D. ILDO FORTES: “Não acredito que a mensagem do Papa Francisco seja simpática para os poderosos”

. Publicado em Grande Entrevista

 

Nesta primeira parte da Grande Entrevista, o Bispo do Mindelo fala-nos da declarada opção pelos humildes, os mais fracos e injustiçados, da relevância da origem latino-americana de Jorge Bergoglio [o nome de batismo de Francisco], da Teologia da Libertação, e considera que a mensagem do Bispo de Roma não é agradável para os defensores do capitalismo puro e duro


Entrevistar o Bispo do Mindelo foi uma surpreendente e agradável surpresa. Desde logo pela simplicidade, pela simpatia e pela convicção – nossa – de que D. Ildo Fortes é um homem que acredita profundamente no que diz e isso sente-se olhos nos olhos. E também porque convive bem com as diferenças e as opiniões divergentes. É firme nas convicções e flexível na compreensão do outro. Poderíamos estar horas infindáveis a falar que dificilmente nos cansaria a conversa.

Na segunda parte desta Grande Entrevista – que publicaremos amanhã -, D. Ildo fala da globalização da indiferença, da ganância e da prevalência do mercado sobre o Homem, defendendo uma Economia ao serviço das pessoas. Tempo ainda para abordar as preocupações sociais da Igreja, a sociedade cabo-verdiana, explica a um agnóstico os caminhos para se encontrar Deus e, contrariando a “ordem natural das coisas”, faz ele próprio perguntas ao jornalista.

JSN -Já nos tinha referido, em conversa telefónica, que se identifica muito com as ideias do Papa Francisco, mas numa pesquisa que fizemos para esta entrevista encontramos um outro ponto de identificação. Uma coisa que surpreendeu o mundo foi este Papa ter recusado o ouro e optado pela prata. Curiosamente, dois anos atrás, quando foi ordenado Bispo, o senhor assumiu símbolos episcopais em prata. E isso não decorrerá de questões de natureza estética…

D. Ildo Fortes – Decorre da simplicidade, dar o menos possível nas vistas.

E, já que falamos em simplicidade, esta é a primeira visita episcopal que faz, este ano, fora do Mindelo, curiosamente logo à Paróquia de S. Francisco de Assis, um homem que fez uma opção pela simplicidade e pelos mais fracos. Uma “coincidência” que, juntando a outras “coincidências”, parece sugerir uma linha – eventualmente subconsciente – de opção pelos mais humildes, pelo despojamento, contra um “pecado” apontado durante muito tempo à Igreja Católica: a ostentação.

Ostentação de algumas fações da Igreja, porque poderemos cometer uma grande injustiça em relação a muita gente que vive seriamente a sua dimensão de desprendimento, muitas vezes no anonimato. Se calhar,aparece um Cardeal vestido de ouro e toda a gente o mete nas imagens, temos milhares de pessoas a andar pobres e descalças e ninguém vai lá para noticiar. As generalizações são sempre perigosas. Mas a Igreja deve não só sê-lo mas também dar essa imagem de pobre e servidora, e penso que o Papa tem dito isso mesmo de muitas maneiras. Ele quer uma Igreja pobre para os pobres e os pastores, evidentemente, devem ser os primeiros a dar o exemplo. Mas acho que o Papa usa de uma pedagogia muito bonita: vai fazendo essa mudança sem ruturas e sem mágoas.

Por exemplo, um dia, um grupo de crianças de um colégio foi ao Vaticano, e uma delas perguntou: como é que Sua Santidade explica que não tenha querido ir viver para o Palácio Papal e ir viver para uma residência onde os hóspedes ficam? Ele respondeu uma coisa muito bonita que significa também consideração pelos seus antecessores: que o facto de ter recusado ir ali viver não significa que, por se chamar Palácio Papal, seja assim uma coisa tão luxuosa, ele é que por razões pessoais – até “psiquiátricas”, entre aspas – precisa de estar com os outros, porque não consegue viver sozinho. Se é só isso, não sei, mas é uma forma muito bonita de não desconsiderar ninguém.

Este discurso de opção pelos mais pobres, pelos mais frágeis, tem sido até um discurso recorrente de todos os Papas, mas – e esta é a visão do jornalista e do cidadão – notava-se que, em relação a alguns deles, era um lugar-comum. Mas com este Papa percebe-se que é uma coisa genuína. E isso sente-se – vem de dentro -, até porque a sua prática na Argentina, em Buenos Aires, era rigorosamente essa. Por outro lado, esta referência à Argentina leva-nos a uma outra questão: será que o facto de Francisco ser latino-americano trouxe algo de novo à Igreja?

Não tenho dúvidas nenhumas, mas convém salientar que o Papa Francisco não trouxe um estilo diferente daquilo que já era. O que ele tem sido como Bispo de Roma é aquilo que já era como Bispo de Buenos Aires: um homem do povo, no meio do povo, pobre, andava nos transportes públicos… e sempre foi muito criativo dentro da sua Diocese. E esta maneira de estar, como pessoa, como pastor, ele a levou para o Vaticano. Mas este Papa, vivendo onde viveu – um país com muita pobreza -, num país que é uma coisa nova em relação à velha Europa, há uma outra liberdade, uma outra forma de estar na vida, uma outra relação com as instituições. Tem coisas boas, e, mesmo em relação à própria Teologia da Libertação, que nasceu na América Latina…

Mais adiante gostaríamos de falar nisso.

… ainda bem que quem conduz hoje os destinos da Igreja tenha vindo da América Latina, para nos trazer esta novidade toda. Mas, talvez, a própria Igreja estivesse a precisar disso. Repare… estive há poucos dias com um dos Cardeais que este na eleição do Papa, o Cardeal Thódore Sarr – nós fazemos parte da mesma Conferência Episcopal, Cabo Verde, Senegal, Guiné-Bissau e Mauritânia -, e eu dizia-lhe: Ó senhor Cardeal, o que acha deste novo Papa com as suas ideias bonitas… e ele respondeu “então, nós é que o escolhemos”. Uma resposta óbvia, no sentido em que os cardeais desejaram isso.

E não houve suspeições de fraude eleitoral no Conclave (risos).

É claro que há sempre conversas prévias, para se conhecer melhor a personalidade das pessoas, o seu percurso, inteirar-se do pensamento de um e outro… Ou seja, o Papa Francisco, para além do carisma pessoal que notamos no seu ministério, está a encarnar, a concretizar o desejo dos que o elegeram.

E, de uma forma muito mais abrangente, os desejos da Igreja no seu todo.

Sem dúvida, e os cardeais vão para ali de todas as partes do mundo, levam a sua sensibilidade e levam, também, os anseios da sua gente, das suas igrejas. Portanto, há um programa que a Igreja lhe propõe. E na Igreja Católica não há lugar para freelancers, há lugar para carismas. O Cardeal Jorge Bergoglio tem o seu carisma, todos nós temos o nosso carisma e não devemos anulá-lo de maneira nenhuma, independentemente do ministério que assumimos na Igreja.

E isso é que torna genuína a mensagem.

Sim, mas ao mesmo tempo somos servidores de Jesus Cristo, da Igreja, somos porta-vozes, não somos donos. O Papa nunca irá fazer na Igreja o que ele quer, mas discernindo, escutando o senso do povo, para concluir: é para aí que devemos caminhar.

Fez referência à Teologia da Libertação, e o seu mais visível “ideólogo” é Leonardo Boff, uma figura que, de algum modo, se afastou da Igreja não se afastando, que é um declarado defensor das ideias deste Papa. Fica-se com a ideia – e esse será, talvez, o seu maior mérito -, para além da opção pelos mais fracos, que Francisco tem uma grande capacidade em congregar setores desavindos da Igreja e, mais que isso, agregar e influenciar o resto do mundo. Ou seja, para além da mensagem interna, ele está a passar uma mensagem para o mundo. Ele, inclusive, já está a suscitar alguma simpatia entre os ateus e agnósticos que o veem como voz de uma mensagem nova.

Deixe-me dizer-lhe com franqueza, parece-me que os ecos mais fortes de contentamento em relação ao Papa os sentimos fora da Igreja. Ainda no mês de dezembro saí para Portugal, tenho estado muitas vezes com gente da política, gente do Governo, gente da Cultura, gente que está de fora, que não pertence à Igreja – alguns deles que não professam a fé -, porque sendo mesmo agnósticos ou ateus esperam sempre da Igreja um sinal. E estou completamente de acordo que o Papa tem feito um trabalho notável, para já para a Humanidade se sentir una, porque ele também se sente filho da Humanidade. Adotou o nome de Francisco evocando Francisco de Assis, que falava muito na fraternidade, Então, o Papa assume esta posição: eu sou um irmão de todos, não sou o chefe de todos, não sou o líder de todos, sou um irmão de todos.

São curiosas aquelas conversas telefónicas que ele tem com pessoas que lhe escrevem.

Sim, aliás, no primeiro discurso do Papa quando se apresentou ao mundo, ele falou sempre como Bispo de Roma, o que teologicamente significa muito. É o Bispo de Roma, como há o Bispo do Mindelo e o Bispo de Londres, põe-se numa posição de igual, o que é muito bonito. Mas sem subtrair o seu papel histórico de garante da unidade. A expressão é: ele preside à caridade. O Bispo de Roma, desde a antiguidade, é primus interpares.

Já li vários comentários de Leonardo Boff sobre o Papa Francisco com os quais não concordo de todo, por uma razão: ele apresenta Francisco numa visão dicotómica, por comparação com os outros Papas, e já não me sinto confortável nesse papel. Não tenho que dizer mal de Bento XVI para poder dizer bem de Francisco.

Mas percebo a posição do Boff porque, por um lado, essa é a posição dos que se afastaram da Igreja e, por outro, a dos que nunca tiveram nada com a Igreja. Ou seja, a primeira imagem é sempre comparativa. Mas percebo que o Senhor Bispo não faça essa associação, até porque os religiosos, de uma forma geral, defendem que as posições deste Papa decorrem de uma sequência ligada às posições assumidas pelos antecessores, uma espécie de “evolução na continuidade”.

Penso que sim, há evolução, há continuidade. O que se passa é que muita gente, de facto, tem um passado de mágoa com alguns antecessores deste Papa. O Papa Bento XVI, que se revelou como uma surpresa, antes de ser Papa era uma espécie de “Fiscal da Igreja”, porque o papel que ele tinha na Cúria Romana era esse mesmo, era o Cardeal-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Que, de algum modo – e até erradamente -, tem uma imagem associada à Santa Inquisição de triste memória.

É a “Inquisição” da atualidade, em novos moldes, porque temos de ter alguém que seja, um bocadinho, o garante da ortodoxia, senão qualquer um diz qualquer coisa e está tudo correto. E não é bem assim, tem de haver alguma voz autorizada que possa dizer “atenção, estás a desviar-te”. O Papa Bento XVI, na altura Cardeal Ratzinger, foi quem teve de silenciar teses da Teologia da Libertação, defendida por Leonardo Boff e outros, porque direcionou-se muito no sentido político. A Teologia da Libertação é muito bonita na sua génese. Aliás, a Igreja sempre defendeu a sua opção preferencial pelos pobres, faz parte da sua doutrina. Estar ao lado dos que mais precisam, dos trabalhadores que não têm garantidos os seus direitos, porque isso é o que sempre fez Jesus Cristo. Mas isto não significa que criemos um bloco político, ou que digamos: sou de esquerda ou sou de direita.

Mas isto também acontece numa altura em que surge a Teologia da Libertação com o essencial da América Latina a viver sob o jugo de ferozes ditaduras militares, e esse lado mais político percebe-se até como “acidente histórico”.

Mas, como dizia, essa mágoa é difícil de ultrapassar. A Igreja esteve sempre na sua melhor forma? Também não esteve. Mas em relação à Teologia da Libertação a Igreja teve mais que uma postura: num primeiro momento foi muito dura; mas noutro momento já foi mais suave. O que é necessário é que – e na história da Igreja isso tem acontecido – quem está mais à frente, no pensamento e na intuição, deve perceber que faz parte de um todo e ter alguma paciência para ajudar a Igreja a dar aquele passo. E Leonardo Boff deveria ter ajudado a Igreja a dar esse passo, como fizeram muitos que não saíram da Igreja. Não acredito que a mensagem do Papa Francisco seja simpática para os poderosos - não é; seja agradável aos que defendem um capitalismo acérrimo acima de tudo - não é. (continua)

AAP

Leia a segunda parte da entrevista na nossa edição de amanhã

 

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