EVACUADOS: Emigrantes na Europa furiosos com governo exigem explicações

Escrito por Antonio . Publicado em 11ª Ilha

Por várias vezes aqui referimos as condições miseráveis em que vivem os doentes evacuados para tratamento clínico em Portugal, mais uma vez abordamos o assunto, desta feita sobre as condições de alojamento numa das pensões de Lisboa onde os caboverdianos são “armazenados” e abandonados pelas autoridades


 

Uma colaboradora da Dany Foundation, uma organização criada pela escritora caboverdiana Grace Beatriz (na foto), redigiu um relatório, após uma visita à Pensão Madeira, onde estão hospedados vários doentes evacuados.

Em pequenos quartos de três metros quadrados são bem visíveis os buracos na parede por onde “saem as baratas e os ratos” (na foto), segundo consta do relatório na posse da fundação. “Um dos doentes perguntou ao dono da pensão se ele podia mandar tapar os buracos e a resposta foi ‘não do meu bolso’”, apesar de receber mensalmente, por quarto, 400 euros da embaixada para dar guarida aos evacuados. As janelas encontram-se sem vidros, forradas a papel de jornal (na foto) e os exíguos quartos são escuros e frios.

“No domingo passado fizeram-me uma entrevista na Radio Italia, via telefone, os cabo-verdianos estão furiosos e querem uma explicação da parte do governo e também querem saber quem é o responsável pelo abandono e miséria dos nossos patrícios doentes”, disse ao JSN Grace Betriz, há vários anos residente na Holanda.

“Eu quero justiça! Detesto a injustiça humana e vou fazer tudo o que me for possível para o governo de Cabo Verde assumir as suas responsabilidades perante os doentes evacuados em Portugal. Se não der certo assim, vou fazer os meus contactos nos jornais e na televisão holandesa”, disse ainda a escritora que, na próxima sexta-feira, parte para o Luxemburgo onde vai também denunciar a forma como são tratados os nossos patrícios.

Fundação nasceu da tragédia de um jovem evacuado

A Dany Foundation nasceu a partir da morte de um jovem, Danny Estevão (então com 18 anos, na foto), que se encontrava evacuado em Portugal para tratamento de uma doença oncológica grave. Grace Beatriz conhecia o pai do jovem, natural de São Vicente.

Danny, que era um dos alunos mais brilhantes do seu curso no ISCEE, teve de esperar dois meses para ser evacuado para Lisboa, apesar de o seu caso ser considerado grave. Dias depois, a escritora visitou-o no Hospital São Francisco Xavier, na capital portuguesa. “Eu não o conhecia e ele também não me conhecia. Entrei no quarto com seis camas, todas ocupadas e na sua maioria com idosos portugueses. Não foi difícil distinguir o Danny – ali deitado, tão magrinho, vestindo um pijama de plástico e, com um ar desorientado –, olhei para ele e ele olhou para mim, sem dizer uma palavra, sabíamos que eu era a pessoa indicada por Deus para o acompanhar e lutarmos juntos contra a pungente doença do cancro”, relembra Grace Beatriz.

“O Danny faleceu no dia 5 de Dezembro de 2004, no IPO [Instituto Português de Oncologia], em Lisboa. Naquela sexta-feira à tarde, já tinha telefonado várias vezes para ele (tinha sempre o seu telemóvel nas mãos, mesmo quando estava no fim da sua vida) como se pressentisse que ia morrer sem ter alguém ao lado”, refere ainda a escritora, acrescentando comovida: “o meu telefonema foi intercetado por uma enfermeira que me disse que ele já não conseguia falar. Fiquei, assim, ao telefone, falando para o silêncio dele até que o irmão chegou ao hospital”.

Grace Beatriz recorda, ainda, uma das cartas que Danny lhe enviou e onde escrevia amargurado: “Eu quando penso nos meus irmãos em Cabo-Verde, fico com o coração muito apertado, queria tanto, um dia, quando tudo passar, se Deus quiser, poder ajuda-los, porque sei muito bem das nossas dificuldades em Cabo Verde”.

A escritora continua a desfilar as memórias de Danny, nomeadamente quando recebeu um telefonema de uma médica indicando que o jovem tinha tido alta para passar o fim de semana fora do hospital, após cinco meses de internamento sem receber visitas. “Naquele momento eu não tinha condições financeiras que me permitissem viajar e tive de fazer um empréstimo de mil euros, para ir a Lisboa e fazer o Danny feliz durante aqueles três dias”, recorda Grace, acrescentando: “passeamos, fomos a Cascais, ele já tinha ouvido falar do hamburger da McDonald’s e lá fomos comer o hamburger. Ficou comigo no hotel dois dias e depois fui levá-lo ao hospital, antes de partir para a Holanda. Acho que foram os momentos mais felizes durante a sua estada em Lisboa”.

Luta do jovem relatada em livro

Após a morte de Danny, Grace Beatriz começou a escrever um livro para o homenagear, relatando a sua luta contra a doença. “Depois de ter escrito o livro ‘Saudades do Danny’, comecei a divulgá-lo junto da comunidade caboverdiana na Diáspora. Numa das viagens aos Estados Unidos, ofereceram-me uma revista americana com um artigo sobre ‘A miséria dos doentes evacuados em Portugal’. Lendo o artigo e vendo as imagens, fiquei chocada. Eu só conhecia a solidão dos doentes no IPO, mas não sabia ainda da existência das pensões. Fiquei curiosa!”, diz a escritora que, a partir daí, tomou sua a luta pela dignidade dos doentes evacuados.

Num primeiro momento, Grace começou a pesquisar na Internet sobre a situação dos evacuados. “Quando fui a Lisboa apresentar o livro na Associação Caboverdiana, falei sobre as pensões e só me diziam que ninguém podia lá entrar. Achei muito estranho, mas não gosto de desistir”, relembra a escritora.

“Num encontro em Lisboa sobre ‘Integração dos Descendentes de Caboverdianos na Diaspora’, em outubro de 2006, conheci a jornalista portuguesa Otília Leitão, marcamos um encontro num café em Lisboa para falarmos um pouco porque ela queria escrever um artigo sobre as minhas atividades. Falei-lhe da minha necessidade em conhecer as pensões onde moram doentes de Cabo Verde. Ela, então, telefonou a um amigo e, dentro de uns minutos, sabia mais ou menos onde era a tal pensão 25 de Abril, no Cais Sodré”, refere.

O “inferno” das pensões de miséria

Em vez de regressar à comodidade do hotel onde estava hospedada, Grace apanhou um táxi e dirigiu-se à pensão. “A porta estava aberta e subi as escadas até ao segundo piso. Não havia nada escrito nas portas e bati com a mão porque não havia uma sineta. Apareceu um senhor que me falou com um sotaque da Praia e convidou-me para entrar no seu quarto que partilhava com mais um doente. Depois levaram-me para um outro quarto com duas mulheres. Sentei-me numa caminha daquelas, porque nem uma cadeira havia naquele quartinho. E enquanto ouvia a história deles, olhava para todos os lados, pasmada, quase sem palavras e não queria acreditar naquilo que ouvia e via com os meus próprios olhos”. A partir daí nasceu a ideia da fundação e, desde então até hoje, Grace Beatriz nunca mais parou.

 

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