TARRAFAL: José Semedo aposta na prevenção e no policiamento de proximidade

. Publicado em Grande Entrevista

 

Os roubos recentes a turistas, no mês de dezembro, são fenómenos pontuais e a Polícia tem a situação controlada, garante o Chefe de Esquadra. Os seus autores foram identificados e recuperado o produto dos roubos. Os números falam por si: comparativamente a 2012, o ano que agora findou registou menos quatro dezenas de ocorrências


No Tarrafal desde 13 de Junho de 2012, José Semedo comanda a esquadra local da Polícia Nacional, que integra a Polícia de Ordem Pública, a Guarda Fiscal e a Polícia Marítima. Licenciado e com mestrado feito em Portugal na Escola Superior de Polícia, com 37 anos, este praiense, pai de três filhos, começou a sua actividade policial na esquadra do Palmarejo, na capital, sendo posteriormente, responsável pelo Gabinete de Imagem da Polícia Nacional.

Abandonar a companheira e os três filhos foi – e é – doloroso, mas com regularidade vai até à cidade da Praia matar saudades e atenuar os efeitos da ausência. José Semedo não conhecia São Nicolau, mas a relação que estabeleceu com as gentes do Tarrafal foi fácil. O jovem oficial de Polícia é uma pessoa afável e o contacto com os outros é fácil. Ademais tem da acção policial a perspectiva de que esta deve ser preventiva e de proximidade, únicos meios para evitar males maiores. Em abono da sua tese, os números falam por si: desde a sua chegada ao comando da esquadra local, os níveis da criminalidade, já antes reduzidos, baixaram ainda mais.

Sem querer entrar em alarmismos, porque - mesmo assim, comparativamente à Praia ou ao Mindelo – os níveis de criminalidade em São Nicolau e, concretamente, no Tarrafal, são praticamente irrelevantes, na passada semana houve dois incidentes criminais: o assalto a duas senhoras alemãs e a vandalização de duas viaturas. Mas entretanto, viemos a saber que no dia 4 de Dezembro um casal de turistas ingleses foi assaltado na praia d’Boxe d’Rotcha e, uma semana depois, um casal francês foi assaltado sob ameaça de faca. Estes incidentes são de natureza pontual?

Todos os produtos desses roubos foram recuperados e identificados os seus autores. E, no caso dos franceses, foi o mesmo grupo que tinha assaltado as senhoras alemãs. Conseguimos recuperar uma máquina fotográfica digital, um binóculo, uma faca que tinha sido oferecida por um amigo do senhor francês, com um valor estimativo e afetivo muito grande. Mas este tipo de delitos começou a acontecer há pouco tempo.

E terá a ver com este período de Natal, altura em que em todo o país, para não dizer em todo o mundo, se regista um ascenso criminal?

Para lhe ser sincero, não sei. E não sei porque os que estavam a praticar esses delitos, são pessoas que anteriormente não tinham qualquer atividade criminal, trabalhavam. Só que, neste exato momento, estão desempregados. E só por isso não posso confirmar ou afirmar. Só que, em Cabo Verde e em outros países, em períodos festivos - e, concretamente, no Natal - aumentam os níveis de furtos e roubos, embora até ver não seja o caso de São Nicolau.

Apesar de tudo, para além da violência que é alguém ser abordado com uma faca, não há situações de violência, os roubos não se têm traduzido em danos físicos para as vítimas. Mas têm um fio condutor comum, normalmente acontecem em d’Boxe d’Rotcha, uma zona de afluência de turistas. Tem havido a preocupação de reforçar o efetivo policial para aquela zona, ou ter mesmo um ou dois efetivos em permanência?

Já lá fomos várias vezes e não encontramos ninguém. O que acontece é o seguinte: se quando um turista – ou um grupo de turistas – vai a essa praia, que fica bem distante, não tem comunicação, comunicar à Polícia, podemos fazer rondas. Mas não faz sentido estar a fazer rondas regulares numa praia que, normalmente, não tem ninguém. Mas os turistas, às vezes, facilitam, alugam uma viatura com motorista e, depois, dispensam viatura e motorista e combinam uma hora de recolha. Ficam sozinhos, como aconteceu com o caso das duas senhoras alemãs. São presas fáceis.

Mas isso de os turistas descurarem a sua segurança terá, talvez, a ver com o facto de não estarem associadas a São Nicolau atividades criminosas. Provavelmente, se essas pessoas estivessem na Praia ou no Mindelo teriam uma atitude diferente. Mas deduzi pelas suas palavras que esta esquadra terá falta de efetivos. Quantos agentes têm neste momento?

Menos de vinte, no total. Necessitávamos de uma média de 15 elementos para a Ordem Pública, mais cinco de Guarda Fiscal e mais quatro ou cinco da Polícia Marítima.

E quanto a viaturas?

Temos três, uma delas para transporte de detidos, embora uma esteja parada porque estamos à espera de peças que vêm da Praia. Mas estamos bem, três viaturas servem para dar resposta.

O senhor está no Tarrafal desde 2012, portanto, tem já um conhecimento profundo da realidade do concelho. Deduzo que a maior incidência criminal tenha a ver com Violência Baseada no Género (VBG).

Isso era antes, agora a VBG está a descer, Ou melhor, de uma forma geral, a criminalidade aqui na cidade diminuiu, e notamos isso ao nível do expediente, diminuíram as queixas, tivemos menos quarenta e tal em 2013, comparativamente ao ano anterior.

No total, quantas queixas tiveram em 2013?

150. Nos anos anteriores eram à volta de duzentas.

E quais são os crimes mais denunciados?

Ofensa à integridade física, calúnia, difamação, injúria, furto e VBG. Agora, quanto a roubo, só começou a acontecer em Dezembro. Mas os furtos são normalmente de animais: uma cabra, um porco. Para patuscar também, mas na maioria dos casos para vender.

Mas isso terá a ver com a situação social complexa, a falta de emprego que, em São Nicolau, tem uma grande incidência. Como é que a Polícia exerce a sua ação preventiva?

Temos de mostrar à sociedade que estamos aqui para trabalhar. Mesmo com poucos efetivos, temos de estar presentes, fazendo um policiamento de proximidade e trabalhando com as populações para nos fornecerem informações quando houver algo de diferente, por exemplo, pessoas estranhas, comportamentos que levam à desconfiança. E, quando chega um barco com turistas, estamos mais atentos, temos informação da sua chegada, mas quando chega um iate com duas ou três pessoas já é mais complicado porque não temos essa informação. Mas nos cruzeiros é diferente, sabemos quando chegam e para onde vão e, quando saem do município, comunicamos à Polícia de Ribeira Brava.

Há fenómenos de natureza delinquente que são visíveis aqui na terra. A prostituição é um deles, envolvendo mulheres muito jovens e, associado a isto, percebe-se haver situações de abuso sexual de menores. Para sermos mais precisos: não é normal que homens de meia-idade andem permanentemente com meninas de 13 e 14 anos. E os envolvidos correspondem a este perfil: estrangeiros, brancos e europeus, de meia-idade ou acima disso.

Já tivemos essa informação e, com o número reduzido de efetivos que temos, procuramos trabalhar a informação, mas é um crime difícil de provar. No entanto, quando aparecem turistas com menores num café fazemos uma abordagem direta, vamos lá perguntar: “é familiar, conhece o pai e a mãe do menor?” Se não, o menor nos acompanha e entramos logo em contacto com os pais. E, depois, cabe à família perceber o que está a acontecer, porque a Polícia faz o seu papel preventivo. A não ser que haja flagrante delito, ou a prova testemunhal da própria criança esse crime é muito difícil de provar. Mas se tivermos a informação que um turista acabou de entrar numa residencial com um menor, isso já é diferente. E quando apanhamos crianças, a partir das oito da noite, em locais frequentados por turistas, trazemo-las para a esquadra e chamamos os familiares. Estar na rua não é crime, mas nesse horário pode facilitar e é isso que queremos evitar.

E quanto à toxicodependência e consumo de álcool?

Aqui, o consumo de drogas não é alarmante, não é significativo, o álcool já é diferente, é mesmo alarmante, mas também é mais fácil de se perceber porque dá mais nas vistas. Quanto ao consumo de estupefacientes, é mais a “padjinha”, uma droga leve.

Há furtos associados ao consumo de drogas?

Não propriamente, há alguns consumidores referenciados e já tivemos pessoas acusadas por pequeno tráfico. E sabemos que há pessoas a trazer a droga para a ilha, normalmente através de barco. Já fizemos por várias vezes fiscalização de forma inopinada, à saída do barco revistamos todos os passageiros, não saem para a rua, vão directamente para o hangar e abrem as malas, mas até agora não conseguimos apanhar nada.

AAP

 

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