DIREITOS HUMANOS: Escritora Grace Beatriz denuncia “condições desumanas” dos doentes evacuados para Portugal

. Publicado em 11ª Ilha

A também ativista pelos direitos dos evacuados traçou um cenário lamentável das vivências daqueles que rumam do arquipélago para tratar da saúde numa terra desconhecida, e responsabiliza as autoridades cabo-verdianas e os oportunistas de, respetivamente, abandonarem e explorarem os evacuados. Segundo a escritora, há até mães a prostituírem-se nas ruas de Lisboa para dar sustento aos filhos doentes


 

A escritora e ativista cabo-verdiana Grace Beatriz denunciou as “condições desumanas” dos doentes evacuados do arquipélago para Portugal. "Os nossos doentes chegam a Portugal de havaianas em pleno inverno e são muitas vezes esquecidos no aeroporto pelos representantes da Embaixada de Cabo Verde em Lisboa", disse Grace perante uma plateia chocada com o relato, ao participar na 31ª edição do Festival das Migrações, no Grão-Ducado do Luxemburgo, onde reside uma grande comunidade cabo-verdiana.

"Numa das pensões existe uma única casa de banho, com condições desumanas, onde cerca de 30 pessoas têm os seus cuidados de higiene diários", disse ainda a autora de "Saudades de Danny", acrescentando que "para cozinhar, as pessoas fazem fila porque o único fogão que existe só tem duas bocas e uma delas está avariada". É que, ao chegarem a Portugal, apenas três pensões, com condições "escandalosas", albergam os doentes deslocados.

Desleixo das autoridades cabo-verdianas

Segundo Grace Beatriz, a responsabilidade é, principalmente, das autoridades cabo-verdianas que fazem transportar tardiamente os doentes para os tratamentos – principalmente de oncologia – e apenas atribuindo um subsídio de sessenta euros mensais para despesas de transporte em Portugal, alimentação, produtos de higiene e vestuário. Um valor francamente insuficiente e – dizemos nós – até insultuoso para a dignidade das pessoas. Estima-se que o fluxo de doentes para Portugal estará na ordem das 50 a 60 pessoas/ano, na sua maioria doentes oncológicos ou com insuficiências renais.

Desunião, oportunismo e prostituição

A escritora lamenta a desunião dos cabo-verdianos e o oportunismo de pessoas e entidades com relação direta aos doentes. "Há muita gente que se aproveita da vulnerabilidade dos doentes", acusou Grace, sustentando que "as autoridades dos dois países deviam fiscalizar mais as pensões e as condições em que vivem os nossos doentes", e congratulando-se por haver cada vez menos evacuados para tratamentos no exterior do país. "Neste momento cerca de 50 pessoas chegam por ano para tratamento, antes eram 90. Muitos tratamentos já são feitos em Cabo Verde, mas ainda falta muito para fazer. Sonho com o dia em que os nossos doentes não precisem de sair do país deixando os seus filhos e familiares para morrerem longe numa terra que não é a nossa", desabafou a ativista.

Grace denunciou, ainda, que muitas mães de crianças evacuadas são obrigadas a prostituir-se nas ruas de Lisboa para garantir o sustento dos filhos.

Comunidade pouco participativa

A escritora e ativista, reportando-se ao evento em que participou, lamentou a fraca participação da comunidade cabo-verdiana no Luxemburgo. "Vieram poucas pessoas mas é assim a nossa comunidade. Contudo, aqueles que vieram mostraram-se muito sensibilizados com esta causa, o que para mim já é uma vitória", disse Grace Beatriz ao Contacto, um jornal online dirigido, principalmente, à comunidade lusófona residente naquele país e em Portugal.

Quem é Grace Beatriz

Grace Beatriz tem um historial de activismo pelos direitos dos doentes evacuados. Em 2005 lançou à estampa "Saudades do Danny" (na foto), que conta a história dramática da vida e morte de um jovem cabo-verdiano, de apenas 22 anos, evacuado para Portugal e que nunca mais regressou à terra-mãe.

Em 2013, Grace publicou o seu terceiro livro - "Bia, minha mãe" -, passando ao papel as memórias e vivências sobre a sua mãe, a migração da família de Santo Antão para São Vicente (onde a autora nasceu), procurando vida melhor e o pão de cada dia. Pelo meio, publicou ainda o romance “Adeus, meu Amor” (2010).

Terminado o curso comercial em São Vicente, a escritora rumou a Portugal para frequentar o ensino universitário, mas as dificuldades económicas foram mais fortes e Grace viu-se obrigada a emigrar para a Holanda, o país onde ainda reside.

com Aleida Vieira/Contacto

 

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Comentários (4)

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  • o que anda a fazer esse parasita do arnaldo andrade que nunca o vi a defender a nossa gente em portugal
  • É uma afronta!!!!
  • Onde andam Cristina Fontes Lima e Janira Hopffer Almada? Estas senhoras têm de ser chamadas à responsabilidade porque não se brinca com os nossos patrícios. Deixem-se de mordomias e hotéis de cinco estrelas quando vêm a Portugal que há-de sobrar algum para cuidar destes infelizes.
  • Isto é uma vergonha para Cabo Verde! É um escândalo de miséria humana que contrasta com a opulência em que vive a nossa embaixadora em Portugal!!!

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