BISPO DO MINDELO: “Devemos ter o mercado em função do bem e do Homem”

. Publicado em Grande Entrevista

 

Nesta segunda e última parte da Grande Entrevista, D. Ildo Fortes continua a dissertar num registo muito virado para as questões sociais e as inquietações deste nosso tempo, mas também sobre os caminhos da Igreja cabo-verdiana e os mistérios da descoberta de Deus


Como se dizia na primeira parte desta entrevista, publicada ontem, conversar com o Bispo do Mindelo foi uma agradável surpresa. E foi, independentemente da descoberta de um homem bom por detrás do formalismo do cargo, por razão de – segundo cremos – nunca D. Ildo ter refletido publicamente sobre questões tão importante como o modelo social e económico. Há no pensamento do Bispo uma consonância muito evidente com aquilo que o Papa Francisco tem vindo a afirmar, bem expresso aliás na mensagem que recentemente enviou aos participantes do Fórum Económico Mundial, reunido em Davos, na Suíça. Como acentua D. Ildo, “a globalização tem sido a globalização da indiferença, onde a pessoa perde o seu rosto, o elo mais fraco fica sem voz, fica perdido” – sem dúvida uma imagem que bem caracteriza estes tempos de fogo em que a ganância, o egoísmo e a indiferença parecem ter tomado conta do mundo.

Ficamos com a ideia de que a Igreja Católica cabo-verdiana está ciente das suas responsabilidades e procura encontrar respostas para os desafios deste tempo. Mas, de igual modo, pretende abrir caminhos para um novo tempo onde a fraternidade se afirme como modelo de vida.

Uma nota, ainda, sobre a parte final desta entrevista, onde, de algum modo, se trocam os papéis, com D. Ildo Fortes a questionar o jornalista, formulando-lhe perguntas diretamente. Uma circunstância que, provavelmente, incomodará os “puristas” do exercício jornalístico. Mas as coisas são assim, se não rompermos a “ordem natural das coisas” menorizamos o bem maior que é a qualidade da conversa e o prazer de uma boa reflexão.

JSN - Estou a ver aqueles senhores da Cimeira de Davos a ouvir a mensagem que o Papa Francisco lhes enviou, ao Fórum Económico Mundial, e que, em linhas gerais, defende uma nova ordem económica.

D. Ildo Fortes - Infelizmente, a globalização tem sido a globalização da indiferença, onde a pessoa perde o seu rosto, o elo mais fraco fica sem voz, fica perdido. E isso é mau.

Vivemos num tempo em que 1 por cento da Humanidade controla as riquezas do mundo, isto é até anticristão.

É desumano. Qualquer homem que tenha coração, sensibilidade – não precisa de ser cristão, religioso – deve perceber que isto não é normal. Até porque o normal é viver a fraternidade. Estando à frente de uma empresa ou instituição, é preciso partilhar com os outros. Repare, o que está a acontecer em Portugal é só culpa da Europa?

Não só, é da ganância.

Da ganância, houve gente que enriqueceu muito… Perguntamos: onde é que estiveram as políticas sociais? Os donos das grandes empresas partilharam com os seus trabalhadores? O que se passa é o seguinte: o mercado prevalece em relação ao Homem, infelizmente. Devemos ter o mercado em função do bem e do Homem.

A Economia deve estar ao serviço do Homem.

Mas temos o contrário, o Homem ao serviço do mercado.

E esta conversa leva-nos a uma outra questão, que é a opinião de algumas pessoas com ativismo social – crentes e não crentes, que têm como fio condutor a intervenção social – de que a Igreja cabo-verdiana tem uma intervenção muito virada para dentro, por exemplo, está ausente da realidade laboral. Ou seja, não tem estruturas próprias, não tem voz própria, não tem intervenção no movimento sindical. E parece que a Igreja – e admito ser uma crítica injusta – tem algum acanhamento na denúncia dos males sociais. Parece que a Igreja é boa a confortar as almas, mas não é eficaz a apontar caminhos.

Eu destrinçaria as coisas nalguns pontos. Para já, agradeço-lhe muito esta apreciação porque me ajuda a refletir, a pensar, é sempre bom o confronto de ideias. E isto tem muito a ver com o que falávamos há pouco sobre a Teologia da Libertação e o modo de intervir na sociedade. A Igreja não pode alinhar em todas as estruturas que estão na sociedade, sobretudo quando muitas delas estão politizadas ou partidarizadas. A Igreja dar a cara para parecer que está com este ou com aquele, não é a nossa função. Os cristãos é que, de uma maneira pessoal, devem, sim, o mais que puderem – e segundo a sua consciência – envolver-se nas associações, nos sindicatos, isso deve acontecer.

Mas devo dizer-lhe que tenho conversado com o meu colega Bispo, D. Arlindo, sobre a necessidade de criarmos um organismo, que é uma Comissão de Justiça e Paz. Deveríamos ter quem nos ajudasse a refletir, entendidos na área social, na área laboral, política, e criar círculos de reflexão que fazem muita falta no país.

Mas esses círculos de reflexão seriam só para crentes?

Não, podem envolver todos, crentes e não crentes, porque isso é, depois, uma voz que se faz ouvir. Mas – dizia – é preciso criar estruturas para a reflexão e também para a intervenção, com o apoio dos Bispos e sendo voz da Igreja. Porque a Igreja não são só os Bispos.

E temos uma outra estrutura, virada para as questões sociais, que está agora numa fase de reestruturação, que é a Cáritas Nacional e com as suas vertentes locais, a Cáritas Diocesana. Fizemos em novembro a primeira Assembleia Geral, onde foram apresentados os órgãos sociais. É uma estrutura que está no terreno e tem aquilo a que chamamos “as antenas”, em todas as paróquias do país temos pessoas a reunir semanalmente com a nossa gente, vão aos bairros, vão às ruas, conhecemos os pobres. Mas a Igreja não trabalha para ser vista.

É um trabalho de “formiguinha”…

Chame-lhe o que quiser, “não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita”, são palavras de Jesus. Às vezes há instituições – e até confissões religiosas – que quando fazem uma coisinha chamam logo os jornalistas para dizer “olhem, nós fizemos isto”, a Igreja não faz isso, não precisa de chamar a atenção para dizer “nós somos muito bons”. A Cáritas, todas as semanas, visita pessoas pobres, ajuda com alimentos, com medicamentos, nalguns momentos especiais é mais visível, por altura do Natal com as cestas básicas, mas não é só aí que está presente, é todo o ano. A Igreja trabalha como uma espécie de fermento na massa, o fermento a gente não vê, mas a massa lêveda. O trabalho da Igreja é muito disto, trabalho de “formiguinha” como referiu.

Na última quarta-feira, em São Vicente, durante a missa, esteve comigo uma franja grande da população, milhares de pessoas, estiveram também connosco o Presidente da República, o Presidente da Câmara, o Presidente da Assembleia Municipal, deputados, entidades públicas. Quando pensamos numa homilia, naquele caso, a figura central era o São Vicente, pensamos em dirigir uma mensagem aos fiéis da Igreja é à sociedade que nos escuta.

Que é também o padroeiro da cidade de Lisboa, as pessoas pensam que é o Santo António, mas é o São Vicente.

(Risos) Na minha homilia frisei isso. Mas, no Mindelo, o primeiro Pároco de São Vicente fui eu, agora é o padre Paulo, ele é cabo-verdiano mas foi ordenado em Zaragoza, de onde é o São Vicente. E a minha intervenção foi um bocadinho à volta do Diácono São Vicente, alguém que se esqueceu de si para pensar nos outros, alguém que abriu mão das suas seguranças – podia ter tratado da sua vida – para se agarrar a outras seguranças. Lanço-lhe um desafio: procure saber o que os padres disseram a milhares de pessoas no domingo. Suponho que aqueles que lá vão, depois, irão retransmitir a mensagem, deveria ser assim porque eles vão para o trabalho, para a escola, para a família, para o bairro… Isto para dizer que nós temos uma cadeia, uma rede de comunicação na Igreja que nem sempre se vê. O modo de funcionar da Igreja é muito por aí, o que não dispensa – como lhe dizia – uma estrutura que possa ser porta-voz das nossas reflexões, e talvez até o próprio Episcopado cabo-verdiano pudesse ter um porta-voz.

Já que estamos no Tarrafal, há uma situação curiosa, de algum modo a Igreja antecedeu aqui o Estado. E estou a lembrar-me do Padre Gesualdo. O primeiro jardim-de-infância do Tarrafal foi fundado pelo Padre Gesualdo, por exemplo – uma coisa que, na altura, até percebo que lhe tenha criado alguns anticorpos -, fez uma coisa absolutamente revolucionária: transformou as capelas, para além de espaços de culto, em escolas. Ou seja, naquele tempo, a Igreja fez aquilo que o Estado não fazia.

Duas coisas: por um lado, espero que não seja novidade para ninguém que a Igreja, na nossa sociedade cabo-verdiana, teve e continua a ter um papel ímpar na educação, a nível social, escolas, hospitais, associações, trabalhar com a juventude… A Igreja é a primeira, aquilo que o Padre Gesualdo fez aqui no Tarrafal é um pouco daquilo que em toda a parte foi acontecendo. A Igreja é perita em humanidade.

Mas, também, ao longo dos séculos, a igreja foi perita em perversidade.

Não, perita em perversidade não, teve as suas falhas, E João Paulo II, de uma forma tão bonita, naquilo que ele chamou no ano 2000 a “purificação da memória” – porque a Igreja é feita de pessoas como eu e você -, por isso ela transporta os pecados dos seus filhos. E, sim, é verdade, ao longo da História, em determinados momentos, aconteceram coisas não tão dignificantes, mas comparadas com aquilo que é a ação da Igreja no mundo…

Incomoda-lhe a evidente desigualdade social em Cabo Verde?

Incomoda, sim. Temos de caminhar no sentido de alcançarmos maior justiça e menor desigualdade social, num caminho de fraternidade no nosso país, Um país como o nosso, que vive, em grande parte, de ajudas exteriores, deveria olhar muito bem para os seus dirigentes, Repare que não estou a fazer juízos de valor, e conheço muitos dirigentes que são simples e humildes, mas deveríamos pautar o nosso estilo de vida mais de acordo com aquilo que é o nosso povo, penso que só nos ficaria bem.

Terminaria como iniciei, voltando ao Papa Francisco naquele sentido em que está a influenciar setores fora da Igreja, mesmo setores de não-crentes. Ou seja, embora haja pessoas que, não sendo crentes, se revêm muito na mensagem cristã, o que faria o Bispo do Mindelo para convencer um agnóstico ou um ateu da existência de Deus?

O fenómeno de acreditar é muito mais elementar do que a gente pensa. Você é um homem de crenças?

Não, mas sou um homem de convicções e há coisas em que acredito, mas tenho dificuldade em acreditar no divino – e até admito que seja uma incapacidade minha.

Mas não tem necessidade de experienciar para acreditar em algumas coisas. Quando de manhã pega num pão e lhe dá uma trincadela, você acredita que o padeiro não meteu agulhas naquele pão, O ato de fé é uma coisa permanente na vida humana. Às vezes pode estar adormecido, mas o ato de fé exige de nós uma disposição pessoal, não é por geração espontânea. Mas acredito que todos trazemos dentro de nós uma marca do infinito que nos faz viver insatisfeitos, à procura. Porque – e esta é a visão cristã – fomos criados por Ele e a sua marca está em nós. O ato de fé, que envolve todas as capacidades da pessoa humana, não pode acontecer sem a gente se desprender. Eu só posso acreditar se decidir experimentar, não se pode ter fé à distância. Só quando você se deixar cruzar com Ele é que perceberá o que é a fé. Deus respeita-o de tal forma que nunca se irá impor. Dá-lhe sinais mas nunca se impõe.

Naturalmente que personificamos esta questão na minha pessoa, mas isto tem uma lógica mais abrangente. Deduzo, então, que o Senhor Bispo propõe que as pessoas se interroguem sobre as suas inquietações e procurem encontrar respostas. Há que encontrar caminhos para as inquietações falarem?

Que deixem as inquietações falarem (risos). Eu acho que é assim: querer encontrar Deus fora não funciona, é uma coisa interior. O grande problema é que, às vezes, pensa-se num grande percurso mental e existencial para encontrar Deus. Deus não está longe e se estiver polarizado fora, nunca O vai encontrar. Preciso de entrar no santuário que sou eu mesmo, escutar meu coração, ver qual é a minha sede. Quando começar a escutar isso talvez possa encontrar o caminho de Deus.

AAP

 

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