UMA MENSAGEM POSITIVA: “Não há que cruzar os braços”

. Publicado em Grande Entrevista

 

 

Tomás Gualdino Delgado, um empresário da construção e dos alumínios não compreende como foi possível São Nicolau chegar a esta situação, mas não é homem de ficar parado. Para tornear a escassez de transportes marítimos e o custo exagerado aplicado às mercadorias, fez uma parceria com outro empresário e adquiriu um navio. Se tudo correr bem, outros virão para furar o isolamento da ilha


 

Filho de família humilde, Tomás Gualdino nunca virou a cara à luta. Cedo abalou para os Açores (Portugal) onde construiu um vida de muito trabalho e se tornou empresário. Mas não esqueceu os patrícios: mais de duzentos cabo-verdianos atravessaram o mar rumo ao arquipélago açoriano e, com o apoio do empresário, fizeram as suas vidas e construíram futuros melhores.

Gualdino já empregou mais de setenta pessoas em Cabo Verde, mas a crise e o isolamento da ilha, a carga fiscal elevada e a concorrência ilegal têm vindo a reduzir o número de funcionários, ainda mais porque o empresário tem como referência salarial a Europa, onde os ordenados são muito mais elevados e as condições dos trabalhadores incomparavelmente melhores.

Apesar de tudo, o ex-emigrante ainda mantém uma réstia de esperança e, por isso, resolveu tornear o principal problema da ilha, adquirindo um barco em parceria com outra empresa, neste caso a maior conserveira cabo-verdiana.

O isolamento da ilha não é uma inevitabilidade e a resignação não está no ADN de Tomás Gualdino Delgado.

Jornal de São Nicolau - Parece haver uma ideia recorrente entre os operadores económicos de São Nicolau: na última década, a situação de acesso à ilha em termos de transportes, quer aéreo, quer marítimo, tem-se vindo a degradar. O que, para além de criar grandes incómodos na vida das pessoas, gera grandes constrangimentos na economia. Confirma esta ideia?

Tomás Gualdino Delgado - Realmente isso tenho vindo a confirmar. Já cheguei a estar três meses à espera de sete contentores com mercadorias. As mercadorias ficam na Enapor, com todos os transtornos que isso implica, porque temos de pagar. Se não há navios, as mercadorias têm de ficar ali até ao próximo barco.

Tem duas empresas, uma de construção e outra de alumínios. Já lhe aconteceu o incumprimento de prazos com os seus clientes, por causa dos atrasos no transporte marítimo?

Já não consigo contar as vezes que isso aconteceu. Por exemplo, já me aconteceu fretar barcos para transportar a mercadoria, aumentando os custos e tendo que manter os preços que se praticam no mercado. E por isso é que São Nicolau não se desenvolveu. Têm aparecido algumas empresas na ilha, começam a atividade e, depois, passado alguns meses, têm de ir embora.

Outra queixa tem a ver com o custo do transporte naval. Por exemplo, o transporte de mercadorias de São Vicente para São Nicolau chega a ter um custo três vezes superior ao praticado de Portugal para São Vicente.

Sim isso acontece e temos de andar a negociar com os barcos um melhor preço. Por exemplo, para três contentores, eles fazem um preço de 200 contos e, depois, acabam por baixar aí para os 150.

Há uma coisa que parece não fazer muito sentido. Qualquer governo, em qualquer parte do mundo, quer mostrar obra. O que leva um governo a não tratar de uma coisa tão elementar como é a garantia de transporte para a ilha? Aliás, um direito garantido constitucionalmente. Ou seja, cabe ao Estado garantir os meios para que cidadãos e mercadorias possam transportar-se através do território nacional.

Não entendo porquê. Eu não culpo ninguém em particular, mas alguém tem de fazer alguma coisa. Isto parte do governo, são dez ilhas, nove povoadas, e sabemos que gerir ilhas não é fácil. E, como há ilhas mais desenvolvidas, há a tendência de se investir aí. Mas para as ilhas mais carenciadas o governo deveria arranjar uma saída, é preciso sentar à mesa, analisar a realidade e fazer alguma coisa porque o povo é todo o mesmo: é cabo-verdiano e todos têm os mesmos direitos. Falo por mim, passei parte da minha vida no estrangeiro e não tinha necessidade de estar aqui em Cabo Verde em cima de um fio de linha, a fazer investimentos e ver as coisas a correr tantos riscos. As mercadorias levam muito tempo a chegar à ilha, encarecem muito o preço de custo e a carga fiscal agrava ainda mais a situação. Eu sou um trabalhador, nasci de uma família humilde, resolvi ir para fora para desenvolver qualquer coisa e trazer para o meu país. Espero que não vá acontecer – e tenho lutado para isso -, mas se não houver melhorias as minhas empresas vão ter de fechar as portas.

Quantas pessoas emprega nas suas empresas?

Já tive mais de setenta, mas temos vindo a diminuir, uma redução enorme, precisamente porque não há rendimentos. As minhas empresas não pagam um salário de Cabo Verde, os salários andam dos 120 mil escudos para baixo, isto num país que não tem ainda o salário mínimo. Mas vivi na Europa e vim com aquela ideia porque gosto de ver as pessoas bem. Portanto, os nossos salários são mais elevados.

Esteve emigrado em que país?

Em Portugal, nos Açores, E ajudei a sair de Cabo Verde duzentas e setenta pessoas. Todos foram trabalhar comigo, outros fui ajudando. São pessoas que levantaram a cabeça e hoje têm a suas vidas organizadas. E vim para cá com a intenção de fazer mais em Cabo Verde, mas pus todo o meu trabalho ao longo do tempo paralisado. De qualquer modo, não há que cruzar os braços, tenho quase a certeza que o governo está atento a essa situação. Quando aparecem pessoas que querem fazer algo pelo país, deviam ter um certo apoio. Não é um apoio descontrolado. E aqui há outro problema, os clandestinos, aqueles que fazem concorrência paralela sem pagar impostos e que vão cortando aspernas às grandes empresas e levam muitas a fechar as portas. Os que fazem concorrência ilegal não têm condições para criar postos de trabalho, e é importante que a fiscalização atue.

Entretanto, adquiriu uma embarcação para dar resposta ao problema dos transportes.

É uma embarcação da fábrica SUCLA, como a minha área é mar e trabalhamos com uma parceria muito sincera, estamos a transformar um navio para ser utilizado para carga e, no futuro, criar condições para o transporte de pessoas. Fizemos um acordo e estou em São Vicente, juntamente com os engenheiros, a acompanhar a transformação do navio. E, tudo correndo bem, depois deste navio, virão outros.

AAP

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