ULISSES CORREIA E SILVA: “A política faz-se com conhecimento, não se faz só com paleio” (I)

. Publicado em Grande Entrevista

Os ruídos de fundo à volta das eleições internas são recorrentes e a conversa correu por aí, solta e aberta, olhos nos olhos, com o líder do MpD a responder a todas as questões sem qualquer traço de hesitação. Ulisses foi claro no que disse e deixou uma certeza: “assumo as responsabilidades e consequências das minhas escolhas”


 

É a primeira entrevista do líder do MpD ao JSN. Por critérios editoriais resolvemos dividi-la em quatro partes. Na de hoje, Ulisses fala-nos do partido e dos ruídos de fundo à volta das eleições e das acusações de “fraqueza” associadas à Comissão Política Nacional. Diariamente – e até sexta-feira – o presidente ventoinha falará da Câmara da Praia, da situação de São Nicolau, da Economia e do País.

Na preparação desta Grande Entrevista, tivemos o cuidado de colocar a várias pessoas, de diversas sensibilidades políticas, a seguinte questão: “Que pergunta faria a Ulisses Correia e Silva?”. A colaboração de todas foi muito importante para o produto final que, a partir de hoje, vos apresentamos, e correspondem ao sentir de pessoas comuns a quem, grosso modo, não é dada a possibilidade de confrontar diretamente um líder partidário.

A conversa com Ulisses decorreu no Tarrafal, no último sábado, por ocasião de uma visita do presidente do MpD a São Nicolau, onde deu posse aos coordenadores e comissões políticas dos dois concelhos da ilha. Infelizmente, o tempo foi escasso para que pudéssemos colocar ainda mais questões, o que de algum modo impediu abordagens mais profundas dos temas em agenda e de outros de reconhecida importância.

Horas antes da entrevista, tivemos ocasião de acompanhar Ulisses Correia e Silva a uma visita a Ribeira Prata, onde contactou diretamente com militantes, apoiantes, simpatizantes do MpD e pessoas com orientações políticas diferentes. A imagem pré-construida de um homem pouco sensível e com dificuldades de relacionamento com o povo, caiu por terra. Ulisses falou a linguagem das pessoas, estabeleceu laços de empatia e revelou um surpreendente sentido de humor.

Na sua caminhada para 2016 este homem tem ainda um longo caminho a percorrer, mas nota-se que está a cimentar paulatinamente a sua liderança e revelou-se uma grande surpresa. Mas o tempo é o melhor conselheiro. No ano de todas as “certezas” é que se saberá se Ulisses Correia e Silva estava, ou não, à altura da empreitada

JSN - Foi eleito presidente do MpD há seis meses, qual o balanço que faz da sua liderança?

Ulisses Correia e Silva - O balanço é feito em função dos objetivos que nós traçamos depois da convenção. Ainda temos dois objetivos para conseguir: um é aumentar o capital de confiança do MpD, isto quer dizer, da sociedade, dos cabo-verdianos em relação ao partido, e aumentar a confiança interna entre os membros do MpD, militantes e dirigentes, porque isso é fundamental para termos um partido coeso, coerente e com alinhamento em termos de estratégia da sua intervenção; e o outro é a organização interna do partido, por isso mesmo é que estamos a fazer todas estas eleições para coordenadores concelhios.

Organização, que é uma espécie de “calcanhar de Aquiles” do MpD.

Exato. É uma dificuldade em todos os partidos políticos. Quer dizer, como pôr os partidos a funcionar em períodos fora das campanhas eleitorais. Portanto, funcionar sem estar em campanha é isso que nós temos como desafio. E isso pressupõe organização, lideranças locais concelhias, pressupõe planeamento, programação e muita criatividade para conseguirmos levar esse elemento de confiança junto dos cabo-verdianos.

Têm havido alguns ruídos de fundo que questionam os processos eleitorais internos. No que respeita às eleições concelhias, houve acusações de que a estrutura eleitoral central teria feito interferências no processo, num primeiro momento em Portugal e, mais recentemente nos Estados Unidos e no Fogo, tentando impor candidaturas “oficiais”. Que comentário lhe merece?

Desde logo, não é verdade. Tivemos o cuidado de dotar estas eleições de todas as cautelas, de normas e regras para que pudessem funcionar num quadro de competitividade e transparência, num quadro regulado. Por isso é que fizemos um regulamento de recenseamento com regras claras, um regulamento eleitoral, um código de conduta, de comportamento entre os candidatos. E, nos estatutos, tivemos o cuidado de criar um regime de incompatibilidades, quem faz parte do Gabinete de Apoio ao Processo Eleitoral não pode ser dirigente, fazer parte de qualquer órgão, seja nacional ou concelhio, precisamente para termos o distanciamento suficiente. E mais, nós fomos escolher pessoas que não têm nenhuma ligação com as estruturas partidárias. São quadros, três deles juristas, alguns militantes do MpD e outros nem sequer o são, são simpatizantes, gente que nos dá totais garantias de distanciamento. Que não conhecem nem os candidatos dos Estados Unidos, nem de Portugal e, muito menos, do Fogo.

E chamamos sempre a atenção para a necessidade de cumprimento de regras. Quer dizer, em caso de denúncia, em caso de protesto, há normas que devem ser seguidas. Faz-se a reclamação junto do Conselho de Jurisdição e este pode avaliar positiva ou negativamente, mas sempre sem nenhuma intervenção, quer do presidente do partido, quer dos membros da Comissão Política. Essa foi uma outra instrução que demos no sentido de haver neutralidade de intervenção dos órgãos, dos titulares da Comissão Política e da Direção Nacional. Situações de eventuais irregularidades, que pudessem ser detetadas nas mesas da Assembleia de Voto deveriam ser comunicadas diretamente como se faz nas eleições nacionais. Não há prova evidente de elementos que possam confirmar irregularidades nas eleições.

Evidentemente, criou-se um ambiente…

Mas, por exemplo, em relação aos Estados Unidos, como se justifica esta situação mais recente de o deputado Cândido Rodrigues ter desistido da sua candidatura, de haver acusações de o outro candidato ser do PAICV, um infiltrado… Isto não é uma coisa muito sadia na vida dos partidos, nomeadamente na vida de um partido democrático.

Claro que não é. Há uma predisposição e a predisposição determina tudo. Se as pessoas partem do princípio de que alguém está a fazer conspiração, ou de que há órgãos do partido que estão a prejudicar A ou B e tentam ver em qualquer sinal, em qualquer coisa, algo de estranho, atuam em consequência. Se as pessoas funcionarem de uma forma diferente, se partem do princípio de que os outros são honestos, que estão a cumprir o seu papel, e que o Gabinete de Apoio ao Processo Eleitoral é constituído por pessoas que não têm interesse direto nas candidaturas, têm uma atuação diferente. Portanto, essa predisposição, neste sítio e noutros muito localizados, é mais barulho do que factos que possam ser comprovados por elementos de irregularidade. Eu, na altura, confirmei, e volto a confirmar, a confiança no Gabinete de Apoio ao Processo Eleitoral. Houve problemas nos Estados Unidos com o delegado do GAPE, teve de desistir, porque é um senhor já com alguma idade, com problemas de saúde, mas teve tanta pressão que acabou por desistir dessa função. Tivemos de o substituir e adiamos as eleições para 9 de março.

Em relação a Mosteiros, houve uma declaração de um dos candidatos que, segundo informações que tenho, não preencheu os requisitos para a sua candidatura, não teve o número de proponentes exigido pelo regulamento. E, depois, saiu para a comunicação social a fazer um tipo de declarações que não abonam em nada a militância. Porque as pessoas têm de ter a noção de que, estando num partido político, há algumas regras que devem cumprir. Uma delas é a regra de respeito pelas instituições, e o GAPE é uma instituição. Se você no partido não respeita as instituições, também não as respeitará lá fora.

E, também, respeito pelas decisões da maioria.

Exatamente, saber ganhar e saber perder.

E isto leva-nos ao episódio da eleição do líder parlamentar, com a divisão do grupo de deputados rigorosamente ao meio. E houve acusações e insinuações, um bocado veladas, de que teria havido pressão para forçar a eleição de Fernando Elísio Freire. Já não recordo se isto veio a público, mas falei com vários deputados que não gostaram da presença do presidente do partido, que não é deputado, durante o ato eleitoral, supostamente para tentar impor o “seu” candidato que, neste caso, seria o Fernando Elísio. E que teriam havido pressões junto de deputados, no caso, um deputado e uma deputada que teriam assumido o compromisso de votar em José Filomeno e que não apareceram no dia das eleições, nem atendiam os telefones.

Pelo contrário – repare -, e no que respeita à primeira parte da sua questão, os Estatutos do MpD dizem que o nome do líder parlamentar é proposto pela Comissão Política. O presidente propõe à Comissão Política e esta avaliza e leva a proposta ao Grupo Parlamentar. Ora, eu podia ter feito isso, podia ter dito “este aqui é o meu candidato” e colocava o nome à votação do Grupo Parlamentar. Mas como pressenti que havia mais de uma candidatura a se formar, resolvi abdicar dessa prerrogativae deixar que os deputados decidissem. Portanto, é tudo ao contrário do que se diz. Mas a lógica estatutária até faz todo o sentido, porque o líder parlamentar é um elemento de ligação direta à Comissão Política, por isso tem ali assento, e deve ser alguém da confiança do presidente do partido. Mas, prevendo o clima que havia, preferi libertar-me dessa prerrogativa, não tomar posição. Mas podia ter tomado!

Agora, relativamente ao resto, cria-se aqui um clima de pequena intriga. E tenho estado a passar essa mensagem para o interior do MpD, de blindarmos o partido.

A intriga foi sempre um problema crónico do MpD.

Sim, mas temos de blindar o partido à pequena intriga, que não faz o partido atingir objetivo nenhum. E são sempre coisas muito pessoalizadas, o meio é pequeno e as pessoas falam… Mas estou focalizado no essencial, o partido tem uma liderança, que no caso do Grupo Parlamentar foi eleita apenas por uma diferença de dois votos, mas que é da confiança da Comissão Política.

Para encerrarmos este capítulo da vida interna do partido, vou-me referir a coisas que me têm colocado pessoalmente e com alguma expressão nas redes sociais. Os seus críticos diziam, num primeiro momento, que o Ulisses não tinha condições para ser líder do MpD, mas agora, alguns, dizem “bom, vamos dar-lhe tempo para provar o que vale” e mudaram o registo da crítica, a sua equipa é muito fraca, e fazem acusações de excesso de protagonismo a alguns membros da comissão política, que fazem conferências de imprensa por tudo e por nada, desgastando até a estratégia de comunicação e imagem do partido.

Primeiro, a Comissão Política não é fraca. As pessoas têm de qualificar esse fraco. Fraco porquê? Por comparação a quê? Começou-se, na altura, a criar a ideia de que há tecnocratas. Repare, a política faz-se com conhecimento, não se faz só com paleio. Essa coisa de chegar e mandar bocas na comunicação social, já passou. Ou temos gente com capacidade de dominar dossiês de governação, com capacidade técnico-política que possa ser reconhecida pela sociedade, como gente com capacidade de governar, ou não conseguimos criar essa imagem. Por isso fiz a escolha de pessoas que têm experiência política e capacidade técnica para se começarem a afirmar e afirmar a imagem de um partido para assumir a governação em 2016.

Quanto às conferências de imprensa, elas são todas coordenadas. Tivemos uma primeira fase em que incidimos fortemente na questão económica e financeira, precisamente porque estávamos num processo de discussão do Orçamento de Estado, pela necessidade de desmontar um conjunto de argumentos que o Governo vinha utilizando. E isso não se faz apenas de conversa, tem de ser feito com convicção e com domínio da matéria. Ninguém vai para as conferências de imprensa por sua própria vontade, é algo concertado, determinado. As pessoas não têm que ter medo das caras que aparecem, e vão aparecer mais caras.

Estou a fazer este tipo de liderança, precisamente, para retirar a ideia de que o partido é apenas uma pessoa.

E isso de que o partido é apenas uma pessoa tem uma grande desvantagem: desgasta a imagem do líder.

Desgasta e não dá a ideia de que há uma equipa, não dá a imagem de que há toda uma equipa com capacidade para governar. É isso que temos estado a construir, e todo o resto são opções. Evidentemente, há gente que entende que se poderiam pôr outras pessoas na Comissão Política, mas quem escolhe sou eu. E assumo as responsabilidades e consequências das minhas escolhas. Todos os membros da Comissão Política foram escolhidos diretamente por mim, sem qualquer pressão. Os resultados serão avaliados, não nas conferências de imprensa, mas nas eleições.

AAP

 

Na edição de quarta-feira, 19, Ulisses fala sobre a Câmara Municipal da Praia; na quinta, 20, sobre São Nicolau; e na sexta, 21, sobre a Economia e o País

 

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