AUTARCA CONCORDA COM CRÍTICAS: Transportes “são fundamentais para alavancar a Economia de São Nicolau”

. Publicado em Grande Entrevista

Percebe-se que não é fácil para Américo Nascimento conciliar os interesses do seu município com a circunstância de o seu partido ser governo, mas o edil da Ribeira Brava diz que tudo tem feito para contrariar o isolamento da ilha e fazer crescer a Economia, elevando a qualidade de vida dos munícipes


 

O Presidente da Câmara Municipal da Ribeira Brava é um homem cauteloso, mas depois do “furacão” que a autarquia viveu com o rombo de tesouraria - alegadamente promovido por uma ex-funcionária -, é natural que o autarca se rodeie de cautelas. Na entrevista, fez-se sempre acompanhar da sua assessora de imprensa que, inclusive, gravou toda a conversa.

Depois de um primeiro momento, transpostas as reservas sobre a verdadeira natureza da entrevista ao nosso jornal, Américo Nascimento ficou mais solto e a conversa fluiu sem os constrangimentos iniciais. De qualquer modo, há sempre a cautela acrescida de quem tenta conciliar os interesses do município e das populações com o interesse mais específico do seu próprio partido, que é governo e, por tal, permanentemente sujeito às críticas e indignação de operadores económicos e cidadãos que não entendem as razões de “ciência” que justifiquem o isolamento da ilha e o subdesenvolvimento imposto pela míngua de ligações marítimas.

O edil da Ribeira Brava defende que a economia da ilha – e do seu concelho em particular – deve ter como base a Agricultura e Pecuária, mas considera importante investir no Turismo, contrariando a lógica de massas e implementando pequenas unidades hoteleiras que promovam uma atividade turística mais virada para a natureza.

Jornal de São Nicolau - No que respeita ao transporte marítimo, uma das questões colocadas pelos empresários é a de que é impossível planificar a atividade das empresas e assumir compromissos claros com datas e cumprimento dos contratos. Neste contexto como é que a Economia pode avançar? O mesmo se poderá dizer em relação ao transporte aéreo, o aeródromo tem uma nova sala de embarque mas se os TACV não garantirem viagens mais regulares o investimento de pouco serve.

Américo Nascimento - Relativamente aos transportes, pessoalmente, enquanto presidente da câmara, tenho desenvolvido esforços para que esse problema se resolva ou, pelo menos, se atenue. É um problema complexo e posso-lhe dizer que durante o primeiro mandato tivemos ocasião de trabalhar nesse assunto de forma muito séria e com um grupo de empresários da ilha de São Nicolau. E o processo já estava praticamente a ser ultimado, inclusivamente com a garantia de uma instituição bancária que iria financiar a aquisição de um navio que teria todas as condições, inclusivamente não só para transporte de cargas e passageiros em condições muito boas, mas também para transporte de viaturas, camiões, atrelados… Faltava apenas o processo de aquisição, mas à última da hora uma das pessoas veio a vacilar e, com o agudizar da crise, o projeto acabou por ir água abaixo.

Mas nós continuamos, obviamente, a trabalhar, a procurar uma alternativa, não aquela que gostaríamos que fosse, mas pelo menos que nos dê satisfação para o transporte de mercadorias e de pessoas. Porque acredito que, efetivamente, os transportes, particularmente o transporte marítimo, são fundamentais para o alavancar da Economia da ilha de São Nicolau. Não tanto o transporte aéreo, porque é reduzido em termos de pessoas e bens, mas principalmente os transportes marítimos como unidade que possa garantir uma boa qualidade, uma qualidade satisfatória em termos de ligação entre as ilhas, com alguma rapidez, melhorando o escoamento daquilo que é produzido em São Nicolau e também, obviamente das pessoas, nomeadamente das pessoas que queiram visitar a ilha, porque temos uma população relativamente reduzida, portanto tem de haver alguma capacidade de gerar esse movimento de pessoas e bens e, neste caso, entra também o Turismo para poder viabilizar esse transporte marítimo. De todo o modo, nós ainda estamos a trabalhar nesta matéria e nunca vamos desistir porque, como eu lhe disse, é a solução no nosso ver para o problema não só do escoamento de produtos, mas também na criação de riquezas e, obviamente, com a criação de empregos e diretamente a diminuição de desemprego e, com certeza, também novos níveis de vida das populações não só deste município mas de toda a ilha de São Nicolau. E, para esse efeito, inclusive, nós tivemos a iniciativa de propor logo no início do nosso mandato um encontro com os representantes da autarquia do Tarrafal em que foi abordado esse assunto, entre outros, que diz respeito aos dois municípios.

Ao que parece, havia até uma pequena divergência entre as duas autarquias, que tinha a ver com o facto de a Ribeira Brava achar que se devia constituir uma empresa intermunicipal, e o Tarrafal achava que não, deveria ser uma empresa privada e as câmaras dariam um subsídio.

Não, isso não. O principal é a resolução do problema dos transportes. Seja através do Estado – neste caso, através da iniciativa governamental, ou da iniciativa privada, e não há nenhum problema em relação a isso. O que nós tínhamos abordado tem a ver com outro assunto e que exigiria a constituição de uma empresa intermunicipal – aliás, é uma das exigências do financiador -, que é a questão da produção e distribuição de água e do saneamento.

Tem consciência, portanto, que a resolução dos problemas da ilha passa, de facto, pela colaboração entre as duas autarquias. É impossível estar cada uma a puxar a corda para o seu lado.

Há assuntos que dizem respeito a toda a ilha e a questão dos transportes é um deles, e sempre que haja necessidade de juntarmos esforços para a resolução de problemas comuns estaremos disponíveis para esse efeito.

Em matéria de ligações marítimas, uma outra queixa recorrente, por parte dos operadores económicos, é o excessivo custo do transporte de mercadorias. Deram-me até um exemplo: é mais caro transportar mercadorias de São Vicente para São Nicolau, do que do porto de Leixões (em Portugal) para São Vicente. É o triplo do preço.

O transporte para São Nicolau, em termos de mercadorias, tem efetivamente um custo elevado, mas isso certamente passará pela competitividade. Há muita procura e pouca oferta, e há um aproveitamento. Estamos esperançados que com maior competitividade na área… Para nós, em todo o Cabo Verde, as autoestradas, propriamente ditas, devem ser construídas no mar. Temos um território arquipelágico cuja maior parte é constituído por mar, e uma grande possibilidade que temos em avançar nessa área é nos transportes marítimos. Nessa matéria ainda estamos relativamente atrasados, o que acaba por encarecer o transporte inter-ilhas. Aí passa pelo aumento da frota e maior competitividade nessa área.

Falamos no transporte marítimo, mas o transporte aéreo, particularmente no setor do Turismo, tem também grande importância. Os TACV olham São Nicolau como uma ilha que não tem importância estratégica, decorrente das suas lógicas comerciais. E o argumento é o de que há poucos passageiros, o que é verdade. Mas o que também não deixa de ser verdade é que a circunstância de não haver mais voos para a ilha, inibe os turistas de escolher este destino. Não faltará aos TACV alguma ousadia empresarial? Isto é, sem investimento não se pode comprovar se esta rota é, ou não, viável do ponto de vista comercial. E não caberia ao Estado financiar esta rota?

Os voos inter-ilhas são na sua maior parte subsidiados pelo Estado. Por outro lado, em relação a São Nicolau, acontece que nós temos uma diáspora enorme e muita gente não tem consciência da importância dessa diáspora. Por um lado, queixam-se que diminuiu a população – que tem as suas desvantagens -, mas – e estou a falar da Ribeira Brava – temos mais munícipes na emigração do que cá dentro. E o que acontece é que nas alturas de pique das visitas à ilha, mesmo que não haja uma grande afluência, os voos estão todos cheios apesar de os haver todos os dias menos no domingo. Nas outras épocas temos quatro voos semanais. Isto quer dizer que há um fluxo bastante satisfatório para São Nicolau, acontece é que – e isso já pertence à parte comercial – quando há num determinado sentido não há no outro. Ou seja, no verão, quando os emigrantes vêm, no retorno há diminuição de saída.

Mas nós temos tido encontros com o Conselho de Administração dos TACV, já aí por umas três vezes, e temos colocado essa situação. Não estou a falar em aumentar a frequência dos voos, mas principalmente em termos da demora. Ou seja é preciso fazer o percurso Praia-São Nicolau num período muito mais curto. Às vezes – e isto tem a ver com a parte comercial – não se justifica fazer um voo direto da Praia. Entendo que se faça a ligação pelo Sal, para recolher passageiros, mas o tempo tem que ser muito mais curto. Isto em termos de transportes aéreos. Mas também penso, que neste particular, passa pelo melhoramento dos serviços dos TACV – que é uma empresa pública -, mas também que haja outras alternativas, neste caso marítimas, que possam trazer uma afluência de pessoas maior e em tempo mais expedito para a ilha de São Nicolau.

Mas também só há um avião disponível, o que implica que quando avaria não haja transporte. Isso tem acontecido várias vezes, com passageiros – à ida ou à volta – a ficarem retidos na ilha do Sal.

Isso acontece com as contingências da própria empresa…

Há pouco falou nuns empresários que, por altura do seu primeiro mandato, estariam interessados em investir no transporte marítimo, o que não se concretizou. Mas, entretanto, soubemos que há uns empresários cabo-verdianos residentes na Holanda que têm um barco disponível e que a situação ainda não está resolvida porque estariam à espera de um aval do governo. Tem conhecimento disso?

Não, não tenho essa informação, mas estou sempre aberto e disponível para qualquer iniciativa do género, seja de quem for.Para nós seria mais satisfatório que fosseiniciativa de empresários da própria ilha, porque iriam obviamente defender os interesses de São Nicolau, mas se houver interesse de nacionais, ou não, estaremos sempre dispostos para trabalhar conjuntamente com eles e com o governo para minimizarmos essa situação. Porque eu penso que isso é induzir, digamos, a movimentação, nessas coisas às vezes tem-se a ideia que pode não se justificar, mas é indo à procura que encontraremos soluções. Estou esperançado que, até ao final do meu mandato, possa resolver isso.

Qual pensa ser o grande setor de desenvolvimento da ilha e do seu concelho, em particular. Passa pelo Turismo?

Nós definimos isso já há algum tempo e estamos a trabalhar de forma a planificar aqueles que, para nós, são dois pilares fundamentais, para além de existirem outros, mas estes são os pilares fundamentais: a Agricultura e a Pecuária. E temos um programa municipal de água, que trabalhamos de forma muito séria para não só o abastecimento da população mas também dirigido para a Agricultura, para que haja maior produção agrícola, para criar mais riqueza e mais emprego e debelar a pobreza. E o setor da Pecuária anda praticamente junto, temos grandes potencialidades. Uma Pecuária diferente, de forma organizada, para abastecer principalmente os mercados que nos são próximos, o Sal e a Boa Vista. Tem de ser um trabalho coordenado, em termos de maior produção de água e uma Agricultura, diria, mais industrializada em termos de quantidade e qualidade.

E o sector do Turismo, também não seria importante sendo resolvida a questão dos transportes, até para absorver alguns desses produtos agropecuários?

Não seria totalmente. Pessoalmente entendo que para São Nicolau teremos que ter um Turismo diferente, não um Turismo de massas. As grandes unidades turísticas estão centralizadas no Sal e na Boa Vista, o nosso mercado terá de ser dirigido para aí, mas obviamente que o que é produzido deve ser também consumido na ilha, não só pelos locais mas também pelos turistas. Pensamos num turismo mais ligado à natureza, de qualidade, não de grande dimensão.

Até porque o Turismo de massas nem é aquele que traz mais dinheiro para os locais de destino. Grande parte do dinheiro fica na origem…

Depois, qualquer solavanco que houver, como agora, em tempos de crise qualquer grande empresa terá grandes dificuldades. Nós defendemos pequenas unidades com capacidade para receber os turistas, e São Nicolau é uma ilha por ser descoberta, não só pelos nacionais mas também pelas próprias agências de turismo. Temos esse handicap que é o dos transportes, mas acredito que nos próximos tempos iremos ter navios de cruzeiro a escalar a ilha já com turistas que não procuram mar e praia, mas mais propriamente a natureza.

 AAP

 

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