ULISSES CORREIA E SILVA: “A sociedade civil tem que mostrar poder” (IV)

. Publicado em Grande Entrevista

Para a democracia ser forte e de qualidade, a sociedade civil tem de ser autónoma e a cidadania ativa fazer caminho. Fazer política e governar é a arte de gerir conflitos e o líder do MpD diz conviver bem com a diversidade, por isso não olha como corpo estranho a agitação social dos últimos tempos, porque para Ulisses as manifestações e a indignação dos cidadãos são sempre justificáveis e oportunas


 

Publicamos hoje a quarta e última parte da Grande Entrevista com Ulisses Correia e Silva. Ao longo de quatro dias os leitores puderam conhecer melhor o pensamento deste homem que, visto por alguns como um tecnocrata e pouco dado a sensibilidade social, manifestou aqui o seu objeto maior se vier a ser Primeiro-ministro: a felicidade das pessoas. De igual modo, para quem é tido como um neoliberal, Ulisses reafirma o que sempre tem dito e parece ter passado despercebido: Cabo Verde deve fazer o caminho no sentido de uma cidadania ativa, de cada vez maior autonomia da sociedade civil e, ao contrário de outros que se assumem como da “esquerda moderna”, o líder do MpD vê com bons olhos manifestações e greves, encara como uma vitória cidadã o exercício pleno do direito à indignação. Para o presidente do MpD, fazer política e governar deve ser a arte de gerir conflitos.

Entre o discurso socialista e o elóquio liberal, Ulisses Correia e Silva coloca o partido no centro-direita, mas não renega a cultura social-democrata – um dos traços identitários iniciais do MpD. E considera que a Economia deve estar ao serviço das pessoas, com regulação do Estado e com limites ao Estado.  Apesar da identidade de centro-direita, admite implicitamente que também há esquerda no partido.

No contexto de vitória, com maioria relativa – embora realçando que se trata de uma especulação -, Correia e Silva não teria problemas em chamar a UCID para a governação, um partido de que o MpD parece ser próximo no quadro ideológico e do pensamento político.

A entrevista, despida de qualquer formalismo, tendo por palco o cenário da baía de Compedrada, no Tarrafal de São Nicolau, foi uma conversa franca e aberta em que o líder do MpD não torneou nenhuma pergunta, mesmo que “incómoda” fosse. Deste abocamento entre o jornalista e o político ficou do primeiro a confirmação de que não há certezas absolutas e que muito do que se diz de - e sobre - Ulisses não corresponde à verdade. O “fla fla”, está inculcado como uma chaga na política cabo-verdiana (e na sociedade) e os maiores ataques pessoais ao líder, surpreendentemente, vêm do interior do próprio partido, mas as mais das vezes a roupagem dos “críticos” revela défice de substância. No entanto, uma coisa é certa: para poder ganhar em 2016, Ulisses Correia e Silva vai ter de arrumar e ganhar o partido, resolvendo algumas situações pendentes, “ódios” antigos de coisas mal resolvidas, pôr cobro à pequena intriga e insuflar o MpD da cultura de cidadania ativa que defende para o País. E essa é a maior batalha que tem pela frente, mesmo antes da caminhada para as legislativas.

A entrevista tem uma fragilidade formal: a escassez do tempo disponível do líder ventoinha não permitiu aprofundar alguns temas e abordar outros de manifesta importância. De qualquer modo, para além da prestação do jornalista, esta Grande Entrevista contou com a colaboração de várias pessoas que responderam pronto à questão: “O que perguntaria a Ulisses Correia e Silva?”. Muito deste produto final é, pois, labor e empenho de alguma gente “anónima” de várias sensibilidades políticas que pretende pensar e repensar o País e não se limita a fazê-lo na comodidade de um sofá. A todos eles endereço os meus agradecimentos.

JSN - O Primeiro-ministro tem falado por várias vezes em “pacto de regime” e o senhor em “diálogo institucional”. A ideia com que se fica é que esta ideia de um “pacto” entre partidos parece reduzir-se a uma lógica de interesses políticos particulares, não necessariamente decorrentes do interesse geral. Por outro lado, esta ideia do “diálogo” do consenso entre os partidos… Coloco-lhe esta questão: como é possível consensualizar posições ou fazer pactos de regime, por exemplo, com um partido que adotou a posição que se sabe em relação às comissões parlamentares de inquérito das obras públicas?

Ulisses Correia e Silva - Nós não falamos em pacto político, falamos em cooperação política. Achamos que os partidos fazem parte do sistema político e devem ter urbanidade nas suas relações. Segundo, que o Governo, o Primeiro-ministro, tem responsabilidades acrescidas relativamente a esta matéria. Como acontece em várias outras democracias, o Primeiro-ministro ausculta periódica e regularmente o líder da oposição sobre matérias de interesse nacional. Terceiro, há matérias em que necessariamente tem de haver procura de consensos: tudo o que exige dois terços para aprovação no Parlamento. Por exemplo, estamos agora a falar dos cargos exteriores ao Parlamento, mas também a revisão constitucional, a Lei eleitoral, a questão da descentralização e da regionalização, tudo matérias que exigem a construção de vontade política entre, pelo menos, os dois grandes partidos que estão no Parlamento.

Obrigatoriamente, temos que criar essa cultura de diálogo, de concertação e de cooperação. E, mais, atualmente não se consegue governar pensando em concentrar todo o poder, é impossível. E o problema não é só com os atores dos partidos políticos, é com a sociedade, é com os sindicatos, é com as entidades patronais, é com as universidades… É criar todo um quadro de cooperação, de diálogo, do conceito de Estado-parceiro. É isso que nós defendemos, em vez de um Estado autosuficiente, de um Estado “impositor”, de um Estado controlador. Tem de ser um Estado-parceiro o mais abrangente possível, ao nível da concertação, do diálogo social, num contexto em que a sociedade civil seja cada vez mais autónoma para fazer o contrapeso. É esta filosofia que defendemos e que é muito diferente da ideia de um pacto político, muitas vezes para tentar condicionar a oposição relativamente àquilo que o Governo pretende.

Imaginemos um cenário – que nunca aconteceu em Cabo Verde – em que o MpD ganha as eleições mas não tem maioria absoluta. Estaria disponível para fazer uma coligação com o PAICV ou com a UCID?

Com o PAICV, dificilmente haverá um cenário em que seremos forçados a coligar-nos. A UCID estaria muito mais próxima em termos do quadro ideológico e do pensamento político, num eventual cenário de coligações. Mas, nesta fase, ainda é mera especulação.

Vai haver eleições internas no PAICV, perfilam-se quatro candidaturas, como vê esta disputa?

Nós não temos nenhuma preferência, esse é um problema do próprio PAICV.

Tem falado muito na revitalização da Economia e centrado muito o seu discurso no interesse das famílias, das pessoas. E, se calhar, vou dizer uma barbaridade, mas nota-se nesse discurso – quando fala da Economia – que navega entre algumas ideias socialistas e algumas ideias liberais. O que, numa leitura ideológica mais europeia e ocidental, faria de si um social-democrata. Ulisses Correia e Silva é social-democrata?

Em certa medida, o MpD é social-democrata, nós somos um partido de centro-direita…

De centro-direita, mas nota-se também alguma esquerda.

Essencialmente social-democrata. E o MpD, desde o início da sua fundação, sempre foi isso, teve um discurso e uma atuação virada para as pessoas e encontrando as melhores soluções para isso, evidentemente, gerindo o quadro da Economia com um mercado regulado, com limites ao Estado, quer na Economia, quer na própria sociedade, e procurando a felicidade para as pessoas.

Até disse, recentemente, que primeiro que as infraestruturas está a felicidade das pessoas.

Exatamente. As infraestruturas só fazem sentido se estiverem ao serviço das pessoas, ao serviço da Economia, ao serviço de resultados.

Cabo Verde vive um momento de grave crise – e nem me refiro à crise económica, mas àquela outra que vem sempre por arrasto: a crise social -, traduzida num ascenso de instabilidade social, de greves, manifestações, há uma greve geral marcada para 29 e 30 de abril. E, ao contrário do que acontecia até há muito pouco tempo, nota-se nos cidadãos uma enorme disponibilidade para lutar, para afirmar o seu protesto. Como vê todas estas movimentações sociais, a luta laboral, a luta sindical?

Esse é o caminho que Cabo Verde deve fazer, e no MpD defendemos isso: a afirmação da sociedade civil, a sociedade civil tem de se manifestar, tem de mostrar poder. Quer ao nível da sociedade civil organizada, mas também de todas as outras expressões. Portanto, cidadania ativa. E, depois, o resto tem de ser gerido, porque fazer política e governar é também gerir conflitos.

António Alte Pinho

 

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