ESTÃO EM SÃO NICOLAU: Emil e Liliana há 30 anos à volta do mundo

. Publicado em São Nicolau

O casal suíço Schmid, que já figura no Guinness Book of Records e tem sido entrevistado por prestigiados órgãos de comunicação internacionais, está no Tarrafal até à próxima semana. JSN esteve à conversa com Emil e Liliana que se dizem encantados com a morabeza das gentes e maravilhados com Carbeirinho e o Carnaval da ilha do Chiquinho


 

Ao volante de um velho Toyota Land Cruiser, o casal suíço Liliana e Emil Schmid anda há 30 anos à volta do mundo e está desde a passada semana em São Nicolau. Aos 42 anos, Liliana e Emil, resolveram trocar a vida sedentária que levavam para meter rodas ao caminho e percorrer um a um o maior número possível de países. A “louca” aventura começou há 30 anos e a ex-secretária e o ex-informático não estão arrependidos. Pelo contrário, mesmo passada a fronteira bonita dos setenta anos, o casal já não se vê a fazer outra coisa que não seja esta vida de andarilhos.

Em São Nicolau desde sexta-feira, 28, o casal Schmid ficou muito sensibilizado com a receção que teve no Tarrafal. É que o edil local, José Freitas de Brito, fez questão de os cumprimentar à saída do barco e a Câmara Municipal resolveu apoiá-los nesta estada entre nós, um apoio que, em Cabo Verde, tem sido extensível ao Ministério do Turismo, À Enapor e à Fast Ferry (CVFF). “O povo de Cabo Verde é muito afetuoso”, diz-nos Liliana, acentuando que “esta ilha é mesmo de morabeza e fraternidade”, uma imagem que está já cativa do seu álbum de memórias e viagens.

Uma viagem sem fim

Liliana, a nossa interlocutora em castelhano – a língua de comunicação que utilizamos -, explica como começou esta aventura pelas paragens do mundo. “Tínhamos 42 anos e começamos a pensar ‘como nossa vida vai ser?’, era uma espécie de crise de meia-idade. Com essa idade já tínhamos alcançado tudo o que se pode alcançar numa vida de trabalho, e sempre quisemos viajar”, explica Liliana, adiantando: “compramos o carro em 82 e estivemos mais de um ano para nos decidirmos, porque antes viajávamos sempre de avião”, mas os dados estavam lançados, algum tempo depois empreenderam uma viagem de carro pela Escandinávia, e a partir daí começaram a armazenar algumas coisa para viagens de maior curso, nomeadamente medicamentos, fundamentais em vários países onde escasseiam esse tipo de produtos.

Inicialmente, após a decisão de fazerem “uma coisa diferente”, planificaram uma viagem por um ano, mas o gosto pela aventura entranhou-se-lhes na pele. “Ao princípio ainda pensamos ‘um ano, no máximo dois’, mas agora gostamos desta vida”. De tal modo que Cabo Verde é o 180º país que visitam, “com o mesmo carro e o mesmo motor”, sublinha Emil, que espaçadamente também entrou na conversa.

Já visitaram Santiago, Brava e Fogo, mas tencionam ir ainda, na próxima semana, a São Vicente e a Santo Antão. “Viajar de carro entre ilhas é sempre um problema”, diz Liliana, e Emil acrescenta que, sem rampas de acesso, “o carro tinha de ser içado por uma grua, o que implica um custo elevado”, incomportável para um casal que vive das suas reformas. Os suíços percebem na primeira pessoa o problema que é o isolamento das ilhas, mas entendem as dificuldades de um país com poucos recursos.

Maravilhados com Carbeirinho e Carnaval

Nos próximos dias, Lilana e Emil tencionam visitar Monte Gordo, uma das 7 Maravilhas de Cabo Verde, juntamente com Carbeirinho, que já tiveram ocasião de conhecer e ficaram maravilhados. “É uma imagem única, aquela força da natureza, do mar e do vento, uma sensação de insignificância humana perante a natureza”, diz-nos a suíça, no que é acompanhada pelo marido.

O Carnaval foi passado na Ribeira Brava, um outro momento de encantamento, porque aquela festa também é única, popular, numa grande comunhão de afetos e cumplicidades. “É muito íntimo, é diferente, porque tudo desagua naquela pracita”, diz Liliana, Acrescentando: “gostamos muito de ilhas porque é tudo muito natural e um pouco nostálgico”, no que Emil prossegue acentuando que “em todo o mundo vemos uma parada, com o cortejo a desfilar, umas coisa muito estática, onde o público apenas observa, mas aqui é diferente, as pessoas vão todas para o centro e ficam ali juntas, fazendo parte do mesmo acontecimento, numa situação de respeitosa intimidade”. Uma observação quase recorrente a todos os que, pelo menos uma vez, tiveram o privilégio de aportar à ilha e conhecer o Carnaval de São Nicolau.

Entre o sorriso dos cabo-verdianos e a miséria na Índia

Liliana gosta dos saniculaenses porque “são pessoas abertas, sempre com um sorriso, parece que são felizes, são amáveis e dão-nos espaço”, ao contrário do que aconteceu noutros países africanos, onde foram praticamente cercados por pessoas a pedir dinheiro e a propor negócios.  

A Índia foi o país que mais os marcou. “Tem templos maravilhosos, mas ao mesmo tempo há uma pobreza incrível exposta pelas ruas, que impressiona. Marcou-nos muito a passagem por Calcutá, onde vimos gente a morrer de fome à beira da estrada, mas também a solidariedade entre os pobres, a entreajuda”, refere Liliana com o rosto marcado pela emoção das memórias.

Momentos menos felizes

Na Macedónia viveram uma má experiência, com uma tentativa de assalto muito traumatizante. “Normalmente dormimos no carro, era de noite e estacionamos junto a uma colina, tencionando passar ali pernoitar. De repente, um outro carro subiu a colina em nossa direção, saíram dois tipos a dizer ‘não podem ficar aqui’”, relembra Liliana que nos narra a fuga que empreenderam por uma pequena estrada e a altura em que ficaram bloqueados pelo carro dos supostos assaltantes e por um outro que, entretanto, se havia colocado na traseira do Land Cruiser. Valeu o sangue-frio de Emil que, numa fuga para a frente, aproveitou uma pequena aberta para se colocarem a salvo, não sem antes terem abalroado a viatura dos dois homens que, na estrada, exibiam, de forma intimidadora, machins e exigiam que o casal saísse do carro. Escondidos num bosque, Liliana e Emil apenas aguardaram pelas seis da manhã para transpor a fronteira com a Bulgária. Situações idênticas aconteceram na Guatemala e, por incrível que pareça, na “civilizada” Austrália. No entanto, não passaram de sustos sem consequências.

Incidente com a polícia no Fogo

A única experiência menos boa que tiveram no nosso país ocorreu na ilha do Fogo e, surpreendentemente (ou talvez não), o caso passou-se com agentes da Polícia Nacional (PN). “Não foi propriamente um problema, eles queriam um papel verde, qua nós não tínhamos, e uma senhora da polícia mandou chamar um carro, chegaram quatro agentes armados, com cara de pouco amigos, que nos obrigaram a ir à esquadra, mas, entretanto, Emil ligou para o Ministério do Turismo, na Praia, e o ministério esclareceu quem nós somos e porque não tínhamos esse papel. Tudo foi esclarecido, mas antes trataram-nos como se fossemos criminosos”, refere Liliana, adiantando que à saída da ilha outros agentes também implicaram com o mesmo, mas foram socorridos por um policial que tinha estado envolvido no primeiro incidente. Por fim. Lá seguiram para o barco, mas fica-lhes na memória a agressividade dos agentes da PN que, pelos vistos, têm dificuldade em perceber que atitudes destas não abonam em nada a imagem do país da morabeza.

Ainda não têm um destino definido, mas o mais provável é que Liliana e Emil Schmid rumem a Malta, o país assente num rochedo. Claro está, após aportarem a São Vicente e Santo Antão. O casal figura já na edição de 2014 do Guinness Book of Records e tem sido notícia em prestigiados órgãos de comunicação internacional (ver fotos), mas mantém aquela salutar simplicidade de quem liga pouco à fama e prefere viver a vida trago a trago, saboreando os encantos e emocionando-se com as misérias deste nosso mundo.

AAP

 

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