BELARMINO SILVA: "Visita do PR à Holanda é uma honra para a comunidade Cabo-verdiana"

. Publicado em Grande Entrevista

Na véspera da visita de dois dias do Presidente Jorge Carlos Fonseca à Holanda, entrevistamos o cônsul geral de Cabo Verde naquele país, Belarmino Silva, que é natural do concelho do Tarrafal de Santiago, 46 anos, licenciado em Economia e especializado em Relações Económicas Internacionais pela Universidade de Matanzas, Cuba. Fez ainda, entre outros, uma especialização em Comunicação e Diplomacia pelo Instituto Internacional de Administração Pública e uma formação intensiva sobre o Papel e Função de um Chefe de Missão Diplomática na Escola Nacional de Administração em França e um curso Intensivo em Língua Inglesa no Instituto Internacional de Língua Inglesa de Genebra (Suíça).

Jornal de São Nicolau - ESTÁ HÁ QUASE UM ANO NA HOLANDA E TEM MOSTRADO UMA GRANDE DINÂMICA EM TERMOS DE SERVIÇO. QUE BALANÇO PODE FAZER DO SEU TRABALHO COMO CÔNSUL DE CABO VERDE DURANTE ESTES MESES?

Belarmino Silva - Eu prefiro que os outros me avaliem. A comunidade pode fazê-lo e sinto-me à vontade para aceitar o veredito. Entretanto, é bom dizer que trato sempre de exercer as minhas funções com profissionalismo e responsabilidade como tenho feito nas Embaixadas e Missões Diplomáticas onde tenho exercido. A comunidade cabo-verdiana na Holanda merece entrega, seriedade e responsabilidade no tratamento das questões que a ela dizem respeito, sobretudo sem ambiguidades, e penso que é o que tenho feito. Com objetividade e transparência tenho tratado de resolver os problemas coletivos da comunidade, sempre e quando possível e dentro das limitações que as nossas funções nos impõem.

SENDO O ÚNICO DIPLOMATA PARA SERVIR UMA COMUNIDADE COM CERCA DE 20 MIL CABO-VERDIANOS E COM VÁRIOS PROBLEMAS, NÃO SENTE FALTA DE TER PESSOAL ESPECIALIZADO, COMO UM ASSISTENTE SOCIAL, E ADIDOS CULTURAL E ECONÓMICO?

Não penso que haja necessidade de um assistente social no Consulado. Uma grande parte da comunidade cabo-verdiana que na Holanda reside tem a nacionalidade holandesa e está relativamente bem integrada assim como aqueles que têm apenas a autorização de residência. Duplicar o que o Governo holandês já faz e bem, através dos diversos serviços especializados, não é, certamente, boa solução. Há comunidades cabo-verdianas em outras paragens que têm muito mais necessidade do que a nossa comunidade na Holanda. Quanto ao adido cultural e/ou económico, sim, faz falta, mas tendo sempre preferência para soluções locais, devidamente concertadas. A Holanda tem sido um viveiro de produções artísticas, culturais e económicas pelo que, pessoalmente, penso mais evidente aproveitar as capacidades existentes dentro da própria comunidade para promover e desenvolver essas valências. Existe um manancial de competências dentro da comunidade, sobretudo nos mais jovens, que está subaproveitado e que precisa ser estimulado. A responsabilidade de tudo isso é também da comunidade, que deve estar mais organizada, mais coesa e mais determinada. Reconheço que muito tem sido feito, mas muito mais pode-se fazer.

RECENTEMENTE, O PRIMEIRO-MINISTRO DE CABO VERDE ESTEVE NA HOLANDA POR OCASIÃO DO 5 DE JULHO. NA PRÁTICA QUE GANHOS CABO VERDE CONSEGUIU COM A VISITA DE JOSÉ MARIA NEVES?

Enormes! Em primeiro lugar pelo simbolismo que representa a visita do senhor Primeiro-ministro, que veio comemorar, em grande, mais um aniversário da independência nacional. Para nós, esta ação representa um enorme ganho, sobretudo para as comunidades cabo-verdianas residentes no norte da Europa. É o reconhecimento do valor e do papel que desempenham, a todos os níveis, no processo de desenvolvimento económico e social de Cabo Verde. Cada membro da comunidade deve ficar satisfeito e regozijar-se por esse facto. Assim como deve ficar satisfeito e regozijar-se pela visita, nos próximos dias, de Sua Excelência o Presidente da República. 

Em segundo lugar, a visita do senhor Primeiro-Ministro à Holanda serviu para promover Cabo Verde no meio empresarial holandês. O senhor Primeiro-ministro e delegação tiveram um encontro com empresários e homens de negócios, onde foram apresentadas as oportunidades de negócios e de investimentos em Cabo Verde a mais de meia centena de participantes. É uma ação que deve ser aplaudida e recomendada em todos os países onde existem potencialidades e a Holanda é um deles.

Em terceiro lugar, os encontros que teve ao mais alto nível com as autoridades holandesas, entre os quais com o Primeiro-ministro e com a ministra do Comercio, serviram para alinhavar aspetos relacionados com a parceria estratégica que Cabo Verde tem desenvolvido com a Holanda. Permitiu uma maior compreensão por parte das autoridades holandesas dos vários desafios que o País enfrenta e, certamente, possibilitou uma maior aproximação entre os dois países. 

HÁ UM NOVO CONCEITO DE DIPLOMACIA ECONÓMICA QUE ESTÁ A SER IMPLEMENTADO PELO ATUAL GOVERNO. GOSTARIA QUE NOS FALASSE MAIS SOBRE ESSE CONCEITO.

Para mim a diplomacia económica não é apenas um conceito mas sim uma atitude e sobretudo um processo cujos resultados podem não ser imediatos. Exige tempo e investimento! Ademais, exige uma atuação consentânea com vista a identificar e precaver eventuais situações de risco para o País, assim como criar e explorar oportunidades, tanto para as empresas cabo-verdianas com vista à sua internacionalização, como para empresas estrangeiras em processos de deslocalização e expansão. A atração e a facilitação da entrada de investimentos estrangeiros directos no País deve ser uma prioridade. 

Entretanto, condições têm de ser criadas e argumentos exigem-se. Não basta falar bem. Temos também que consciencializar-nos que a diplomacia económica não é apanágio dos diplomatas. Diz-se que os verdadeiros protagonistas das relações exteriores de um país são os cidadãos desejosos em promover internacionalmente os seus interesses através das exportações, da internacionalização das suas empresas e dos seus investimentos. Cada um deve fazer a sua parte, nas respetivas áreas de actuação. Na CEDEAO, por exemplo, existe, teoricamente, a livre circulação de pessoas, bens e capitais mas na prática a situação é muito mais complicada. Temos que analisar o que está mal e tratar de corrigir onde é possível. Isto a todos os níveis pois as responsabilidades são partilhadas.

O PRESIDENTE JORGE CARLOS FONSECA VISITA A HOLANDA EM 2 E 3 DE OUTUBRO E TERÁ UM ENCONTRO COM OS CABO-VERDIANOS RESIDENTES NESTE PAÍS. COMO TEM SIDO A DIVULGAÇÃO DESSA VISITA JUNTO DA NOSSA COMUNIDADE?

A comunidade está bem informada em relação a esta visita, aguardada com muita espectativa. Foram feitos anúncios nas rádios e nas televisões locais e foram distribuídos cerca de 2.500 flyers em Roterdão e em todas as cidades onde a comunidade é expressiva. Quase todos os membros da comunidade estão informados e esperamos ter a sala cheia, com mais de cinco centenas de participantes. É pelo menos a nossa espectativa e temos trabalhado para isso desde a confirmação da visita.

O PRESIDENTE TERÁ ALGUM ENCONTRO OFICIAL COM ENTIDADES HOLANDESAS?

Entre os pontos da agenda consta um encontro com a comunidade no dia 2 de outubro, e no dia 3, de manhã, fará uma visita de cortesia ao Rei Willem Alexander da Holanda. Penso que para o nosso Presidente será uma honra e um grande privilégio ter esses dois encontros que servirão para cimentar as relações entre a Holanda e Cabo Verde. É de notar que a Holanda está a ter uma nova abordagem nas suas relações com Cabo Verde o que poderá ter resultados significativos para o nosso país nos próximos tempos. 

JORGE CARLOS FONSECA É O PRIMEIRO PRESIDENTE CABO-VERDIANO A VISITAR A HOLANDA DEPOIS DO ADVENTO DA DEMOCRACIA. O QUE SIGNIFICA PARA SI E PARA A COMUNIDADE A VISITA DO MAS ALTO MAGISTRADO DA NAÇÃO CABO-VERDIANA À HOLANDA?

Penso que a comunidade deve valorizar essa visita pois é uma honra e um privilégio ter o mais alto magistrado da Nação como visitante, como o seu hóspede. Três meses atrás foi a vez do Primeiro-ministro e agora o Presidente da República, o que muito orgulha a comunidade! Por esta razão a comunidade cabo-verdiana na Holanda deve sentir-se privilegiada, honrada e respeitada. Consequentemente, tudo fará para receber o mais alto magistrado da Nação com elevação, dignidade e respeito. A melhor resposta que possamos dar a esta manifestação de apreço é apresentar-nos em massa, na sala do WTC, no dia 2 de Outubro e manifestar desta forma a nossa consideração e respeito ao chefe de Estado. É nosso dever de cidadãos e de todos aqueles que amam Cabo Verde. 

Entrevista conduzida por Norberto Silva

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