ULISSES CORREIA E SILVA: Temos que ter a economia a funcionar para que possa criar emprego de qualidade

Escrito por Editor JSN . Publicado em Grande Entrevista

O líder da oposição está preocupado com o desemprego que afeta sobretudo os jovens, incluindo os com formação superior. É preciso pôr a economia a funcionar de modo a criar emprego, defende Ulisses Correia e Silva

 


Nesta segunda e última parte da entrevista que nos concedeu no final da sua visita à ilha de São Nicolau, o presidente do MpD fala também do modelo de governação que preconiza para o país, à semelhança do que introduziu na câmara da Praia, despolitizando a administração para servir as pessoas. Para governar é necessário “atitude de exercício do poder”, sustenta o nosso entrevistado que promete governar o país com responsabilidade “e para todos”.


O presidente do MpD aborda também a polémica em torno da taxa ecológica e reitera que existe associações “que são chefiadas” por deputados do PAICV, “que receberam dinheiro do Estado, e muito dinheiro”.


A entrevista termina com uma pergunta que pôs Ulisses a sorrir, se a presidente do PAICV lhe tira sono. A resposta foi curtíssima: “ninguém me tira sono quanto mais a Janira”



JSN - Há um número cada vez maior de jovens, licenciados sobretudo, no desemprego. Preocupa-lhe esta realidade?

Ulisses Correia e Silva - Claro que me preocupa e é um problema número um, relativamente a questões que têm a ver com o presente e o futuro de Cabo Verde. Muitos jovens desempregados é um problema. Muitos jovens formados, licenciados no desemprego é um problema ainda maior e isto demonstra que o problema não está apenas na formação nem na capacitação da mão-de-obra, mas na oferta de trabalho, ou seja, não havendo capacidade económica, não havendo a capacidade das empresas investirem, de as empresas subsistirem, fica como criador de emprego o Estado, e o Estado tem limitações na criação de emprego. Temos que ter a economia a funcionar para que possa criar emprego e emprego de qualidade.


Olhemos agora para as classes mais vulneráveis, os idosos e os portadores de deficiência: que políticas vai adotar caso vença as eleições de 2016?


O crescimento económico tem de ser inclusivo. Há pessoas que mesmo havendo disponibilidade de emprego não poderão chegar lá, por vários motivos, por isso tem que haver políticas inclusivas, e a inclusão começa logo pela questão do género.


A exclusão em Cabo Verde tem rosto feminino. A maior parte dos desempregados são mulheres, a maior parte dos pobres também são mulheres, a maior parte dos problemas de desestruturação familiar restam para as mulheres, quer dizer que uma boa política de inclusão tem que permitir alterar este quadro.


Nós temos que saber trabalhar em vários domínios ao mesmo tempo, desde logo a proteção social mas uma proteção social que acautele a vida dos idosos, não no sentido de assistência, de dar coisas, uma proteção com regras claras, universais, publicados, para todos terem os mesmos direitos e que todos saibam como é que está a ser gasto o dinheiro do Estado.


Relativamente aos portadores de deficiência é necessário ter políticas também inclusivas para o emprego, para a capacitação, formação e para a integração global na sociedade, isto é possível.


Teremos que saber trabalhar a vários níveis, sempre de forma inclusiva para que o crescimento também beneficie estas pessoas.

 
Definiu uma forma diferente de governar a câmara da Praia, e tem-no feito desde 2008, quer transportar esse seu modelo para a governação do país. É possível com a experiência da Praia governar Cabo Verde?


É possível levando a mesma atitude de exercício do poder porque a governação tem uma dimensão política e essa dimensão política é muito importante. Temos que governar Cabo Verde com responsabilidade e governar para todos, não governar para aqueles que são do meu partido, não discriminar os cabo-verdianos nem separá-los em função da sua preferência político-partidária: isto permite introduzir várias coisas, desde logo o sentimento de justiça, de equidade e de transparência na relação com o Estado e com as instituições, em segundo lugar melhora as condições para que a administração pública seja eficiente, não estará lá gente apenas pelo facto de serem próximas do partido que governa mas estará lá gente capaz, não deve haver confusão de papéis como temos hoje, delegados de ministérios que são ao mesmo tempo coordenadores de setores do PAICV nas ilhas.


Ao desempenhar estes dois papeis evidentemente que vão fazer a politização do próprio cargo.


Tudo que sejam cargos de direção da administração pública deverão estar com níveis alto de incompatibilidades mesmo que não seja por lei por que poderá haver problemas constitucionais mas por auto princípio que iremos adotar que quem está na direção do Estado, da administração pública não deverá estar na direção de órgãos do partido, para permitir essa separação.


Esta medida é aplicável quer às estruturas da administração pública quer às empresas públicas ou maioritariamente participadas pelo Estado, temos que ter essa separação: aquilo que é deve ser e deve parecer.


A mesma coisa com as organizações da sociedade civil, as associações, deixá-las livremente desempenharem o seu papel, sem estarem contaminadas por interesses político-partidários, isto provoca uma alteração muito grande na perspetiva de desenvolvimento do país e foi isto que nós fizemos na câmara da Praia. As associações participam porque elas não estão condicionadas politicamente, os agentes culturais participam, os jovens, os desportistas participam e nós estamos ali para criar as condições, para ajudar a despoletar o processo e eles são os grandes atores. É essa mesma abordagem que podemos transportar para a governação com muitas vantagens porque será para todo o país.


Referiu-se às associações, há por estes dias a polémica em torno da taxa ecológica/fundo do ambiente, denuncias de utilização indevida dos recursos do fundo, alegados financiamentos a algumas associações, em detrimento das câmaras municipais, fala-se até em “associações camaradas”, como tem acompanhado essa polémica?


Há associações que são chefiadas por deputados e deputados do PAICV, que receberam dinheiro do Estado, e muito dinheiro, é o caso de uma associação na Achada Santo António e de uma outra na ilha do Maio, e isto é conhecido. Sabe-se que na ilha do Maio o próprio deputado do PAICV colocava as pessoas em fila para dar coisas e sabe-se qual o resultado destas ações, é para as pessoas se sentirem condicionadas, dependentes.


Nós entendemos que por detrás desta polémica está o modelo, esse tal modelo de confusão entre o partido e o Estado, recursos do Estado a ser utilizados para fins partidários e de condicionamentos das pessoas.


O fundo do ambiente foi criado a partir da taxa ecológica que era uma taxa municipal, em que os municípios tinham uma participação muito grande. O governo tirou recursos dos municípios e distribui, agora, a associações e por atividades que não têm absolutamente nada a ver com o ambiente. O problema não é só as associações, é para que fim esse dinheiro é utilizado.


É uma reivindicação justa garantir que haja reposição da taxa e não desvirtuar o seu verdadeiro fim.


O que fará a sua governação?


Nós faremos diferente, iremos alterar isto, assim como o fundo do turismo, a taxa turística, fazer as coisas estarem consonantes e coerentes com o fim pelo qual é criado.


Iremos transformar a taxa turística numa taxa municipal, mesma coisa com o fundo do ambiente, dar-lhe o destino correto.


A sua adversária nas legislativas lidera no governo as pastas da juventude e emprego, tem tido um discurso a dizer que o país e os jovens estão bem mas a oposição diz o contrário, pergunto que tipo de campanha vamos ter entre UCS e JHA?


Dizer que os jovens estão bem é uma afirmação até patética e não cola com a realidade. O sentimento que os jovens têm é contrário. Os dados e a realidade demonstram que há problemas e problemas de facto, o desemprego, desemprego jovem, problemas na educação, na qualidade da educação, problemas no acesso à educação e na manutenção da educação devido à falta de rendimento das famílias e muitos não conseguem aguentar o pagamento da propina quer no ensino secundário mas principalmente no ensino superior, falta de perspetivas de futuro, portanto é este o ambiente que a juventude está a viver em Cabo Verde. Claro que não vou antecipar o tipo de campanha que vamos ter mas diria que não há palavras para qualificar a situação em que a juventude vive.


A Janira, presidente do PAICV, tira-lhe sono?


Não, ninguém me tira sono quanto mais a Janira.

 

 

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