EMANUEL BARBOSA: Governo permite que emigrantes sejam humilhados

. Publicado em Opinião

A nossa Diáspora exige deste governo uma nova atitude que passe essencialmente pelo cumprimento das suas obrigações de defesa e proteção dos caboverdianos, onde quer que estejam e pelo respeito dos seus direitos


 

Não é admissível que a Constituição garanta um direito fundamental, que é o direito ao voto dos emigrantes caboverdianos, e o governo do PAICV, por via indireta, através de esquemas de secretaria, persista em sonegar tal direito aos nossos emigrantes.

Por que será?

Será que o PAICV pretende regressar ao passado, quando, mesmo no quadro da abertura democrática, negou o direito ao voto dos emigrantes?

Será que tem medo dos votos dos emigrantes?

Eventualmente, tem a consciência de que nada tem feito em prol dos nossos emigrantes e receia ser penalizado nas urnas, como o foi nas últimas eleições legislativas em que perdeu dois mandatos nos círculos eleitorais da Diáspora.

É mister que o PAICV fale claro e nos diga se quer ou não que os emigrantes participem nos atos eleitorais de 2016.

É mister que diga se, nesta matéria, quer ou não cumprir com a Constituição da República e com o Código Eleitoral.

O que não pode é continuar com este jogo duplo, aparentando que quer quando não quer e tudo faz para que não aconteça.

Situação dos evacuados é vergonha nacional

Outra matéria contra a qual me insurjo é o que vem acontecendo com os doentes evacuados para Portugal.

Devo dizer que é uma vergonha nacional.

É uma situação que merece um pedido de desculpas por parte deste governo que destratou a dignidade humana destas pessoas, empurrando-as, gratuitamente, para uma situação de drama social inqualificável.

É o maior exemplo de má gestão, de incompetência e, quiçá, de alguma negociata em que alguém vem lucrando com a desgraça dos doentes evacuados.

É que não se compreende por que razão são colocados em pensões sem qualidade nenhuma, sujeitando-os a situações indignas, misturando-os com ratazanas e baratas, em quartos exíguos, insalubres, com paredes a rachar, com tectos a cair, com humidade por tudo quanto é lado, sem nenhumas condições de higiene, quando, com os mesmos recursos, se podia fazer mais e melhor.

A estes mesmos doentes são pagos míseros subsídios que sempre lhes chegam às mãos com atraso de mais de três meses.

São estes mesmos doentes que são afrontados pelo sistema de saúde caboverdiano, que não os pôde tratar, mas que se acha competente para lhes decretar alta e para os fazer regressar compulsivamente a Cabo Verde.

Tudo porque o governo do PAICV orienta-se, essencialmente, por critérios economicistas, colocando em segundo plano a dignidade destas pessoas.

Ao governo de Cabo Verde e à embaixadora em Portugal são reclamadas explicações. Devem explicações objetivas à nação caboverdiana, caso queiram libertar-se do ónus de terem atirado para o fundo do poço da desgraça pessoas que, pelo que passam, precisavam de apoio, conforto e carinho e não que se lhes compliquem as suas situações.

Um ministério fantasma

É este governo de desmandos que permite que o seu povo seja humilhado em plena luz do dia, como aconteceu com os caboverdianos do bairro da Vila Maria, em Setúbal, enquanto permanecia mudo e quedo.

É este governo que permite que consulados honorários enganem os emigrantes, falseando as tabelas dos emolumentos, como aconteceu e ainda acontece em Marselha, em que se chegou a ponto de cobrar mais do dobro para emissão de passaportes.

É este governo que partidariza a relação com a nossa Diáspora, colocando na direção do Ministério das Comunidades um comissário político que justifica o seu salário passando todo o dia no Facebook, utilizando os recursos do Estado, defendendo e fazendo campanha para o PAICV.

É este governo que criou um Ministério das Comunidades inócuo, um ministério fantasma, diga-se, que não consegue apresentar uma única política global e estruturante para os emigrantes, apesar dos propagandísticos planos estratégicos e de outros documentos afins que vem produzindo, que não passam de um conjunto de folhas soltas que, de eficácia, pouco ou nada exibem.

No entanto, ferozmente, tenta ocupar espaço e sedimentar posição em áreas que de facto justificaram a sua criação. Pois, trata-se de um ministério que é, sobretudo, um instrumento de campanha do PAICV junto das comunidades emigradas. E é neste quadro que se compreende a criação recente do estúdio de comunicação e imagem do Ministério das Comunidades, o que não acontece em nenhum país moderno e que tem laivos de barata propaganda política.

É nosso entendimento que o ministério entrou num setor que não é da sua vocação e que criou mais uma instituição destinada a acomodar os seus comissários políticos e tentar levar a cabo a lavagem cerebral dos emigrantes incautos quando, havendo boa-fé, podia, num quadro de transparência, incentivar e cooperar com a estação pública - e não só -, incitando a produção de conteúdos sérios relacionados com a nossa Diáspora.

A nossa Diáspora exige deste governo uma nova atitude que passe essencialmente pelo cumprimento das suas obrigações de defesa e proteção dos caboverdianos, onde quer que estejam e pelo respeito dos seus direitos.

Emanuel Barbosa | Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

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