SITUAÇÃO DA MULHER: É preciso mudar mentalidades

. Publicado em Grande Entrevista

 

Na data em que se assinala o Dia Internacional Pela Eliminação da Violência Contra a Mulher, reproduzimos uma conversa solta com a vereadora Ivanilda Spencer responsável pelo pelouro da Condição Feminina na Câmara Municipal do Tarrafal de São Nicolau. Uma entrevista feita no passado sábado, quando líderes comunitários, técnicos sociais e autarcas se juntaram para falar sobre a Violência Baseada no Género


Ivanilda Spencer é uma mulher serena e muito calma, nunca levanta a voz mas fala como quem acredita naquilo que diz, embora aqui e ali, quando os temas são mais “pesados”, se note algum retraimento… a sociedade é muito fechada e preconceituosa e é preciso medir bem as palavras. Mas percebe-se haver nesta jovem bióloga - cujo olhar radiante expressa à primeira vista a incontida alegria de ir ser mãe pela primeira vez - ideias muito claras sobre o que pretende fazer, pesem embora os limitados recursos financeiros da autarquia.

Na vereação é única mulher, pelo que tem sobre si os olhares permanentes de uma comunidade onde as mulheres só muito recentemente começaram a dar os primeiros passos na política. Mas as condições em que trabalha também não favorecem muito a sua ação. A meio tempo na Câmara – sempre os incontornáveis problemas financeiros -, Ivanilda dá aulas na escola secundária local, como um pé na política e outro no ensino. Nestas condições não é fácil tornar mais eficaz a intervenção municipal.

JSN - O pano de fundo desta entrevista assenta na efeméride que se assinala a 25 de novembro, o Dia Internacional Pela Eliminação da Violência Contra a Mulher, mas podemos começar por esta primeira ação de sensibilização e esclarecimento que é promovida por este núcleo municipal.

Ivanilda Spencer - O Gabinete de Promoção Social…

… que dirige. Aliás, é extraordinário porque deve ser dos vereadores que tem mais pastas: Saneamento e Água, Ambiente, Ação Social e Condição Feminina, e Saúde. Consegue dar conta do recado?

Consigo.

Mas não está a tempo inteiro…

Não, só a tempo parcial. E dou aulas na Escola Secundária do Tarrafal.

Entrando na centralidade da conversa, não está prevista nenhuma ação para o dia que se assinala, embora a sessão de hoje, de alguma forma, antecipe a data.

Foi uma maneira de juntar duas coisas. Os dezasseis dias de ativismo contra a violência doméstica só começam na segunda-feira [hoje]. Então, surgiu a ideia de, para além de fazermos esta ação de sensibilização, organizarmos uma passeata, em princípio no dia 7 de dezembro.

Há uma série de ideias, que retirei da sessão de hoje e que se reportam à cultura machista que domina a nossa sociedade, nomeadamente, sobre a responsabilidade das mães na reprodução desses comportamentos que decorrem do tratamento diferenciado que se pratica na educação de meninas e de meninos. Ou seja, às meninas estão atribuídas, desde logo, determinadas tarefas e, por isso, é que brincam com bonecas; e aos meninos atribuídas outras e, por isso, brincam com carrinhos. E, como se sabe, o carro apresenta-se na sociedade machista e de consumo como uma espécie de prolongamento do órgão sexual masculino. “O meu carro é maior que o teu, o meu carro tem mais potência”… (risos) Acha que o problema também está aí?

Acho. Com a nova geração talvez isso esteja a mudar. É assim: se uma menina pegar num carro para brincar… “não, isso não, uma menina brinca com bonecas”, e se um rapaz fizer o inverso, a mãe nem tanto, mas o pai diz logo: “já te disse que um rapaz não brinca com bonecas, vou dar-te uma chapada”. E, depois, a menina quando acorda tem que fazer a cama e ajudar a sua mãe, mas o rapaz não, vai para a rua jogar à bola.

E não pode chorar, porque os meninos não choram…

É, quem chora é maricas.

O que, aliás, é uma ideia errada porque homem que não chora não é homem nem é nada.

Exatamente.

Mas, voltando a esta ação de sensibilização, fica-se com a ideia que este não é o público-alvo de iniciativas deste tipo. Ou seja, fiquei com a ideia de que as mulheres aqui presentes não terão problemas de violência baseada no género, percebe-se que são mulheres esclarecidas.

Mas a ideia foi mobilizar pessoas que conhecem a realidade da comunidade, dirigentes de associações que têm muito mais informações para poderem divulgar, mas também porque conhecem as pessoas nas suas zonas e as relações estabelecem-se com mais abertura. Podem funcionar como pontos focais de denúncia de situações de violência doméstica.

No Tarrafal – e até ao momento – registam-se em 2013 trinta e três casos de violência baseada nos género, dois deles em que as vítimas são homens. Numa sociedade fechada como esta, o surgimento destas denúncias parece indiciar um novo caminho, que a mentalidade está a mudar.

É por isso que quando dizemos que temos de mudar a nossa população, que temos de saber mudar, quer dizer que é preciso incutir nas mães a necessidade de passarem às suas filhas a mensagem: “não deixes que nenhum homem te bata”. Mas isso aplica-se nos dois sentidos. E temos que saber mudar as mentalidades, não correndo o risco de transformar uma sociedade machista numa feminista.

Mas também há aquela figura dos chamados “homens porreiros”, aqueles que dizem “eu ajudo a minha mulher lá em casa”, como se as tarefas domésticas fossem uma coisa intrinsecamente feminina.

Mas há homens que estão a mudar. Num casal, quando o homem e a mulher trabalham, já se começa a ver a partilha de tarefas, o fazerem tudo em harmonia para que nenhum deles fique mais cansado que o outro e possam ter mais momentos de intimidade. Ou seja, para sobrar tempo para o casal.

E esse relativo atraso de Cabo Verde, em matéria da repartição das tarefas domésticas tem a ver com as relações de trabalho, comparativamente à Europa onde as mulheres entraram muito mais cedo no mercado laboral. Mas aqui regista-se um outro fenómeno, as mulheres são muitas vezes o centro da economia familiar, principalmente nas grandes zonas urbanas, saem à rua a vender uns patéis, um bofe frito, uma fruta para dar de comer aos filhos, enquanto os homens se arrastam entre a casa e a tasca.

As mulheres buscam a sua autonomia financeira, principalmente quando não têm formação académica e só têm duas alternativas ou trabalham nas casas dos outros ou vão para a rua vender, até para não estarem dependentes do homem.

No seu pelouro, o que tem feito em matéria de defesa dos direitos e interesses das mulheres do Tarrafal? Sei que está em funções há pouco mais de um ano, mas para além desta ação o que foi já realizado?

Não conseguimos fazer muita coisa e isso tem a ver com a nossa situação financeira. Mas o que é que foi feito? Organizamos em maio o mês da mulher. Mas, para o ano, prevemos no plano de atividades municipal continuar estas ações contra a VBG e encontrar formas para que as mulheres se enquadrem no mercado de trabalho e, como o apoio da Rede de Mulheres Parlamentares, encontrar parcerias para que elas se integrem no mercado e tenham a sua autonomia financeira e para que tenham consciência dos seus deveres e direitos, para que possam contribuir para uma sociedade mais justa e equitativa.

Falou-se também aqui no poder, e percebe-se perfeitamente que o machismo e a violência doméstica têm muito a ver com essas relações de poder, de domínio, de supremacia económica. Relações que, de igual modo, estão na origem do fenómeno da prostituição que, aqui no Tarrafal, é cada vez mais visível, envolvendo até crianças e jovens. E é também visível homens de meia idade permanentemente acompanhados de meninas de 14 e 15 anos, particularmente estrangeiros que – deduzo – vem cá para isso. O que é que a Câmara pode fazer?

A primeira coisa que devemos fazer é mostrar às meninas que têm de definir as suas prioridades, investindo na educação, Juntamente com o pelouro da Educação e com as escolas teremos temos de trabalhar nesse sentido. Penso até que, no nosso caso, essas situações nem têm muito a ver com as famílias diretamente.

Mas tem a ver com as famílias neste sentido: eu não permitiria que a minha filha de 14 anos passasse a noite fora de casa, tem de haver regras…

Exatamente, mas também iremos trabalhar juntamente com os locais noturnos e com as autoridades, para não permitirem a entrada de menores.

Que, aliás, está na Lei que criminosamente ninguém cumpre.

Mas também tem a ver com comportamentos. Por exemplo, quando há uma festa de crianças, em vez de colocar música e fazer atividades para crianças mete-se música para adultos…

Daquela música de amor meloso e até duvidoso, digamos assim.

Temos de trabalhar com as associações locais, com o ICCA, as escolas, a polícia para intervir nessa área e levar as meninas a estabelecerem novas prioridades e a Lei tem de começar a punir quem se envolver com menores.

Ainda voltando à questão da violência baseada no género, está previsto o desdobramento deste tipo de ações, nomeadamente para o interior do concelho? Isto porque, apesar das denúncias serem feitas maioritariamente nos centros urbanos, sabe-se que é nos meios rurais que a violência baseada no género regista maior evidência.

É por isso que fizemos esta primeira ação envolvendo os líderes locais, para irmos recebendo informação e avaliarmos a melhor forma de agir. Até porque há mulheres que são vítimas, aceitam e não querem falar sobre o assunto. “A vida é minha, o marido e o corpo são meus, ninguém tem nada a ver com isso”… é preciso mudar esta mentalidade.

“Quanto mais me bates, mais gosto de ti”… também se usa aqui esta expressão?

Também (risos), mas contudo penso que isto acontece por causa da dependência financeira. Porque acham que se denunciarem a agressão ficam desamparadas.

E ficam mesmo. A situação é, aliás, complicada a outro nível. Uma mulher vítima de violência faz a denúncia, mas o criminoso continua à solta e isto é uma ilha, não há possibilidade de fuga. Como é que se protege a mulher?

Agora querem pôr o agressor a fazer trabalho comunitário.

Com acompanhamento psicológico?

Com tratamento psicológico não, porque não temos psicólogos.

Mas isso é fundamental…

É fundamental, mas não temos.

O trabalho a favor da comunidade sem esse acompanhamento psicológico não serve para nada. Pelo contrário, até atiça a revolta e a raiva do agressor contra a vítima.

Ainda há muito que fazer, muito para trabalhar. Eu acho que ainda sequer começamos.

A Lei da VBG é muito positiva e muito importante. Mas o que se percebe é que, se calhar, a polícia está a fazer um bom trabalho, mas para além da polícia não há mais nada e as vítimas ficam completamente abandonadas.

O problema de Cabo Verde é que as leis são muito bonitinhas no papel, mas na prática nada! Quem fala da VBG, fala do abuso sexual de menores… está na Lei, mas não se aplica. E temos que ter também um maior engajamento das forças policiais, o que nem sempre acontece. Mas já estão a começar a envolver-se e alguns agentes têm feito um bom trabalho.

E, para além destes problemas mais “cabeludos”, que passam pela violência doméstica, pela prostituição, quais são os problemas fundamentais da mulher tarrafalense?

Há também muitos problemas de alcoolismo e, muitas vezes, esses casos de VBG estão relacionados com isso. Mas temos também de resolver o problema da integração da mulher no mercado de trabalho. E, ainda na prostituição, o que reflete o problema são as jovens mães, a gravidez precoce. E este é um problema que tem de ser trabalhado porque, a cada dia, as meninas estão a engravidar mais cedo.

Mas isso não terá a ver com o facto de não estarem generalizadas ações de educação sexual eficazes?

O problema não é esse, o problema é que não querem saber. Quando se fazem sessões de sensibilização poucas pessoas aparecem.

Só um ingénuo ou um tolo é que vai pensar que uma adolescente de 14 ou 15 anos não tem relações sexuais com o seu namorado. E isso até é natural. Mas ter um bebé com essa idade, é mau para o bebé e é um “estorvo” para as mães, que precisam ainda de fazer o seu percurso, de crescerem e construírem-se pessoas bem estruturadas.

Há contracetivos disponíveis no Centro de Saúde, mas elas não vão lá buscar…

E por qual razão não vão ter com elas e entregar-lhes?

Com esta sociedade, aí vão pensar que estamos a incentivar a vida sexual das meninas. É muito complicado. Depois, o namorado não quer usar preservativo e ela também não gosta, não toma a pílula porque lhe faz enjoos e dores de cabeça.

Para finalizar e voltando ao princípio, no que tem a ver com aqueles estereótipos e com o machismo. Esta situação de menoridade da mulher na sociedade não decorrerá, em boa parte, de séculos e séculos de massificação religiosa pelo lado negativo? E estou a pensar naquela imagem – de que curiosamente Jesus Cristo, ao que me parece, nunca falou – que tem a ver com o mito de Adão e Eva. Ou seja, a Eva, ser miserável e repugnante que, para além de ser feita de uma costela do Adão, é portadora da tentação demoníaca. Isto para dizer que esse preconceito propalado pela Igreja em relação à mulher terá contribuído e muito para a situação atual.

Pode até ser, de certa forma. Mas, hoje em dia, há um grande envolvimento das igrejas neste tipo de ações. O problema está mais centrado na própria sociedade. E é aí que temos de intervir

AAP

 

comments

Comentários (0)

Cancel or

Comentar


Código de segurança
Atualizar

Edição em papel

Brevemente disponível
para download em PDF
(Gratuito)