RAIMUNDO LOPES: falta de transporte para São Nicolau é diretamente proporcional ao falhanço verificado na política de transporte

Escrito por Editor JSN . Publicado em Grande Entrevista

A crítica do presidente da assembleia municipal do Tarrafal surge ao analisar a ausência de transportes marítimos que deixou a ilha de São Nicolau em situação de isolamento durante cerca de dois meses. Raimundo Lopes advoga, no entanto, que a chegada do navio Inter-Ilhas é “importante” para São Nicolau



O presidente da assembleia municipal do Tarrafal é nosso convidado para a entrevista que se segue com a tónica no transporte. O mote para esta conversa é a chegada do navio Inter-ilhas que desde a sexta-feira da semana passada está a ligar as ilhas de São Nicolau e São Vicente, duas vezes por semana. Raimundo Lopes congratula-se com a chegada do navio e vai dizendo ser “importante” a entrada do navio nesta rota.

O nosso convidado analisa ainda o cenário de aumento das tarifas na TACV e considera estarmos perante algo “insólito” quando a própria autoridade aeronáutica nacional toma conhecimento das subidas através das agências de viagens e não pela TACV como recomendam as boas regras.



JSN - Como acolheu a notícia da chegada do navio Inter-Ilhas que semana passada começou a ligar São Vicente e São Nicolau?


Raimundo Lopes - Foi com agrado. As pessoas que já tiveram oportunidade de conhecer o navio consideram-no aconchegante, apesar dos seus quarenta e tal anos. Da nossa parte, fazemos votos que seja seguro porque cumprindo os requisitos de segurança, comodidade e pontualidade, decerto trará mais valia para a ilha de São Nicolau.

Está ciente de que esta ilha foi abandonada ou preterida quando se retirou o “Liberdadi” desta rota, ou concorda com os argumentos expendidos na ocasião de que a Brava era mais prioritária?

Acho que ao tomarem a decisão de retirar o Liberdadi do circuito São Nicolau, tentaram encontrar a forma mais fácil para “desenrascar” a situação que lhes surgiu no momento. Estávamos nas vésperas do 1.º de Maio e havia necessidade urgente de ter um navio a tempo inteiro no circuito Praia/Fogo e como a AMP reteve o Kriola que fazia esta linha, agravado ainda com a crise de navios que temos no país, a opção que tiveram foi desviar o Liberdadi para esta rota e é claro com esta política de “desenrasca”, quem paga é São Nicolau e a ilha fica numa situação de isolamento intermitente.

 

O Inter-Ilhas tanto quanto se sabe, vai estar a ligar São Nicolau e São Vicente duas vezes por semana: estas duas ligações são suficientes?


Já o facto deste circuito estar coberto é importante, quanto ao número de viagens semanais, acho que numa fase inicial se justifica estas duas ligações, embora creio que a curto prazo, por exemplo no Verão ou épocas especiais como carnaval, festas de municípios, festas de romarias, período de férias escolares haverá necessidade de aumentar o número de viagens por semana.

 

As autoridades, ao que se nota, não se preocuparam com o facto de São Nicolau ficar sem ligações regulares durante algum tempo. Como analisa esta situação?


Não acredito, aliás nem dá para acreditar que as autoridades nacionais não se preocupam com o isolamento das suas populações. O que passa, a meu ver, é que muitas das medidas são tomadas avulsas para resolverem as situações do momento. Portanto, essas medidas avulsas são causas para os problemas graves que surgirão depois, como foi o caso do isolamento verificado no mês de abril/maio passado.

A seu ver falta vontade política para resolver, em definitivo, esta questão de transportes com São Nicolau?


Não falaria de falta de vontade política, porque o problema de falta de transporte para São Nicolau é diretamente proporcional ao falhanço verificado na política de transporte implementado no país nos últimos quinze anos. Aliás as autoridades nacionais indiretamente já assumiram o falhanço no setor dos transportes, particularmente o marítimo, apesar de sempre atribuírem culpas a quem há 15 anos esta fora do poder.

 

Nos últimos dias tem-se falado na possibilidade de a TACV aumentar os custos de passagens (no caso SN/PR são cerca de 24 mil $) e reduzir para 15 ao invés de 20 kgs, o peso nas bagagens de porão. A confirmar esta medida como a analisa?


Em relação à decisão da TACV, é algo insólito. Primeiro, não se compreende como é que uma companhia aérea altera os preços dos bilhetes e a Agência de Aviação Civil, a entidade reguladora, toma conhecimento através das agências de viagens porque estão online no sistema GALYLEO, aliás somente no dia seguinte em que os preços entraram em vigor é que comunicaram a AAC, portanto não é normal. Pelo que temos acompanhado já foram notificados pela AAC mas ainda continuam com a mesma tarifa de preços. Portanto sendo a medida ilegal e sem o consentimento da AAC, vão ter como é lógico de reembolsar o diferencial aos passageiros.


Em resumo, se os bilhetes já eram caros com este aumento torna-se insuportável, aliás as pessoas vão ter mais dificuldade em viajar para resolver questões várias ligadas com negócios, saúde, educação entre outros.


E mais uma vez os que mais sofrem com o aumento dos preços são as ilhas da chamada periferia, por conseguinte São Nicolau, em que as pessoas têm que se deslocar a São Vicente ou Praia para fazerem consultas, ir às embaixadas, etc., porque a administração está centralizada nos principais centros urbanos, neste caso na Praia. Só para dar um exemplo o preço do bilhete São Nicolau/Praia/São Nicolau é equivalente a dois salários mínimos praticados em Cabo Verde: se acrescentarmos transporte de carro e outros gastos torna-se impossível para uma grande parte das famílias cabo-verdianas saírem das suas ilhas de residência para tratarem de assuntos que na maioria das vezes são urgentes e inadiáveis.

 

Que mensagem deixa às gentes de São Nicolau e do Tarrafal sobre esta pertinente questão dos transportes.


O problema dos transportes tem sido o principal entrave para o desenvolvimento do município do Tarrafal e da ilha São Nicolau no geral, aliás na qualidade presidente da assembleia municipal tenho insistido muito nesta questão. Constitui entrave no comércio, porque os comerciantes têm dificuldades em fazer escoar os seus produtos e ao mesmo tempo repor o stock de produtos para a venda. Condiciona o turismo porque os visitantes quando vêm a Cabo Verde, desistem de São Nicolau por falta de transporte. Os emigrantes quando vêm ao país perdem em média dois dias em viagem para chegar a São Nicolau: se somarmos ida e volta já são quatro dias de férias perdidas. Provoca falta de stock de produtos tanto para agricultura como para pecuária. A nível social, provoca o aumento do desemprego porque se não há atividade económica, não há emprego. E uma consequência direta: a ilha ter perdido uma parte significativa da sua população ativa.


Resolvendo, definitivamente, os problemas de transporte de e para São Nicolau, estaremos perante uma ilha viável, com potencialidades em diversas áreas, nomeadamente, turismo, agricultura, pecuária, pesca e outras áreas transversais como o comércio.

 

 

Anísia Campinha

 

 

 

 

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