OSVALDO LOPES DA SILVA: “O partido único já era cansativo mesmo para os que estavam dentro do partido”

. Publicado em Grande Entrevista

 

O velho comandante foi uma espécie de “enfant terrible” do partido único, mas continua a rever-se no PAICV, apesar de se perceber que tem uma visão muito crítica daquele que se reivindica herdeiro político de Amílcar Cabral. Este respeitável – e respeitado - saniculaense gosta mais de falar do passado que do presente, seguindo o velho princípio militante de não fazer críticas públicas ao partido


Osvaldo Lopes da Silva é – concorde-se ou não com ele – uma enciclopédia viva da história recente de Cabo Verde. Comandante de artilharia na luta pela independência, bateu-se heroicamente no terreno de guerra na Guiné-Bissau. Foi ministro, dirigente de topo do partido único e, ao fim de quinze anos no poder, saiu como entrou: sem casa, sem carro, sem nada – como gosta de acentuar. Falar com ele é um privilégio, pena foi o tempo escasso, entre uma conferência e uma chávena de café.

A conversa correu agradável no Centro Cultural Paulino Vieira, no Tarrafal, abrindo o apetite para uma outra mais longa. O pretexto foi o Dia dos Heróis Nacionais.

O senhor sustenta que o pensamento de Amílcar Cabral, no essencial, se mantém atual enquanto mensagem libertadora. No entanto, o partido que em Cabo Verde se reivindica da memória de Cabral fala muito pouco dele. Amílcar Cabral é relembrado no 5 de Julho, no 20 de Janeiro e por altura do seu nascimento.

Mas no interior do partido fala-se dele.

Na iconografia do partido não surge muito. De algum modo, há um certo apagamento da sua figura. O partido que Cabral fundou ainda existe?

Acho que sim. Existe, mas têm que se ver as contingências do próprio exercício do poder numa terra sem recursos, e há questões a que se tem que dar mais atenção que outras, mas esse partido existe no essencial, porque defende a independência do pensamento, uma das mensagens mais importante de Cabral. E independência em relação às grandes potências: Cabo Verde espantou o mundo quando conseguiu manter boas relações com os Estados Unidos e boas relações com a União Soviética.

Fui várias vezes recebido por altas instâncias na União Soviética, respeitavam-me. Eu era representante do Governo junto do Banco Mundial, nessa qualidade recebi o embaixador dos Estados Unidos e ele diz-me “não sei se esteve em Cuba”… Sim, sim, estivemos, negociamos muita coisa. “Mas tenham cuidado, nós decretamos embargo”… E eu respondi: isso é uma Lei americana, não se aplica em Cabo Verde. Portanto, tínhamos independência, sempre tivemos independência.

Fizemos essas grandes potências compreender que privilegiamos os nossos interesses. Isso de guerra ideológica… - e isto é pensamento de Cabral – fizemos um esforço para… não o suicídio da burguesia, mas pelo menos conter as coisas. E os políticos da Primeira República não criaram património para si.

E até parece terem ocorrido algumas situações caricatas como aquela do Aristides Pereira ter telefonado ao Carlos Veiga a dizer: “olhe, eu tenho de sair do palácio mas não tenho casa para onde ir”…

Eu, quando saí, não tinha casa, não tinha carro, não tinha nada. Mas, voltando ao Cabral, esses ensinamentos podem ser mais ou menos seguidos mas são as linhas mestras do pensamento do partido.

Mas a geração que veio a seguir – e tem havido vários casos de apropriação de bens públicos…

Uma geração é sempre diferente da outra, desde Ramsés II.

Mas concorda que escândalos – para utilizar uma expressão mais vulgar – de “deitar a mão na massa” não eram tão comuns na Primeira República.

Menos, mas também é preciso ver o debate político, que envenena muita coisa. Há muito exagero. As derrapagens… certamente que as há - haverá derrapagens nessas obras públicas -, mas há mais erros do que propriamente corrupção.

Há o caso de pessoas que, de um momento para o outro, enriqueceram de uma forma que não se sabe muito bem como.

Estão fora da linha do partido.

Mas alguns estão no partido…

Quais?

Não queria referir nomes, mas sabe-se.

Estão fora da órbita do partido. Há um ou outro caso.

Amílcar Cabral era muito rígido nestas coisas da seriedade material.

Sim, há um ou outro caso… O partido lá da Guiné tinha toda essa gente que gravitava à volta, mas que armaram o complô [contra Cabral]… há sempre aproveitadores.

A própria morte de Cabral nunca foi muito bem esclarecida. Sabe-se quais foram os autores materiais, mas quem estaria por detrás? Havia conexões? Nunca foi possível ao partido apurar isso?

Cada um tem a sua opinião, eu durante muito tempo pensei que tivesse sido por ordem do [António de] Spínola ou se não teria sido por ordem do Marcello [Caetano] ou do Silva Cunha.

Naquela lógica do “diálogo” sustentada pelo Spínola não faria muito sentido e Cabral poderia ser um interlocutor.

Mas quando as tropas do Spínola invadiram Conacri era para matar Cabral. Mas se foi Spínola nunca mais se saberá, porque Spínola não dava ordens por escrito. Por exemplo, quando no sul [da Guiné] entramos com Katiuscas, ele enviou sucessivamente vários assassinos para abater os que estavam a utilizar essas armas, e todos recebiam ordens orais nenhuma era dada por escrito.

Na viragem de 1991, o senhor afastou-se completamente das lides políticas, porquê? Achou que era o início de um novo tempo?

Era outro tempo, nova gente. O partido único já era cansativo mesmo para os que estavam dentro do partido. Sentia-se que o debate interno era obstruído. Não era só a sociedade que sentia a necessidade de mudança, também se sentia dentro do próprio partido.

Sei que era uma voz crítica.

Era muito respeitado na sociedade, porque sabiam que eu não seguia determinadas coisas. No seio do partido, quando se ia a votações era…

Era o enfant terrible do partido.

Sim, era (risos). Por exemplo, esses quadros intermédios queriam que a estrutura do partido tomasse conta da ajuda alimentar [internacional]. Era muito “simpático”, receber uns sacos de arroz e uns sacos de milho e distribuí-los. Eu parei com isso. Ajuda alimentar é para ser vendida, para meter no circuito normal do comércio e transformar todo esse dinheiro em salários. E fizemos uma obra notável financiada com a ajuda alimentar: estradas, construção de diques, reflorestação… Receber a ajuda alimentar e pagar salários, cada um rebe o seu dinheiro e vai fazer o que quiser com ele. O que eu queria evitar é que o povo ficasse preso ao partido pela barriga.

Pode-se até perceber que, num primeiro momento, o PAIGC fosse partido único, mas justificavam-se quinze anos?

O partido caiu quando houve condições para o MpD aparecer. Antes disso não havia pressão.

E aquela crise em 79 com os trotskistas?

Foi gente que veio a formar um partido liberal [MpD]. Mas nessa altura foi preciso fazer frente a essa gente, extremistas… os trotskistas, o luxemburguistas até nos criticavam por termos estabelecido relações com os Estados Unidos, o imperialismo… “estão a soldo do imperialismo”… Tínhamos que ser contra essa gente.

Os Estados Unidos, com uma enorme comunidade cabo-verdiana.

Exatamente, uma patetice. E até tivemos aqui em São Nicolau um grande anticlerical, que era o António Alberto, e nós tivemos que o desautorizar. Eu vim a São Nicolau para, ostensivamente, cumprimentar o padre e assistir à missa, eu que não sou católico.

Era o padre Gesualdo ou outro?

O padre Gesualdo era meu grande amigo, mas isto foi na vila, na altura era o padre Mauro. Fui ao Seminário, almocei com eles, para mostrar que o partido não era anticlerical.

AAP

 

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