EMPRESÁRIO PÕE DEDO NA FERIDA: Desenvolvimento de São Nicolau não se faz “por falta de vontade dos governantes”

. Publicado em Grande Entrevista

 

É esta a opinião de Francisco Spencer, gerente da maior empresa da ilha do Chiquinho e um homem desiludido com os políticos. Em Grande Entrevista ao nosso jornal, o gestor da conserveira de pescado SUCLA é demolidor com os poderes públicos


 

Há treze anos com funções executivas na maior empresa de São Nicolau, Francisco Spencer é um homem desiludido com os políticos e não acredita que o isolamento da ilha possa ser resolvido a breve trecho. Segundo o empresário, é impossível nestas condições fazer projetos para o futuro e vai-se limitando a gerir o dia-a-dia.

 

Para além da carência de transporte marítimo, a falta de pescado – decorrente da fragilidade da frota cabo-verdiana e do saque das embarcações estrangeiras – é outro grande constrangimento. A SUCLA tem capacidade para tratar anualmente quatro a cinco mil toneladas de peixe, mas nunca conseguiu ultrapassar as 700 toneladas. Se não fosse assim, em vez das duas dezenas de trabalhadores permanentes a fábrica poderia empregar mais de 200 pessoas. Imagine-se a “revolução” que isso seria para a economia local, com a melhoria da qualidade de vida das famílias, o inevitável boom do comércio e o aumento das receitas do Estado.

 

A insensibilidade e a falta de justiça social, segundo Spencer, são a tónica da ação – neste caso, da inação – dos governantes de Cabo Verde e sustenta que o progresso de São Nicolau tem vindo a ser adiado “por falta de vontade dos governantes”. Tem razão, e o desleixo a que a ilha chegou parece incluir-se num vastíssimo lote de omissões criminosas e de reiteradas promessas não cumpridas.

 

Jornal de São Nicolau - A vossa marca já tem setenta e muitos anos, é um ex-libris de São Nicolau e de Cabo Verde.

 

Francisco Spencer - Aqui em São Nicolau estabeleceu-se em 1935, mas a sociedade já existe desde 1931. Esteve em Santo Antão, no Tarrafal de Monte Trigo, e depois mudou aqui para o Tarrafal.

 

O vosso maior mercado é externo ou continua a ser interno?

 

É o mercado interno, cabo-verdiano.

Perguntei isto porque cheguei a ver a vossa marca em Lisboa, não me recordo se numa superfície comercial ou em casa de cabo-verdianos.

 

São as pessoas que levam, é uma espécie de exportação paralela. Nós não exportamos para a União Europeia. Aliás, não temos a exportação como uma prática, a não ser agora que temos um cliente nos Estados Unidos, um amigo, a quem retiramos sempre uma parte da produção. Mas não temos produção para corresponder às necessidades do mercado interno, muito menos para o externo.

 

Portanto, fornecem o vosso produto pelas várias ilhas, o que deve ser difícil tendo em conta a escassez de ligações marítimas. Imagino que seja complicado cumprir prazos.

 

Muitas vezes isso acontece, mas nós contornamos isso porque a distribuição em Santiago – que é o maior mercado – é feita por amigos, pessoas por quem nós temos um tratamento especial e conhecem as nossas dificuldades. Aliás, são pessoas que já viveram em São Nicolau durante muito tempo ou são originárias de cá. Vai quando calha. Sabemos que há uma grande procura, reservamos as conservas e logo que aparece um barco enviamos o produto.

 

Quer dizer, ninguém tem a garantia que no dial tal de determinada semana haja um barco para transportar a mercadoria. E isso acontece porquê? É que não faz nenhum sentido.

 

Por falta de vontade dos governantes. Depois da independência adquiriram barcos que faziam ligações entre as ilhas e havia uma periodicidade em que o barco passava cá. E nós já sabíamos isso, era uma vez por mês ou de quinze em quinze dias.

 

Mas tinham a certeza de que o barco ia passar.

 

Tínhamos a certeza. O Estado, antes de garantir a ligação entre as ilhas – que é uma obrigação -, vendeu os barcos e, agora, quase que exigem que os privados aqui de São Nicolau invistam nesse tipo de negócio. 

 

Que os Estados entreguem a exploração dos transportes a privados, isso pode nem ser um problema, mas tem de garantir de facto o transporte público, seja do Estado ou seja dos privados. E, ao que me diz, é isso que não está a acontecer. Isso não faz sentido nenhum. Por que será que isso acontece?

 

Não faz sentido e, nos primeiros anos, quando abordávamos os governos que já tivemos todo este tempo, diziam: “não, nós subsidiamos as ligações para São Nicolau, porque não são viáveis”… essas estórias. Mas os operadores nunca vinham cá, e quando vinham cá diziam: “isso não é verdade, não estamos a receber nenhum subsídio”… não sabíamos nunca quem estava a falar verdade.

 

E não estavam.

 

Não estavam, e dos dois lados ninguém fala verdade.Em cabo Verde é assim.

 

Parece que haveria a intenção do presidente da Câmara Municipal do Tarrafal em juntar esforços com o seu homólogo da Ribeira Brava, para se substituírem ao poder central financiando uma linha de navegação periódica com São Nicolau.

 

Também ouvi falar disso, e se não forem as câmaras a levar isso para a frente penso que o governo central não vai fazer isso. E acho isso muito injusto, não sei porque o fazem noutras ilhas e aqui não.

 

Mas há outras ilhas com o mesmo tipo de problema, estou a lembrar-me da Brava e do Maio.

 

Essas são as ilhas que não contam, que não têm para eles grande interesse.

 

São coisas sem sentido, porque São Nicolau tem ótimas condições para a agricultura e pecuária, para o turismo e para a pesca, para ser um polo de grande desenvolvimento para o Barlavento.

 

Quando as pessoas nos perguntam quais são os nossos projetos, respondemos: “quais projetos?” Nós não podemos fazer nenhuns projetos se o que é básico, a ligação garantida pelo Estado, não é cumprido. Estamos aqui, como temos estado até agora durante oitenta anos, a sobreviver. Não se consegue fazer nada, não se consegue estabelecer um ato comercial, num ano consegue-se um barco que faz algumas ligações com o Sal – e começa a aparecer algum comércio -, mas no ano seguinte desaparece o barco.

 

A vossa fábrica tem à volta de vinte funcionários permanentes, mas há picos de produção e aí vai para duzentas e tal pessoas. O que quer dizer que a SUCLA é a maior empresa da ilha.

 

Somos. E também o maior empregador.

 

Mesmo tendo em conta que a maioria dos postos de trabalho é sazonal. Digamos que a economia local gira muito à volta da vossa empresa.

 

É só ver a localização da fábrica para entender como ela foi importante para o desenvolvimento da cidade.

 

Aqui no Tarrafal, grosso modo, as pessoas ou trabalham na fábrica ou na câmara. E vamos a uma outra questão que tem a ver com algo que me disso há um bocado: e impossibilidade de, nestas condições, planificar o futuro. Mas seguramente que tem – ultrapassados que forem os constrangimentos de ligação com a ilha – ideias quanto à expansão do seu negócio. Pretende, nomeadamente, expandir-se para o mercado mundial?

 

Pretendemos isso, mas primeiro há uma coisa que temos de resolver: o problema da captura em Cabo Verde, porque os operadores da pesca não estão a conseguir resolver isso. Nós só trabalhamos com peixe das nossas águas, não importamos e queremos manter isso, mas temos de resolver o problema da captura. É que nós temos capacidade para trabalhar quatro a cinco mil toneladas de peixe por ano e, até hoje, nunca conseguimos ultrapassar setecentas toneladas.

 

Porque a frota é deficitária e os barcos estrangeiros abarbatam tudo?

 

A frota é deficitária e os barcos estrangeiros não são obrigados pelos governos a deixar aqui uma percentagem, que deveria ser vendida às indústrias. E isso poderia resolver o problema.

 

Portanto, até em termos de captura de pescado há obstáculos ao desenvolvimento do negócio. E o que me está a dizer é que a sua produção não chega a um quinto das capacidades da unidade fabril.

 

Não, não chega. E o ano passado só conseguimos trabalhar cerca de duzentas toneladas de atum.

 

Ou seja, isso quer dizer que se as tais cinco mil toneladas fossem produzidas ia permitir à empresa alimentar postos de trabalho durante o ano inteiro: as tais duzentas e tal pessoas.

 

E produzir mais riqueza para Cabo Verde, equilibrar as balanças de importação e exportação…

 

Isto quase que parece um filme surrealista: primeiro, a ilha está isolada porque não resolvem o problema dos transportes; segundo, não cuidam do próprio interesse nacional, que é garantir o pescado para a indústria?

 

É uma situação lamentável.

 

E sabe-se que os navios estrangeiros vêm para aqui e levam o que querem.

 

Levam o que querem, sem nenhuma fiscalização.

 

Digamos que, resolvida a questão dos transportes e ultrapassado o problema do pescado, esta fábrica poderia dar emprego permanente a mais de duzentas pessoas quando dá a vinte. Estas questões já foram colocadas aos governantes?

 

Sabem mais do que eu o que se passa aqui, simplesmente são insensíveis.

 

Mas o que dizem? “A gente vai ver” ou não dizem nada?

 

Muitas vezes até – porque são muito entendidos no assunto – até sugerem coisas que deveriam ser feitas aqui na fábrica. Querem meter o nariz e dizer coisas que, enfim, não vale a pena… Quererem sugerir coisas é uma desculpa, porque a intenção deles nunca é de fazer alguma coisa por São Nicolau. E falo em termo gerais. O estado de abandono em que está São Nicolau é gritante. É injusto mesmo, uma pessoa estar aqui nesta ilha.

 

Sabemos que Cabo Verde é um país pobre, mas a situação de outras ilhas faz-nos sentir que não somos iguais, o governo não nos olha com os mesmos olhos e isso tenho a certeza. O discurso que eles têm, de tratar todos como iguais, é tudo mentira.

 

Parece que a intenção é manter as pessoas numa situação de fragilidade e de dependência. E isto manifesta-se não só ao nível da economia, com os empresários a andarem permanentemente “com as calças na mão”, mas também na vivência das famílias. Ou seja, manter toda a gente com a mão estendida para utilizar em determinados períodos, nomeadamente nos eleitorais. Não lhe parece?

 

As promessas fazem parte da política – e nós entendemos isso -, agora, não haver sensibilidade, não haver justiça social, é isso que nós sentimos. Existem situações de desigualdade na Europa, mas não é tão abissal como aqui.

 

E consegue vislumbrar alguma possibilidade de isto se modificar? Por exemplo, os empresários da ilha têm alguma associação, algum lobby de pressão sobre o governo, ou é cada um por si?

 

Não, é cada um por si, e penso que São Nicolau não tem capacidade para fazer lobby, porque mesmo as pessoas que são de São Nicolau… E já tivemos muita gente no governo, mas não fazem nada, não fazem mesmo nada pela ilha, O Gualberto [do Rosário] é de São Nicolau e foi Primeiro-ministro durante algum tempo. Mas já tivemos e continuamos a ter pessoas no governo, filhos de São Nicolau. E isso não se traduz em nenhum lobby para ajudar a ilha. Não são capazes de fazer nada.

 

E, se reparar, mesmo os presidentes de câmara que vêm para aqui são pessoas que não vêm para viver em São Nicolau. Vão-me desculpar, mas são pessoas que têm a vida delas lá noutras ilhas e estão aqui durante esse tempo. Portanto, não sei se estão em condições para lutar por São Nicolau, não acredito nisso. Estou aqui, vivo cá, nasci no Tarrafal e sinto isso. Eles estão aqui por um tempo, é uma coisa transitória, não é definitivo, nunca vão sentir o que eu sinto aqui.

 

Está a fazer uma reportagem, com a intenção de pressionar, mas eu também deixei de acreditar nisso, porque estou aqui há muito tempo, já fizemos muitas coisas, já convivi de perto com os políticos, sei qual é a sensibilidade deles, e não acredito nisso de “água mole em pedra dura, tanto dá até que fura”… Costumo dizer que Cabo Verde não tem assim tanta água e a pedra é dura. O que nós aqui fazemos é continuar a lutar e a acreditar em nós. Não sei como, mas acreditamos que um dia poderemos mudar isto.

 

Os processos de evolução dos países são dinâmicos, independentemente da fraca qualidade dos governos ou da incompetência dos políticos, e, normalmente, as coisas são melhores do que quarenta anos atrás. Mas o que me disse – e isso é surpreendente – é que as ligações marítimas com a ilha eram melhores logo a seguir à independência, E tenho a certeza que, nessa época, as dificuldades de Cabo Verde eram muito maiores do que são hoje. E até isso, do ponto de vista da lógica de desenvolvimento de uma sociedade, não faz nenhum sentido.

 

E o contrassenso maior é que havia barcos nessa altura que faziam a ligação, investiram num cais e poucos anos depois desaparecem os barcos, temos aqui um cais que não é o ideal, mas que servia nessa altura. Agora, temos um cais que, praticamente, só recebe o “Mar Liso” semanalmente.

 

E as latas para as conservas são importadas de onde?

 

De Espanha, mas vêm do porto de Leixões [Portugal] para São Vicente. E o engraçado é que nós pagamos, só em fretes, o dobro ou o triplo para vir de São Vicente até São Nicolau, do que aquilo que pagamos de Portugal para São Vicente. E tudo deveria ficar mais barato, em termos de metro cúbico, até porque a Enapor não utiliza estivadores. É muito mais caro do que está regulamentado. Por isso é que o nosso produto é caríssimo. Vem tudo de fora, até o peixe vamos comprar a São Vicente.

 

AAP

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Comentários (5)

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  • nos ilha sta estagnod, no ca tem opção escolha, no ca tem nada, sta na hora grita é um sentimento de revolta ......
  • Grande Chico Spencer. Falou e disse ... Proud of You my friend.
  • Francisco sublinho as suas palavras concordo com tudo o que voce disse mas tambem uma coisa e certa as pessas de Sao Nicolau e prncipalmente aqui do Tarrafal nao estao a colaborar. E que se nao centarmos a mesa e definirmos o nosso destino ninguem vai defenilo. Somos nos que temos que dar um murro em cima da mesa nem que ela parta.Acho que devemos juntar e discutir o nosso futuro. Todo mundo se queixa de tudo e cada um por seu lado nao vamos a lugar nenhum.Estou contigo vamos repensar Sao Nicolau e Tarrafal em especial .Djon Segunda
  • este é um sentimento comum das pessoas de São Nicolau, é revoltante ...
  • Cab Verd D'Speranca

    Bo pov ti ta grita
    Grito d'sofriment
    D'fome
    I desgraca social

    Bo pov ti ta spera
    Um solucao
    Pa ses sofriment
    Causod pa politcos

    Hoj nos e livre
    D'Colonialismo
    Refem
    D'nos patricios

    Hoje no ca tem
    Alegria na rost
    Nos Governantes
    Robone el

    Manha ta tchga
    Ess corrupts
    Ta sai d'poler
    Nos vida ta muda

    Manha e speranca
    Dess pov
    Sofredor
    I consolod

    Manha no ta uni
    Pa no grita junt
    Um grit
    D'revolta

    Manha
    Cab Verd
    Ta ser
    De tud Cab Verdiane

    No tem fe
    Q'corrupcao
    Ta ser Irradicod
    De nos Sociedade

    No ta ser
    Um pov
    Chei D'alegria
    I chei d'speranca

    Cab Verde
    Ta ser Verde
    Cor d'speranca
    E dess orgulho patriotico
    D'tud Cab Verdiane

    Pov coitods
    Ta bem tem
    Orgulho humano
    De ser Cab Verdiane

    Cab Verd d'speranca
    Cab Verd Nos Terra
    D'tud Cab Verdiane
    I tud quem ta vive li


    Cafu, 13 de Outubro de 2013

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