UMA VERDADE INQUESTIONÁVEL: Abandono de São Nicolau impede desenvolvimento

. Publicado em São Nicolau

Não há ninguém que não associe o atraso da ilha à deficitária oferta de transportes, particularmente o transporte naval. Empresários, autarcas e políticos, mesmo os que apoiam o partido do governo, reconhecem o problema mas poucos têm esperança que se resolva a breve trecho


 

O grande embaraço ao desenvolvimento de São Nicolau é o isolamento provocado pelas deficitárias ligações marítimas e aéreas. Uma situação a que o governo ainda não conseguiu dar resposta, apesar das promessas feitas recentemente por José Maria Neves e Sara Lopes aquando da inauguração do novo terminal de passageiros do aeródromo da Preguiça, ocorrida em setembro último. As promessas, em matéria de transportes – principalmente marítimos -, parecem ser as únicas “novidades” oferecidas aos saniculaenses na última década. E a isso se referem todos os agentes económicos ouvidos pelo Jornal de São Nicolau. Embora boa parte deles tenha preferido falar em “off”. São Nicolau marca passo, uma verdade inquestionável.

 

Sara Lopes garante

 

A ministra das Infraestruturas e Economia Marítima garantiu que a rota de e para São Nicolau vai contar ainda este ano com novas embarcações. Sara Lopes, que acompanhava o Primeiro-ministro na visita à ilha do Chiquinho, realizada em setembro, deu como certa a chegada a Cabo Verde do segundo catamaran que irá reforçar a unidade já existente - o “Kriola” - ao serviço da Cabo Verde Fast-Ferry (CVFF).

 

O “Liberdadi” – o nome da nova embarcação -, ainda segundo a ministra, chegará em dezembro e o navio “Praia d’Água” também regressa ao mar do arquipélago, tendo na sua rota São Nicolau. Mas melhorias dignas de nota serão mais visíveis até junho de 2014.

 

A melhoria das ligações aéreas também está a ser equacionada pelo governo, estando no horizonte a possibilidade de serem efetuados voos diários, uma velha reivindicação dos saniculaenses. “Temos estudos neste sentido e vamos agora mobilizar recursos para subsidiar a TACV”, garantiu Sara Lopes. Mas mesmo que estas alterações se venham a realizar em breve trecho, a não ser agilizada a escala na ilha do Sal, viajar da Praia para São Nicolau continuará a ser um transtorno que, no mínimo, ocupa meio dia dos passageiros, com os transtornos daí decorrentes.

 

De qualquer modo, se não houver mudanças ao nível do transporte aéreo, o investimento feito com o novo terminal de passageiros não passará de um “elefante branco”.

 

Dados oficiais comprovam abandono

 

Dados divulgados pela Empresa Nacional de Aeroportos e Segurança Aérea (ASA) dão conta que, no primeiro semestre deste ano, se registou uma quebra acentuada (30,6 por cento) do número de voos domésticos, tendo reflexos diretos na consequente baixa do número de passageiros, na ordem dos 15,7 pontos percentuais. Uma situação decorrente do facto de haver apenas um aparelho (ATR) a fazer as ligações entre as ilhas do arquipélago.

 

Esta situação tem tido consequências esmagadoras, por exemplo, ao nível demográfico, com a perda de população residente que, resultado do isolamento crescente de São Nicolau, tem procurado outras paragens para organizar a sua vida. Os dados disponíveis remontam a três anos atrás, sendo previsível que hoje o decréscimo demográfico se tenha acentuado de forma ainda não possível de contabilizar.

 

Dados do Censo’2010, promovido pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), indicam que em 2000 São Nicolau tinha uma população residente de 13.735 habitantes e que, em 2010, teria havido uma redução de mais de 7 por cento, passando o número de habitantes para 12.817. E o isolamento, como se compreende, tem reflexos no mercado de trabalho: o mesmo INE indica que em 2012 a taxa de desemprego se situava nos 17,3 pontos percentuais, sendo de prever que este ano o número de desempregados tenha disparado como consequência da crise económica e financeira que domina o País e os seus principais parceiros internacionais.

 

Falta de visão estratégica

 

A ideia consensual entre os operadores económicos é a de que, na prática, parece não haver uma visão clara em matéria de políticas de transportes, unindo o País no plano das ligações aéreas e marítimas, única forma de, por consequência, unificar os mercados e fazer disparar o desenvolvimento económico das ilhas e o progresso social.

 

Famílias, empresários e comerciantes sentem na pele os custos da insularidade e, a não haver uma inversão da tendência dos últimos anos, será impossível canalizar investimentos para uma ilha que não conta na rede nacional de transportes e que, segundo os próprios TACV, não é considerada prioritária para os seus planos de voo. Aliás, os turistas, tais as incertezas das ligações, nem se aventuram a visitar São Nicolau e a população está sujeita até à possibilidade de perda de vidas humanas, dado que acidentados, doentes graves e grávidas são, não raras vezes, transportados em frágeis barcos de pesca.

 

Saniculaenses estão fartos da falta de transportes

 

O nosso jornal ouviu, em setembro, operadores económicos, autarcas e deputados de São Nicolau e o sentimento é unânime: todos reconhecem que o transporte marítimo é fundamental para o desenvolvimento da ilha. Sem ligações regulares de qualidade e a bom preço é impossível fazer florescer a economia, travar o problema do desemprego e dar mais qualidade de vida às famílias, condições fundamentais para fazer a ilha despertar do sono profundo a que tem sido votada pelos poderes públicos.

 

Durante esta semana, grandes entrevistas dão vez e voz aos protagonistas económicos e políticos de São Nicolau. Esta segunda-feira publicamos a Grande Entrevista com Francisco Spencer, gerente da mais antiga empresa de São Nicolau, a conserveira SUCLA. Um dia depois será a vez de um outro empresário: Tomás Gualdino Delgado. Seguem-se os edis da Ribeira Brava e Tarrafal, respetivamente, Américo Nascimento e José Freitas de Brito, bem como os deputados da nação Carlos Ramos e Nelson Brito.

 

Abrimos, assim, um debate alargado sobre o desenvolvimento de São Nicolau. Um caminho que é para continuar, envolvendo cada vez mais pessoas, desde as mais mediáticas figuras a “simples” e anónimos cidadãos fartos da falta de transportes e dos empecilhos ao desenvolvimento da sua ilha.

 

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