DOM ILDO FORTES: que o jubileu seja uma vivência real para toda a nossa igreja

Escrito por Editor JSN . Publicado em Grande Entrevista

Num exclusivo ao JSN, o bispo de Mindelo aprofunda o tema ano santo da misericórdia e diz que o mundo está “tão necessitado” de perdão, por isso o Sumo Pontífice proclamou este jubileu pensando na construção de “um mundo mais humano”

 

 


Dom Ildo Fortes que no próximo domingo 13 abre o ano santo na sua diocese, deseja que este jubileu não seja apenas mais um ano centrado no lema da misericórdia mas uma oportunidade para se deixar “tocar” pela “ternura de Deus que nos ama loucamente”.


Nas linhas que se seguem, o prelado de Mindelo explica como melhor viver este jubileu extraordinário e insta os nossos leitores a se “aproximarem um pouco mais de Deus” neste ano santo, ainda que seja “um pequeno passo”. “Estamos diante de uma oportunidade especial de graças”, enfatiza dom Ildo Fortes que lembra que o mundo atual mesmo com todas as suas ofertas e propostas “não é capaz” de nos trazer a verdadeira paz e alegria que o nosso coração tanto deseja.



JSN - O Papa anunciou e inaugurou no passado dia 8, solenidade de Imaculada Conceição, um ano jubilar, dedicado à misericórdia. O mundo precisa, assim, de tanta misericórdia?
Dom Ildo Fortes - A igreja, fiel a uma antiga tradição que já remonta aos tempos bíblicos, de tempos em tempos, proclama um jubileu ou ano santo, um ano em que se espera obter uma graça especial de Deus que tanto nos ama. Há jubileus ordinários e extraordinários, como é este da misericórdia. O último jubileu, tinha sido o Papa João Paulo II a proclamá-lo: o jubileu do ano 2000, por ocasião dos dois mil anos no nascimento de Jesus Cristo.


Se o mundo precisa, assim, de tanta misericórdia?! Sem dúvida alguma. Foi precisamente observando o mundo como está, ou seja, tão necessitado de perdão para curar as feridas que têm dividido a humanidade, que o Papa proclama um ano de misericórdia. O Papa afirmou no passado dia 9, no Vaticano que o jubileu da misericórdia, iniciado esta terça-feira, quer responder às necessidade da igreja e ao desejo de construção de “um mundo mais humano”.


E na bula que proclama o jubileu da misericórdia (Misericordiae Vultus – O Rosto da Misericórdia), afirma o Papa, logo no número 3, que: “Há momentos em que somos chamados, de maneira ainda mais intensa, a fixar o olhar na misericórdia, para nos tornarmos nós mesmos sinal eficaz do agir do Pai. Foi por isso que proclamei um Jubileu Extraordinário da Misericórdia como tempo favorável para a Igreja, a fim de se tornar mais forte e eficaz o testemunho dos crentes”.


No número anterior havia dito já que: “precisamos sempre de contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o acto último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado”.

Na sua diocese a abertura, entretanto, apenas no domingo dia 13. É uma forma de poder envolver um maior número de fiéis nesta importante ocasião ou terá outras razões esse adiamento?
O ano santo começou para a igreja inteira no dia 8 dezembro, mas é o próprio Papa a sugerir que em todas as dioceses do mundo, no dia 13, ou seja no domingo seguinte à abertura da porta santa em Roma, que aconteceu  no dia 8, os bispos  abram uma porta santa nas suas catedrais. Ele mesmo, como bispo de Roma, também vai abrir no dia 13, a porta santa da basílica de São João Latrão, que é a catedral do Papa, enquanto bispo de Roma. Esta é uma forma de expressar melhor que o jubileu é vivido em toda a igreja e não só em Roma. O bispo diocesano, para além da catedral, pode decretar outras igrejas jubilares na sua diocese.

 

E qual a mensagem central que o senhor dom Ildo vai partilhar com os católicos na abertura deste ano jubilar?
A mensagem central é que o jubileu seja uma vivência real para toda a nossa igreja. Não seja apenas mais um ano centrado num lema ou num tema – a misericórdia - a ser refletido ou estudado, não! Pois, trata-se de termos a coragem e a ousadia de nos deixarmos tocar realmente pela ternura de Deus que nos ama loucamente. O seu amor traduzido em perdão dado e experimentado é fonte de uma nova vitalidade na igreja e na missão; assim este ano é propício para uma profunda renovação espiritual. Seja ele uma boa oportunidade para assumirmos a missão de sermos portadores do amor, do perdão e da paz de Deus para todos aqueles com quem cruzamos na vida.

Como é que se pode viver bem esse ano da misericórdia senhor bispo?
Buscando os caminhos da verdadeira conversão no dia-a-dia, procurando servir-se de todos os meios que a igreja põe à nossa disposição, o sacramento da reconciliação ou confissão, a palavra de Deus, fazendo peregrinações às igrejas jubilares, intensificando a oração, pondo em prática as obras de misericórdia, obras essas que o Papa faz questão de sublinhar no final da bula, etc. Viver bem este ano é ser cristão a sério e a tempo inteiro.

 


O bispo teve a atenção de em cada ilha definir as chamadas igrejas jubilares. O que acontecerá quando alguém ir a uma destas igrejas? Algum dom especial?
Nesses lugares estabelecidos como igrejas jubilares, os próprios padres irão providenciar para que as pessoas tenham acesso a múltiplos meios de graças e bens espirituais. O sacramento da confissão estará, tanto quanto possível mais acessível. Acreditamos que atravessando as portas dessas igrejas (de modo simbólico) os fiéis se sintam mais tocados por Deus e pela fé entrem pela única porta da salvação que é Jesus Cristo, pois Ele é o rosto da misericórdia do Pai.


Ainda acerca disto, pode-se ler também na bula: “em cada Igreja particular – na Catedral, que é a Igreja-Mãe para todos os fiéis, ou na Concatedral ou então numa Igreja de significado especial – se abra igualmente, durante todo o Ano Santo, uma Porta da Misericórdia. Por opção do Ordinário, a mesma poderá ser aberta também nos Santuários, meta de muitos peregrinos que frequentemente, nestes lugares sagrados, se sentem tocados no coração pela graça e encontram o caminho da conversão. Assim, cada Igreja particular estará directamente envolvida na vivência deste Ano Santo como um momento extraordinário de graça e renovação espiritual. Portanto o Jubileu será celebrado, quer em Roma quer nas Igrejas particulares, como sinal visível da comunhão da Igreja inteira» (MV3).

 

Em que circunstâncias o cristão alcança a misericórdia neste ano que se prolonga até 20 de novembro de 2016?
Desde que nos abramos sinceramente ao amor e à misericórdia do  Pai Deus, Ele vem ao nosso encontro e cobre-nos de ternura e salvação; ou seja, faz renascer em nós a vida e alegria. Portanto, mais do que coisas, Deus quer é o nosso coração convertido ao Seu amor e ao amor dos irmãos. Contudo, algumas coisas, ou muitas coisas são sugeridas para que os fiéis possam chegar a alcançar mais e melhor a misericórdia e as graças próprias do Ano Santo. “A peregrinação é um sinal peculiar no Ano Santo, enquanto ícone do caminho que cada pessoa realiza na sua existência. A vida é uma peregrinação e o ser humano é viator, um peregrino que percorre uma estrada até à meta anelada. Também para chegar à Porta Santa, tanto em Roma como em cada um dos outros lugares, cada pessoa deverá fazer, segundo as próprias forças, uma peregrinação. Esta será sinal de que a própria misericórdia é uma meta a alcançar que exige empenho e sacrifício. Por isso, a peregrinação há-de servir de estímulo à conversão: ao atravessar a Porta Santa, deixar-nos-emos abraçar pela misericórdia de Deus e comprometer-nos-emos a ser misericordiosos com os outros como o Pai o é connosco» (MV 14).


Este Ano, como em todos os outros, sugerem-se peregrinações ao lugares santos (santuários, igrejas Jubilares, etc), uma vida de maior oração; o exercício mais regular da caridade. Aconselho a leitura da bula, porque nela encontram-se muitas pistas que o próprio Papa dá. Nos jubileus é comum obter-se as indulgências plenárias (uma espécie de perdão mais alargado).

Que mensagem àqueles que nos leem nesta entrevista?
Para todos os que nos acompanham nesta entrevista, deixo o desafio de se aproximarem um pouco mais de Deus neste ano santo, mesmo que seja um pequeno passo. Pois estamos diante de uma oportunidade especial de graças. O Pai Deus, cheio de ternura e paciência, nos atrai e nos espera de braços abertos. O mundo presente com todas as suas ofertas e propostas não é capaz de nos trazer a verdadeira paz e alegria que o nosso coração tanto deseja.


Precisamos de uma verdadeira alternativa. Haja coragem para isso! Precisamos, como diz o Papa Francisco, “sempre de contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o acto último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida”.


Faço votos de que este jubileu da misericórdia traga muitos frutos de paz, bem e alegria para todos.


Entrevistado por Anísica Campinha

 

 

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