Dom Arlindo cardeal: bispo de Mindelo fala em “página nova” na história da Igreja em Cabo Verde

Escrito por Editor JSN . Publicado em Grande Entrevista

O bispo de Mindelo reagiu em entrevista ao JSN à nomeação do seu confrade de Santiago para cardeal, a ser criado no consistório de 14 de fevereiro, no Vaticano. Dom Ildo Fortes entende que estamos perante um “sinal da grande sensibilidade” do Papa Francisco à universalidade e diversidade da igreja

 

 

Erigida à condição de diocese em 31 de janeiro de 1533, com domínio administrativo nas ilhas do arquipélago, mais Guiné-Bissau e os territórios da África, desde o rio Gâmbia, no Senegal, até ao rio Santo André, perto do Cabo das Palmas, a diocese de Santiago Menor de Cabo Verde é, por isso, uma das mais antigas em África, e resulta do desmembramento da então arquidiocese do Funchal, Portugal. Uma diocese histórica, cuja festa se assinala a 3 de maio, dia do seu padroeiro, São Tiago Menor.

Em declarações ao JSN, Dom Ildo Fortes é categórico ao afirmar que com esta criação, muda “a imagem, o prestígio e o papel de Cabo Verde” no cenário da Igreja Universal. O prelado do Mindelo admite que todos foram apanhados de surpresa pelo Papa Francisco. Mais adiante, admite que pode-se vir a ser necessário um bispo auxiliar para Santiago caso o agora cardeal acumular muitas funções em Roma. Outra hipótese, é a substituição de Dom Arlindo, abrindo caminho para a criação de um novo bispo para Santiago, apenas possibilidades que o futuro poderá confirmar.

Jornal de São Nicolau - O Santo Padre acaba de anunciar a criação de 20 novos cardeais, 15 deles eleitores. Pela primeira vez Cabo Verde tem um cardeal, na pessoa de Dom Arlindo Furtado. Como vê essa nomeação do bispo de Santiago?

​Dom Ildo - É com muita alegria que vemos Dom Arlindo, bispo de Santiago, primeiro bispo da diocese de Mindelo e muito querido nesta Igreja, a ser contado entre os novos cardeais. É um sinal da grande sensibilidade do papa Francisco à universalidade e diversidade da Igreja. É um reconhecimento não só da pessoa em questão, mas também da diocese de Santiago, a mais antiga igreja da África ao sul do Sahara.

Era previsível essa criação ou mais uma vez a igreja em Cabo Verde foi apanhada de surpresa?
Creio que foi uma grande surpresa para todos nós, inclusive para o próprio.

O que muda agora, em Cabo Verde, tendo um cardeal?
Muda a imagem, o prestígio e o papel de Cabo Verde no cenário da Igreja Universal, pois um dos cardeais é cabo-verdiano. Mas em termos eclesiais não muda nada de substancial. As funções de cardeais referem-se a Roma diretamente e não às igrejas locais.


Será que com a criação do cardeal Arlindo, não se abre caminho para a criação de um novo bispo para a diocese de Santiago ou o bispo poderá desempenhar as duas funções?
Muitos outros cardeias, como é o caso de Dakar, Lisboa, Rio de Janeiro, exercem as duas funções em simultâneo. Dada a nossa realidade insular, e tendo em conta que os cardeais têm de se fazer presente algumas vezes em Roma, quando o Papa os solicita ou quando algum dicastério da cúria romana a qual pertencem, o exijam, é provável ou compreensível que possa ser pedido um bispo auxiliar para a diocese de Santiago.

Essa criação é, naturalmente, uma maior responsabilidade para a igreja em Cabo Verde. A nossa questão é: e se Dom Arlindo vier a assumir alguma função específica no Vaticano, depois do consistório, que obrigue a sua residência em Roma, abre-se caminho para a sua sucessão na diocese de Santiago?
Se alguma função lhe for atribuída de forma que obrigue a sua permanência em Roma, obviamente terá de haver um outro bispo para Santiago.

Como acolheu a notícia desta criação cardinalícia?
Com muita alegria, gratidão e feliz admiração perante uma página nova que se abre na história da Igreja em Cabo Verde.


Algumas vozes consideram que Dom Arlindo acaba por ser “promovido” e que Dom Paulino, bispo Emérito de Santiago, “despromovido” pelo Santo Padre. É bem isto ou esta leitura está errada ou não tem razão de ser…
O pensamento e o sentir da Igreja é outro, uma coisa não tem nada a ver com a outra.

O Papa dá atenção às periferias da igreja católica, e como que “esquece” um pouco a Europa. Estamos mesmo perante um Papa renovador, inovador?

Obviamente. Com o Papa Francisco poderíamos dizer que o centro da atenção e o eixo da Igreja deixou de ser a Europa.

Antes de concluirmos esta breve conversa, o que mais deseja acrescentar senhor Bispo.
A Igreja em Cabo Verde vive um momento de grande alegria e gratidão por esta nomeação. A diocese de Mindelo felicita de coração o Senhor Dom Arlindo, que foi o seu primeiro bispo, e a diocese irmã de Santiago. Que este gesto se traduza em maiores bênçãos para a nossa igreja e para a Glória de Deus! Ao mesmo tempo, agradecemos ao Papa Francisco, que conhece e ama o povo de Cabo Verde, pela confiança depositada neste prelado, filho de Cabo Verde, ao contempla-lo com esta nomeação.
Os nossos votos e a nossa oração, vão no sentido de pedir a Deus para que o ministério dos novos cardeais ao serviço da Igreja Universal, seja muito fecundo e contribua amplamente para a desejada renovação da vida da igreja, que o Papa Francisco tanto protagoniza e se tem empenhado com muito zelo profético e apostólico.

 

Anísia Campinha

 

 

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