Nomeação do cardeal Arlindo traz um “novo alento” e “novo entusiasmo de fé” – frei António Fidalgo

Escrito por Editor JSN . Publicado em Grande Entrevista

O sacerdote capuchinho diz que o Papa agiu de “forma evangélica” ao escolher o bispo de Santiago para cardeal. Frei António Fidalgo nota que o Santo Padre reconhece com esta sua escolha “qualidades e capacidades”, em Dom Arlindo

 

 

O JSN registou as declarações do frei António Fidalgo à nomeação do primeiro cardeal cabo-verdiano, a partir dos Estados Unidos da América. O Frei Fidalgo que é vigário paroquial no Porto Novo, ilha de Santo Antão, e que no momento celebra os 40 anos de vida sacerdotal, congratula-se com o facto de o Sumo Pontífice ter apostado num homem da periferia da igreja para participar na “tomada de decisões” acerca daquilo que a todos diz respeito.
O antigo diretor do jornal “Terra Nova” e da “Rádio Nova”, advoga que o Papa “não quer fazer tudo sozinho”, daí apostar em novos colaboradores, incluindo as igrejas periféricas, como Cabo Verde. “Encontro-me fora do país, mas a notícia da nomeação chegou até mim bem cedo”, sublinhou dando conta do entusiamos com que a nomeação foi acolhida nos Estados Unidos.

Jornal de São Nicolau - O Santo Padre acaba de anunciar a criação de 20 novos cardeais, 15 deles eleitores. Pela primeira vez Cabo Verde tem um cardeal, na pessoa de Dom Arlindo Furtado. Como vê essa nomeação do bispo de Santiago?

Frei António Fidalgo - Como um ato normal no governo da igreja. O Papa precisa de colaboradores, não pode nem quer fazer tudo sozinho numa igreja cujas dimensões são planetárias. Para além do mais, o Papa deve tomar providências para que a escolha do seu sucessor seja feita por um número mais amplo e diferenciado possível de cardeais. Neste sentido, a sua iniciativa é de ordinária administração. A novidade está no facto de Cabo Verde ter sido, desta vez, contemplado. Isto sim, reveste-se de importância enorme para Cabo Verde e o seu povo.

Era previsível essa criação ou mais uma vez a igreja em Cabo Verde foi apanhada de surpresa?

Previsível não, na minha opinião. Mas era uma coisa naturalmente desejada. É sempre bom chamar alguém que está na periferia a participar na tomada de decisões acerca daquilo que a todos diz respeito.

O que muda agora, em Cabo Verde, tendo um cardeal?

De certa forma pode-se dizer que nada vai mudar, aliás Dom Arlindo vai continuar a ser o bispo de Santiago de Cabo Verde, como ele próprio já afirmou. O que esta nomeação vem trazer a Cabo Verde é um novo alento, novo entusiasmo de fé, novas motivações para a nossa igreja ser o que é e continuar a fazer mais e melhor.

Será que com a criação do cardeal Arlindo, não se abre caminho para a criação de um novo bispo para a diocese de Santiago ou o bispo poderá desempenhar as duas funções?

Em determinadas situações, isto pode levar à nomeação de um bispo auxiliar, dado que o cardeal, pelas funções que desempenha junto do Santo Padre, vai ter de ausentar-se mais vezes. Mas tudo leva a crer que, por enquanto, isso não irá acontecer.

Essa criação é, naturalmente, uma maior responsabilidade para a igreja em Cabo Verde. A nossa questão é: e se Dom Arlindo vier a assumir alguma função específica no Vaticano, depois do consistório, que obriga a sua residência em Roma, abre-se caminho para a sua sucessão na diocese de Santiago?

Se for chamado, após o empossamento, a residir em Roma, sim. Nesse caso, é indispensável um sucessor, uma vez que nenhum bispo governa a diocese estando fora do território, de forma permanente, e tendo  funções incompatíveis com aquelas que só podem ser desempenhadas estando a residir a residir no país.

Como acolheu a notícia desta criação cardinalícia?

Em mim causou uma agradável surpresa. Não é que não acreditasse que Cabo Verde pudesse ter um cardeal. Claro que pode. Mas não contava com isso neste momento. Daí a surpresa. Causou-me uma enorme alegria. Encontro-me fora do país, mas a notícia da nomeação chegou até mim bem cedo, tendo tido a honra e a alegria de a comunicar ontem nas duas missas que celebrei com nossos irmãos do país onde me encontro. E houve nos dois casos uma longa e fragorosa salva de palmas. 

Algumas vozes consideram que Dom Arlindo acaba por ser “promovido” e que Dom Paulino, bispo Emérito de Santiago, despromovido pelo Santo Padre. É bem isto ou esta leitura está errada ou não tem razão de ser.

Este pensamento não vem de Deus, vem do demónio que tudo faz para semear desconfiança e divisão na igreja. Rigorosamente falando, esta nomeação não é promoção, se a encararmos do ponto de vista do evangelho. Na igreja de Jesus, ninguém é nomeado para subir e ficar acima dos outros, mas para servir, no verdadeiro sentido do termo. Ser nomeado cardeal é assumir mais claramente a cruz do serviço e do amor aos irmãos. Deixemos Dom Paulino em paz, que ele nunca viveu nem vive na expetativa de “promoções e progressões” à maneira do mundo. Penso que a sua verdadeira expetativa foi e é a de ver de pé os que jazem prostrados no pó das injustiças humanas.

O Papa dá atenção às periferias da igreja católica, e como que “esquece” um pouco a Europa. Estamos mesmo perante um Papa renovador, inovador?

O Papa Francisco continua a surpreender. Agiu, porém, de forma evangélica. O evangelho escolhe os pequenos e os últimos. Nós somos um país pequeno ("dez gronzinhos de terra"), habitado por uma pequena porção de homens e mulheres. Mas diante de Deus não há pequenos e grandes. Ninguém é “pouco”. Todos têm grande valor. Agrada-me os critérios usados pelo Papa Francisco para a escolha dos novos cardeais.  É verdade que deve ter pesado o facto de Cabo Verde albergar a diocese mais antiga da África sub-sahariana, mas isso não basta. Deus escolhe os que nada são para confundir os que são, como diria São Paulo. É este espírito paulino que anima e orienta o Papa Francisco nas suas opções. Ele é o homem que estando hoje no centro, continua a privilegiar as periferias do mundo.

Antes de concluirmos esta conversa frei Fidalgo, o que mais deseja acrescentar.

Gostaria de felicitar o bispo Dom Arlindo. Se o Santo Padre o escolheu, é porque reconhece nele qualidades e capacidades. Os meus votos são para que o novo cardeal continue a ser generoso em colocar os dons que Deus lhe deu ao serviço da igreja católica, contribuindo para a fazer crescer e dilatar-se em todos os sentidos. Aos cardeais que tinha nomeado no ano passado o Papa dizia: “ A igreja precisa da vossa compaixão”. Que Dom Arlindo seja cada vez mais testemunha da compaixão que Cristo tem pelos famintos de pão, de justiça e de Deus.


Anísia Campinha

 

 

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