PORTUGAL: Doentes evacuados são tratados como animais

. Publicado em 11ª Ilha

A escritora cabo-verdiana Grace Beatriz denuncia mais uma vez as degradantes condições em que vivem os cabo-verdianos do arquipélago em tratamento na capital portuguesa


 

A escritora cabo-verdiana Grace Beatriz, residente em Haarlem, na Holanda, esteve quatro dias em Lisboa (Portugal), onde visitou três pensões em que residem doentes cabo-verdianos evacuados na capital portuguesa. Uma realidade bem conhecida por Grace que, inclusive, já publicou um livro sobre o drama dos evacuados, "Saudades do Danny", e que, em março deste ano, denunciou as condições desumanas em que vivem, votados ao abandono pelo Estado de Cabo Verde.

Num dos espaços, refere a escritora, a “encarregada da pensão ficou atrás de mim a seguir-me, talvez com medo que tirasse fotos e também que os doentes dissessem algo mal da estadia”, acrescentando que “a tristeza, o sofrimento e a raiva dos doentes é bem visível no rosto deles. Crianças doentes graves passam fome, doentes chegam no aeroporto de Lisboa, vindos de Cabo-Verde, e são simplesmente esquecidos”, já que “só aparece alguém da Embaixada para os levar à pensão quando as autoridades do aeroporto telefonam”.

Entre ratos e baratas

As pensões são o que se sabe e tem sido reiteradamente denunciado por doentes, ativistas sociais e jornalistas. Os doentes têm de conviver com ratos e baratas e péssimas condições de alojamento. “Nem lenções limpos há, muitas vezes têm de se deitar nos usados pelo doente anterior”, diz-nos ainda Grace Beatriz, levantando o véu do calvário dos evacuados. “Durante três meses não recebem nenhum subsidio e são empurrados a pedir de comer ao Banco Alimentar Contra a Fome e, graças à solidariedade de algumas mães, acompanhantes dos filhos doentes, que ganham o dinheiro fazendo trabalhos de limpeza, há sempre uma refeição quente para dividir para quem não tem de comer”. A única solidariedade que conhecem, já que o Estado de Cabo Verde prima pela ausência e a mais absoluta insensibilidade. Só três meses após a sua chegada, os evacuados começam a receber um subsídio de 89 euros mensais com o qual têm de fazer face às despesas de transportes, alimentação, produtos higiénicos e vestuário, entre outros. Um valor francamente insuficiente, que contrasta com o que é pago aos donos das pensões.

“Os quartos com duas camas custam 400 euros por mês, e eu sinceramente não percebo porquê. Enquanto lá estava, num dos quartos de dormir que também serve para comer, ouvia-se o ruído dos ratos por todos os lados. As baratas até me passavam pelos pés e o teto está todo esburacado, já lá vão anos”, diz-nos Grace, adiantando que “a comida é feita na cozinha velha e suja, sem panelas ou pratos”, já que são os doentes a ter de comprá-los com os miseráveis 89 euros fornecidos pela embaixada. Apenas dois pequenos fogões elétricos servem de apoio à confecção de alimentos. “Uma das doentes disse-me que cozinham a comida e levam a panela para o quarto mas, se têm qualquer descuido, lá cai uma barata dentro da panela”, acrescenta a escritora.

Embaixada sob o fogo das críticas

As queixas vão todas para a nossa missão diplomática em Lisboa. As condições miseráveis em que vivem os doentes evacuados contrastam com o luxo que rodeia a embaixadora, Madalena Neves, que em nenhuma vez visitou estes cabo-verdianos. “O atendimento na Embaixada, continua sendo uma vergonha. Os doentes são maltratados pelo seu próprio povo que não têm nenhuma formação para atendimento de pessoas”, sublinha Grace Beatriz, que formou um grupo na Holanda, Luxemburgo e Itália para encontrar maneira de melhorar a vida dos patrícios evacuados.

Grace gostaria que o primeiro-ministro lhe dissesse quem são os responsáveis pelo drama destes cabo-verdianos, e gostaria de que lhe explicasse “como é possível que um rapazinho de 22 anos [na foto, com a escritora], natural da Ribeira da Torre [Santo Antão], que nunca tinha saído da sua aldeia, doente grave – com um tumor nos ossos da perna –, seja enviado para Portugal, sem nenhum acompanhamento. Chega ao aeroporto de Lisboa e não estava ninguém da Embaixada à sua espera e o rapazinho ficou desorientado, num ambiente estranho, cheio de dores que mal conseguia andar e só apareceu alguém para o levar à pensão umas horas depois. Chegado à pensão, puseram-no num quarto junto a um outro doente que anda sempre embriagado”.

Governo só faz promessas

O drama deste jovem, em particular, sensibilizou a escritora, prosseguindo no seu relato: “O rapazinho, que não tem ninguém conhecido ou familiar em Portugal, levou com ele cerca de 100 euros que a mãe foi pedir de empréstimo aos vizinhos. Dos cem euros é que ele tem de se alimentar durante três meses, pagar os transportes para ir ao hospital, etc. Ele não tem roupas nem sapatos, quanto mais um telemóvel para manter contacto com a família em Santo Antão, para desabafar com a mãe e contar as suas mágoas. Ele vai sozinho ao hospital fazer os exames e deverá também estar sozinho ao ouvir o diagnóstico”, acentua Grace Beatriz.

Ainda segundo a escritora, “nada mudou neste anos de governo de José Maria Neves” no que respeita aos doentes evacuados. Grace diz que o executivo “só faz promessas não cumpridas”, enquanto “o povo sofre de doença, da fome de injustiças e de solidão”, e defende a necessidade de se pensar uma estratégia para minorar o sofrimento destas pessoas

 

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Comentários (1)

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  • É dessa gente que eu quero ver neste mundo, o resto é só estória. O pessoal do governo penso que são espiritos de luz, mas não são nada, nunca fizeram nada por aqui, é o povo quem faz, tratam a gente como se fosse pedra. caramba!!!

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