ULISSES CORREIA E SILVA: É um imperativo fazer São Nicolau sair da situação em que está

Escrito por Editor JSN . Publicado em Grande Entrevista

Líder da oposição não está contente com a situação da ilha de São Nicolau e promete trabalhar para alterar o estado das coisas. Observa que esta ilha está com “atrasos evidentes” em diversos setores e advoga colocar a ilha em patamares superiores e na rota do desenvolvimento

 


Ulisses Correia e Silva é categórico: é um imperativo fazer São Nicolau sair da situação em que está e criar perspetivas próprias para o desenvolvimento, para o crescimento e para a geração de rendimentos e de empregos.


Num exclusivo ao JSN no final da sua visita à ilha, o presidente do MpD garantiu que caso vença as eleições, em 2016, vai pôr em curso um plano para “conectar” São Nicolau com o país e com o mundo, apostando em transportes regulares, investindo na saúde e apostando na criação da economia de modo a gerar emprego e riqueza.


É a primeira parte de uma grande entrevista do candidato do MpD a Primeiro-Ministro nas eleições legislativas do próximo ano.



JSN - Veio a São Nicolau para atualizar as informações sobre a ilha. Depois desta visita de praticamente quatro dias que retrato leva?


Ulisses Correia e Silva - Há um sentimento de maior isolamento pelo facto de a TACV ter reduzido o número de voos. A ilha ficou com menos conexão. A perceção quando é generalizada tem que se tomar atenção porque há uma realidade por detrás.


Há alguns setores como a saúde que tiveram alguns ajustamentos mas continua com problemas muito complicados, desde RaiX para serem feitos obrigam a evacuação, situação de número insuficiente de enfermeiros e médicos, a situação da juventude e do desemprego, nota-se, claramente, que há falta de atividade económica, é um fator que tem estado a gerar a perda da população, e se as coisas continuarem assim, nos próximos 15 anos a ilha de São Nicolau poderá descer ainda mais.


As pessoas saem porque não têm perspetivas de rendimento, de emprego. É um retrato de uma ilha com muito potencial mas com problemas estruturantes e de atraso que precisam ser recuperados.


Crê que os compromissos assumidos durante a conferência de sexta-feira podem colocar São Nicolau no mapa novamente?


E tem que colocar.


Não há alternativa para a governação das ilhas que não seja fazê-las desenvolver. Cabo Verde são as ilhas, não é outra coisa. Assim como é necessário em São Nicolau é necessário em todas as ilhas mas São Nicolau por maioria de razão porque é uma ilha que está com atrasos evidentes em diversos setores e que precisa de ser colocado em patamares superiores e na rota do desenvolvimento.


Não tenho dúvidas que para além de uma necessidade é um imperativo fazer São Nicolau sair da situação em que está e criar perspetivas próprias para o desenvolvimento, para o crescimento e para a geração de rendimentos e de empregos.

 


Perspetivar respostas para um ciclo de 10 anos mas São Nicolau se calhar precisa de respostas muito mais urgentes. Caso vença as eleições, qual o timing que poderemos notar mudanças efetivas na ilha?


Timings urgentes têm que ser estruturados também numa perspetiva de médio e longo prazo: é começar logo a conectar a ilha com o resto do país. Tem que haver transportes mais regulares quer marítimos quer aéreos, tem que se atacar de imediato a questão da saúde porque sem isso tens problemas para a população local e problemas para trazer qualquer programa de desenvolvimento do turismo, tem que se atacar a questão da criação da economia para permitir que haja geração de emprego e de rendimento. Este é um programa que tem que ser feito numa perspetiva dos dez anos mas tem que se começar imediatamente em 2016 para que comece a aliviar esse sentimento porque quem faz o desenvolvimento são as pessoas e se as pessoas tiveram com a sensação de alguma depressão do desenvolvimento da ilha também terão dificuldades em incentivar, em estimular e em fazer acontecer as coisas, por isso precisamos destampar este isolamento e criar perspetivas para que o desenvolvimento comece a verificar, que haja investimentos, empreendimentos e que a ilha possa entrar na rota do desenvolvimento.


O empreendedor local vive neste momento com o credo na boca. Tem taxas e impostos a pagar, empréstimos bancários a amortizar mas a economia local não está a funcionar. O que dizer a estas pessoas?


O ambiente económico e de negócio é mau e é mau em todo o Cabo Verde e afeta por maioria de razão ilhas que estão com mais problemas. A questão do imposto e a questão do imposto de uma forma geral, nas suas diversas versões quer o imposto sobre o rendimento e imposto sobre as despesas, as taxas para a fiscalidade tem que ser mexida.

Nós temos uma perspetiva de uma economia por iniciativa privada e não uma economia por iniciativa do empreendedorismo do Estado. Só por si dá-nos uma visão e uma opção de fiscalidade diferente. Precisamos de impostos sim mas impostos que consigam compatibilizar o financiamento do Estado com a dinamização da economia. Tem que ser mais baixo, tem que ser reestruturados quer o IVA, o imposto sobre as despesas no caso das alfândegas quer de impostos sobre rendimentos e as diversas taxas para se encontrar um mix que seja um fator incentivador do investimento e da poupança das famílias e possa criar mecanismos de desenvolvimento da economia mas para isso o Estado tem que ajustar a sua despesa. Se o Estado gastar muito, ainda por cima um Estado que gaste muito e é ineficiente e ineficaz, transporta estes custos para a economia e para as famílias: um Estado gordo tem que se alimentar e vai se alimentar de impostos. Tem que se mexer no nível de endividamento do Estado porque esse endividamento resulta de excesso de despesas e cria situação de dificuldades em termos de crédito porque o risco do país quando é elevado também transfere para os privados dificuldades em ter acesso ao crédito e ter acesso ao crédito de uma maneira mais difícil e mais gravosa. Esse ambiente macroeconómico tem que ser alterado e tem que se criar condições para que aqueles que empreendem se sintam incentivados e estimulados porque é eles que criam emprego e riqueza no país.

 


Consigo Primeiro-Ministro é possível no primeiro ou segundo ano de mandato mudar tudo isto?


Não há varinha mágica para fazer tudo de uma vez, agora, tem que haver o caminho e uma estratégia e uma dessa estratégia complementar àquilo que eu disse é o modelo de governação da ilha e que possa ver para a ilha, ter uma abordagem integrada da ilha.


Que parlamento terá que ter para poder introduzir estas mudanças. Para mexer nos impostos vai ter que contar com o parlamento, naturalmente.


Ah, claro, e temos que ganhar com maioria, com uma maioria que permita com que tenhamos condições de executar aquilo que nós pretendemos.


No caso dos impostos é uma maioria simples, não exige dois terços, no caso de mudança de modelo de governação, a introdução do modelo de regionalização exige dois terços, tem que ser consensualizado com os outros representantes no parlamento mas a nós parece que é o modelo mais adaptado para a governação das ilhas. Ter uma abordagem integral das ilhas, dos seus recursos, das suas potencialidades, ter uma estratégia do desenvolvimento global da ilha e quando digo global, digo desde os recursos humanos, naturais que a ilha tem nos diversos setores, desde a formação, educação, saúde, infraestruturas, planeamento do ordenamento e desenvolvimento da cidade em cada uma das ilhas, do desenvolvimento dos setores da agricultura, pescas, turismo, industria de conservação possam ter um ambiente favorável para desenvolver as suas atividades isto numa perspetiva de economia da ilha e interligado com o resto do país e com o mundo.


Este modelo é para permitir para que haja, primeiro, uma abordagem integrada, segundo, uma responsabilidade política perante os saniculaenses, quer dizer, alguém tem que responder e tem que definir metas e objetivos para o crescimento económico da ilha, para a redução da pobreza, para o crescimento do emprego, para a melhoria dos indicadores de saúde, da educação, definindo estas metas e objetivos e despoletar o processo quer através de políticas públicas quer através da mobilização social, das iniciativas privadas, das organizações da sociedade civil porque assim a ilha saberá para onde é que vai. Hoje, ninguém sabe, tudo o que acontece, acontece porque não há medidas, não há compromissos, não há objetivos e é isso que o modelo da governação regional vai trazer e com gente capaz, competente, interessada e comprometida com o desenvolvimento da ilha.

 


É possível a regionalização logo no início do mandato ou vai precisar de tempo para mostrar o seu modelo?


Temos a intenção de logo no primeiro ano de mandato levar uma lei de regionalização, dependerá do parlamento aprová-la ou não. Teremos condições de ter uma maioria mas exige maioria qualificada, ou seja, tem que haver um entendimento para isso acontecer mas se eventualmente não houver essa aprovação teremos sempre possibilidades alternativas de fazer com que este mesmo conceito seja implementado de uma forma diferente. O fundamental é encontrar formas institucionais e de organização política que permita com que a ilha se desenvolva.

 

NOTA: Leia na edição de terça-feira, a segunda e última parte desta grande entrevista ao JSN, em que o líder da oposição fala da sua preocupação com o desemprego, avança ideias políticas para as classes mais vulneráveis e partilha o modelo de governação que deseja para Cabo Verde.

 

 

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