IVANILDA SPENCER: Não podemos abater os cães

Escrito por Editor JSN . Publicado em Grande Entrevista

O mote para esta conversa são os cães vadios que povoam a Cidade do Tarrafal num verdadeiro atropelo aos bons costumes. O JSN foi indagar a vereadora que tutela o saneamento e ambiente sobre este problema cuja solução não se vislumbra. A câmara, segundo as palavras da nossa interlocutora não tem meios para pôr cobro aos cães vadios


De uns tempos a esta parte na Cidade do Tarrafal na ilha de São Nicolau voltou a ser normal encontrar matilhas de cães deambulando de um lado para outro, muitas vezes perturbando a ordem pública e até pondo em risco a integridade de pessoas.

Não têm faltado críticas a esta situação mas solução não se vislumbra. Confrontada, a câmara iliba-se e coloca a responsabilidade noutras instituições, nomeadamente, o MDR e a delegacia de saúde.
A vereadora Ivanilda Spencer é categórica e afirma: “não temos autorização para abater” os caninos, por isso adianta que a “grande aposta” da autarquia passa pela “sensibilização”.

Independente de quem tenha ou não razão há uma certeza: esta realidade não pode continuar por mais tempo. Urge combatê-la.

 

JSN - Vivemos em plena época alta do verão no município e nota-se que existem, de uns tempos a esta parte, grandes quantidades de cães vadios nas ruas da Cidade. Até o momento a Câmara não conseguiu uma resposta eficaz para este problema que acaba sendo de saúde pública?

Ivanilda Spencer - Infelizmente o que cabe a nós é somente a sensibilização, porque muitas pessoas solicitam o abate, mas não podemos abater porque não temos autorização para abater. Primeiro, tínhamos que ter o veneno disponível e o centro de saúde não disponibiliza. Já abordamos o responsável pelo centro de saúde, e a resposta que recebemos é que ele não disponibiliza porque teria de ser um veterinário para fazer a solicitação, e nós não temos veterinário no nosso município, e por isso as coisas ficam complicado. Há algum tempo atrás havia grande quantidade de cães vadios na rua, mas depois vimos que diminuíram, isso quer dizer que os cães não eram vadios, a maioria dos cães que estão nas ruas têm donos, mas infelizmente os donos, não sei por que razão acabam por abandonar os cães. Por isso a nossa grande aposta é a sensibilização. Quem tem o seu cachorro para colocá-lo em casa, porque assim evitamos muitas coisas que envolvem a saúde pública.
 


O que vos falta para equacionar, definitivamente, esta questão? Coragem política, meios, o que vos falta na verdade?


A autorização para abater é o que nos falta.
O ministério do Desenvolvimento Rural teria de solicitar o veneno ao centro da saúde, caso o centro de saúde disponibilizasse faríamos um plano onde colocava-mos o trabalho em prática. Mas sabemos que o próprio ministério da Saúde não aconselha o abate de animais, e nós não temos permissão para abater animais, por isso ficamos nesse impasse e as pessoas não colaboram. Ficamos limitados na nossa ação uma vez que não podemos infringir as regras. Tem de ser criado um plano entre a câmara municipal, o MDR e a delegacia de saúde para juntarmos e colmatar esse problema.


 
A cintura urbana da Cidade alberga se não estamos em erro cerca de 70 por cento da população do município e não é de todo salutar termos esta realidade de cães a conviver com pessoas. Mais quanto tempo será necessário para equacionar o problema?


Infelizmente não temos uma data certa.
A câmara municipal, a delegacia de saúde e o centro de saúde temos trabalhado em parceria a fim de resolver alguns problemas de saúde pública,  o que poderemos fazer neste momento é solicitar um encontro com máxima urgência com essas instituições, juntamente com o MDR, a fim de tentar resolver esse problema o mais urgente possível.


 
Desculpa a nossa insistência, embora sendo leigos na matéria, haverá sempre formas de debelar a questão. O abate não seria uma solução? São animais vadios, logo sem donos porque se tivessem donos deveriam estar nas casas. Não concorda com o abate?


A câmara está disposta a fazer o abate.
Imagina se algum destes cães morderem uma criança, temos muitas crianças com problemas de pele, sobretudo por causa de contactos com cães.
Já tínhamos feito um plano anteriormente, mas não foi dado seguimento por causa dessa autorização.


 
Outro problema, grave a nosso ver, é a questão de muitas pessoas usarem as ruas (becos, sobretudo) para as necessidades fisiológicas. Este cenário é mais grave sobretudo no centro da Cidade.


É uma situação grave, mas o que estamos a fazer agora é dar o nosso máximo para um maior número de casas de banho possível, porque infelizmente muitas pessoas não têm casas de banho em casa, por isso dentro das nossas limitações estamos a apostar na construção de casas de banho, e vamos apertar a mão na nossa fiscalização, porque ultimamente temos recorrido a sensibilização. Mas as pessoas não estão a sensibilizar por isso temos que aplicar coimas. Chegamos ao ponto de tolerância zero, quem não cumprir aplicamos multa.


 
Muitas famílias reclamam de terem que fechar as portas, pôr redes à janela e portas por causa dos mosquitos, muitas vezes provocados por comportamentos menos corretos de certos cidadãos. É normal esta situação?

Já começamos com um processo de campanha de limpeza, vamos continuar com as campanhas, vamos aproveitar uma máquina que está aqui a título de empréstimo por parte do MDR. Temos também o problema dos terrenos abandonados, quando são terrenos privados infelizmente não conseguimos intervir, e o que está a passar na nossa cidade neste momento é que temos construções e no meio temos algumas construções privadas e a câmara não pode sem autorização do dono de terreno fazer uma intervenção. Nos públicos vamos fazendo paulatinamente, mas nos privados não.

 

E quanto ao trabalho dos fiscais, acredita que estão a fazer uma boa fiscalização ou deveriam pressionar mais?


Acho que deveriam pressionar mais, porque a nossa fiscalização, infelizmente, é fraca. Temos o fator que é o número de fiscais no serviço, porque trabalham das 8h até as 16 horas, isso quer dizer que no período em que não há fiscais, pessoas têm comportamentos inadequados, não temos condições financeiras para colocar mais fiscais nas ruas no horário que fica a lacuna. Já foi feito anteriormente uma mexida no horário em que trabalhavam das 6 da manhã até às 22 horas, mas não resultou e não sei onde está a lacuna, sei que muitos dão o seu máximo mas não conseguem.
A câmara vai começar a ter mão pesada, aplicando coima para quem tem comportamentos inadequados.

 

A fraca iluminação pública também contribui para que essas pessoas façam as suas necessidades fisiológicas nas ruas. O que fazer em relação a isso?


Pois é, se temos um local bem iluminado, as pessoas sentem vergonha em fazer as suas necessidades fisiológicas nesse lugar, mas isso envolve a parte da Electra.


 
Já que falamos de coisas que afetam diretamente a vida das pessoas desta urbe, que mensagem deixa às pessoas que nos leem?


Há um ditado que eu gosto muito, não faça aos outros o que não gostas que te façam a ti: então para pensarmos nisso, sabemos que há pessoas que são indiferentes mas temos pessoas que gostam de fazer, mas se outras pessoas os fazerem não ficam contentes. Devemos sempre nos colocar no lugar do outro. Ninguém gosta que pessoas façam as suas necessidades fisiológicas perto das nossas casas, porque o cheiro vai afetar várias pessoas, então para pensarmos Tarrafal como um só, porque quando surge algum problema envolve a saúde pública e se alastrar, rapidamente, muitas pessoas serão prejudicadas. Por isso há que evitar certos comportamentos, de modo a evitar certas doenças.
Temos sentina. Se há necessidade de ter uma sentina 24horas aberto é informar a câmara municipal e vamos ver como poderemos fazer isso. Eu não garanto 24h, mas para ter maior parte de tempo pelo menos até a noite.

A câmara está sempre aberta para ouvir as pessoas, mas as pessoas têm que vir até nós, porque fazemos o que conseguimos, com todas as limitações. Se tivermos maior colaboração de pessoas o difícil fica fácil.

 

 

 

Anísia Campinha

 

 

 

 

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