçamos (lendo a tese) Gabriel Mariano: “(…) a começar nos intelectuais africanos de língua francesa; no Senghor, no Césaire, penso nos das colónias portuguesas, no Agostinho Neto, No Mário de Andrade, penso no Mondlane, etc. Porque esses grandes patriotas eram indivíduos, tal como o Senghor e o Césaire, um tanto desfasados das suas raízes africanas – O Césaire, não tanto por ser da Martinica, onde já havia e há, um substrato cultural forte e diferenciado da cultura francesa. (…) Mas o Senghor, o Damas, tal como o Agostinho Neto, eram indivíduos que, sendo africanos, pertencendo, vindo de determinadas comunidade, eram depois, pela força do próprio colonialismo, separados dessa comunidade cultural, porque nem sequer sabiam a língua, nem sequer a falavam… Não sabiam, não compreendiam, não escreviam a língua deles. Havia um fosso cultural entre esses intelectuais todos que eu citei e as respectivas comunidades. O que não acontecia em Cabo Verde onde falamos o crioulo do berço à cova… Não é por acaso que surge com o movimento da negritude, a temática do regresso às origens (…) Eles, efectivamente, digamos um poeta como o Neto ou como o Senghor que sendo afro-negros em todo o sentido da palavra – quer do ponto de vista étnico, quer do ponto de vista sociológico – todavia, a partir de certa altura, cortaram-lhes o cordão umbilical e passaram a ser ou «franceses» ou «portugueses». E então, quando eles se aperceberam disso, puseram-se a si próprios o problema do regresso às origens. Ora em Cabo Verde isso não aconteceu. As nossas raízes sempre estiveram em nós” Fim de transcrição e o negrito é meu.

Como forma de exemplificar parte dos ensaios, de Gabriel Mariano, mencionaria: «Cultura Cabo-verdiana», com um notável prefácio do Prof. Alberto Carvalho e edição da Vega, 1991, uma colectânea que reuniu alguns dos mais importantes estudos de Gabriel Mariano. A propósito, afirma Alberto Carvalho: “ (…) Com esta formulação do problema da aculturação humana no mundo crioulo, G. Mariano desdramatiza todos os processos relativos à colonização das suas ilhas (…)” Fim de transcrição.

A sua célebre e bem conseguida análise, «Amor e Partida na poesia crioula de Eugénio Tavares ou Inquietação Amorosa» escrito em 1951, ainda estudante do Liceu, cedo o catapultou como um dos mais profundos estudiosos das coisas e das gentes da terra que o tempo e a sabedoria acrescentariam e confirmariam em muitos estudos posteriores que este autor nos legaria.

Para além de autor, Gabriel Mariano foi um activista cultural de grande dimensão nestas ilhas. Fundou em 1958, com Carlos Alberto Monteiro Leite, o “Suplemento Cultural,” separata do «Boletim Cabo Verde» e que viria a constituir-se em marco inovador na poesia cabo-verdiana. Conferencista, palestrante em vários eventos na Praia e em Mindelo, na defesa da cultura e da cabo-verdiana que à época, e no contexto de Cabo Verde de então, (anos 50 e 60 do séc. XX) a defesa desses valores se justificavam amplamente.

Mas hoje, queria recordar aqui, volto a repetir, os seus versos líricos e ricos. Tão simples como isto. Começaria pelo poema /dramatizado, intitulado: “De quem são os teus Olhos?”

- Tu já não gostas dos meus beijos como dantes!...Ou gostas?

- Queres dizer que assim é que se passa contigo…

- Tu tens uma maneira muito especial de responder…

- É que quando digo uma coisa ponho o caso em mim primeiro

- Mas não foi isso que te perguntei!

- Então o que foi?

- Já te disse…

- Diz outra vez…

- Ainda gostas dos meus beijos como dantes?

- Porque é que perguntas?

 - Responde.

- Eu sim. E tu?

- È o que devias ter dito há muito tempo.

- E tu?

- Eu também?

- Não, tu não.

- Eu não porquê?

- Tu não. Eu sei…

- Com é que tu sabes?

 Eu sei…vejo na tua cara…às vezes sim, outras não.

 - E hoje?

- Hoje não…

- Porquê?

 - Tens o olhar vago…

- Olhar fraco?

 - Olhar vago!

 - Tu disseste olhar fraco…eu não estou doente.

 - Eu disse olhar vago…tu estás longe…

- Longe?

- Tu não estás aqui…

- Como é que tu sabes?

 - Vejo na tua cara…tens o olhar vago…

- É que tenho as pálpebras muito pesadas. Palavra de honra.

- Tu estás sempre pronto a dar palavra de honra…

- Se o que eu digo é verdade.

- Há dias deste palavra e no entanto passaste-me um pau…

- Passei-te um pau?

- Sim senhor…Tu disseste-me que tinhas ido direitinho para casa e não fostes…

- Foi má companhia que apareceu no caminho…

- Má companhia não! Foste porque quiseste…

- Os amigos só servem para desencaminhar as pessoas…

- Para desencaminhar não. Tu foste porque quiseste…

- Os amigos só servem para desencaminhar as pessoas…

Para desencaminhar não. Tu foste porque quiseste…

- Já te disse que não.

- Então porque é que foste?

 - Fui por causa deles!

- Ah, eles é que te obrigaram…Tu não

 querias ir, pegaram-te nos pés e nas mãos e

 levaram…te à força…Vai enganar outra. Tu foste porque quiseste.

- Já te disse que não e eu não sou mentiroso…

- Não te chamei mentiroso…

- Estou farto de dizer que não gosto que me chamem mentiroso.

- Eu não disse que tu és mentiroso…

- É a mesma coisa.

- Se tu achas que é a mesma coisa é porque então és mentiroso.

- Se sou mentiroso tu também és mentirosa…Porque é que há dias me disseste que saías às 7 e saíste às 5?

- Eu?

- Tu, sim.

- Já te expliquei…

- Não me lembro…

- Não te disse que saía às cinco porque não era certo.

- Mas saíste às cinco…

- Saí às cinco.

- Então porque é que não me disseste na véspera?...

- Tu és burro!

- Não sou burro nada! Tu é que és cínica! Porque é que não me disseste na véspera: “Olha, eu amanhã não sei se saio às cinco ou às sete”…?

- Não te disse porque tinha umas compras a fazer e eu sei que não gostas de compras…

- Quer dizer, a minha presença incomodava-te… Eu estorvava-te… Quer dizer, tu tens interesse em andar sozinha…

- Eu não disse isto…

É a mesma coisa. Doido é quem tem confiança em ti.

- Se não tens confiança, arranja outra…

- Não é preciso dizeres.

 - Acaba o namoro e arranja outra.

- Eu arranjo. Mulheres é o que mais há na terra.

- Tu és convencido…

- Eu?

 - Pensas que todas gostam de ti…

- Então eu sou bonito…

- Então porque é que arranjaste namoro comigo? Se eu não fosse bonito tu não arranjavas…

- Tu és leviano…Pensas que toda a gente é como tu?

− Tu não és como eu?

− Não!

− Então és vaidosa.

− Vaidoso és tu.

− Tu és vaidosa porque pensas que és bonita.

− Eu ou tu?

− Eu tinha dito que gostaste de mim porque eu sou bonito. Tu disseste que não és como eu, quer dizer, não és como eu que só gosto de gente bonita. Portanto tu estás convencida que és bonita…

− Queres dizer que gostas de mim?

− Eu não disse isto…

− Tu és leviano!

− Tu é que és leviana!

− Se eu sou leviana arranja outra que não seja leviana.

− Eu arranjo, não é preciso que ninguém mo diga…

− Acaba o namoro e arranja outra…

− Eu arranjo. Mulheres é o que há mais na terra.

− Estás a ver?

− Estou a ver o quê?

− Tu não disseste que arranjas outra?

− E tu, não disseste para eu acabar o namoro?

− Eu disse mas tu não devias dizer…

− Então o que é eu devia fazer?

− Tu ficavas calado!

− Ah, eu ficava calado?!... E tu porque é que disseste? Tu é que começaste!

− Eu disse porque me irritaste…

− E agora? Ainda estás irritada?

− Estou!

− Não é preciso armar esta cara… Eu não te fiz nada…

− Tu pensas que o meu ouvido é chiqueiro para ouvir tudo quiseres e ficar com a mesma cara?

− Estás a chamar-me porco?

− Eu não te chamei porco.

− Tu disseste se eu penso que teu ouvido é chiqueiro para as minhas palavras!... Se teu ouvido não é chiqueiro para as minhas palavras, são palavras de porco. Tu não me conheceste a comer farelo!

− Eu disse porque estava irritada.

− Uma pessoa quando está irritada deve tomar cuidado com o que sai da boca.

− Culpado és tu…

− E agora?

− Agora, o quê?

− Ainda estás zangada?

− Não sei…

− Se não sabes, então estás zangada.

− Eu não disse que estou zangada…

− Se não disseste, então não estás…

− Não estou para afligir o meu espírito com as tuas coisas…

− Eu não disse?

− Não disseste o quê?

− Que já não estavas zangada…

− Não estou porque não quero…

− Vejo na tua cara…

− Se tu achas não estou zangada…

− Se não estás zangada diz-me uma coisa: de quem são os teus olhos?

− São da leviana. Não disseste que sou leviana?

− Estás a ver que ainda estás zangada? De quem são os teus olhos?

− Meus!

− Só?

− E quem quiser!

− Estás a ver que ainda estás zangada?!

− Não estou, não!

− Tu estás sim!

− Pergunta outra vez…

− Pergunta o quê?

− Pergunta outra vez…

− De quem são os teus olhos?

− São teus.

Diálogo de um lirismo escorreito e repassado de fino humor. Um duo de vozes. Um par masculino/feminino, numa conversa amorosa, de tom coloquial e sem perder o toque terno de diálogo íntimo entre jovens e enamorados. Este texto poético/dramático tem sido bem aproveitado para o teatro. Recordo nomeadamente, a representação levada à cena pelo grupo teatral MindelAct.

E continuaria a lírica de G. Mariano, com o poema que se segue “Vela do Exílio” versos inspirados e vazados num tempo e num momento que foram particularmente dolorosos para o poeta.

Vela do Exílio

Acendi hoje uma vela

De estearina na fina

Mesinha onde escrevo.

Enquanto ela me ardia

De chama para os meus olhos

Velhas lembranças seguiam.

E subido sobre a parede

Da velha casa onde moro

O mapa árido e breve das ilhas do Cabo Verde.

//

Que vento não vem ou se agita

No barco

Em forma de vela

Por dentro da casa fechada!

Que voz materna no écran

Da ilha difunde

Meu nome em projecto?

//

Acendi hoje uma vela.

E enquanto me ela queimava

Por sobre a mesa pessoas

Vivas e mortas passavam.

//

Vela do exílio acendida

Na noite de Moçambique:

Pesado, inútil veleiro.

Vela do exílio, meu filho

Com apenas um sopro apagas

A vela, o exílio não.

(Moçambique, 1965)

O poeta, expressa nestes versos a tormenta do exílio, o desespero pela injustiça sobre ele cometida e o aguilhão da saudade. Aqui se juntam para lhe trazer à lembrança a “voz materna” que se confunde com a ilha que tão longe ficou. Uma quase ode, repassada de nostalgia e de assomos de revolta, que o labor poético transfigurou em metáforas sofredoras.

Distinguido com vários prémios pelos seus trabalhos literários, entre os quais se destacam: o 1º Prémio, modalidade, conto do «Boletim Cabo Verde» em 1950. 1º Prémio do conto nos Jogos Florais da Universidade de Lisboa, em 1957; e nos Jogos Florais da Universidade de Coimbra, em 1958. Prémio Literatura Africana, (Portugal) 1976 pelo livro de contos «Vida e Morte de João Cabafume». Prémio Vale Flor (Portugal) em 1996. Distinguido com a Ordem do Vulcão (Cabo Verde) em 1999, entre outras distinções e homenagens, que o poeta, o contista e o ensaísta recebeu merecidamente.

Gabriel Mariano é um dos poetas, cujos textos e entre nós, são muito lidos, declamados/ditos e apreciados.

Da minha parte, gostaria de continuar a falar sobre este incontornável poeta da lírica e da poesia de intervenção social e política do séc. XX destas ilhas, mas o texto já vai longo e convinha finalizá-lo se não, corro o risco de o leitor não o ler até ao fim. Embora este escrito constitua apenas uma modestíssima revisitação. A verdade é que o poeta e o ensaísta que é Gabriel Mariano merece ser lido, apreciado e estudado.

Ondina Ferreira | Coral Vermelho

 

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