MÁRIO LÚCIO SOUSA: “O que nós queremos é não impor absolutamente nada, não mandar diretrizes”

. Publicado em Grande Entrevista

 

No baixar do pano do Fórum Cultural Nacional, o ministro da Cultura falou com o Jornal de São Nicolau e mostrou-se satisfeito com o balanço do evento. De qualquer modo, muito há ainda por fazer e o próprio figurino da iniciativa vai depender da dinâmica da discussão que terá de continuar. E, neste aspeto, o fórum será o que autarcas e agentes culturais quiserem que seja


No rescaldo do III Fórum Cultural Nacional estivemos à conversa com Mário Lúcio Sousa, no Tarrafal de São Nicolau. E o ministro da Cultura revelou-se como sempre foi: claro, frontal e falando olhos nos olhos. A última vez que lhe fiz uma entrevista foi em 2010, antes ainda das legislativas e do anúncio público de que seria candidato a deputado.

Três anos depois, o Mário Lúcio-artista não se diluiu nas conveniências políticas e no formalismo do Mário Lúcio-ministro, mas percebe-se – como sempre o disse – que a sua passagem pela “política ativa” é uma coisa datada, porque o artista não está adormecido, está a penas fazendo a faxina de que o encarregaram: cuidar da loiça da Cultura. E, grosso modo, tem tratado bem da tarefa. Pelo menos – críticas pontuais à parte – é essa avaliação que fazem agentes culturais e autarcas. O homem de diálogo e muito ligado à espiritualidade e meditação não substituiu as sandálias pelos sapatos de marca, nem a indumentária branca e informal pela farda de governante.

Mais do que uma entrevista, foi uma conversa entre amigos.

Jornal de São Nicolau – Vamos começar pela chatíssima e recorrente pergunta que é: qual o balanço que faz deste fórum?

Mário Lúcio Sousa – Todos estão contentes pelos temas discutidos, pelas medidas e recomendações, pelas ações de eficácia que foram tomadas para irmos para além de sermos mais um fórum, e o balanço geral dos participantes é o de que estamos a trilhar um bom caminho para haver diálogos, haver discussões, haver melhorias. Portanto, os objetivos traçados foram completamente cumpridos.

Há quem defenda - nomeadamente, autarcas - que este evento se deve descentralizar por outras ilhas. Isto é, faz sentido que o fórum seja realizado sempre em São Nicolau? Ainda para mais numa ilha onde, comparativamente com outras, o Carnaval tem uma importância relativa menor.

Para nós não há importância menor, cada um tem o que tem. E, às vezes, é preciso levar o que temos lá onde não há. Por isso é importante descentralizar, mas também achamos bem que haja duas visões sobre a mesma matéria, isso é muito bom porque assim vamos discutir nos próximos anos, nada é dado como fechado. A nossa proposta inicial, desde 2011, é a de que cada ilha deve ter um evento turístico chamariz. Porquê? Para ir ganhando experiência, ir ganhando organização e ir promovendo a marca para atrair turistas para o local. E isso está a dar um bom resultado. Porque na rotatividade começamos sempre do zero. Se cada ilha tiver o seu evento… por exemplo, São Vicente tem o Fórum Nacional de Artesanato, a Brava tem o Dia Nacional da Cultura, São Nicolau tem o fórum do Carnaval. A Praia tem a Feira da Palavra, o Atlantic Music Expo é na Praia mas vai ser também em São Vicente, e temos a capital cabo-verdiana da cultura que vai circular. Mas, mesmo assim, eu irei ao encontro dos autarcas – temos um excelente relacionamento com a Associação Nacional dos Municípios – e se os autarcas acharem que os eventos devem ser rotativos, nós faremos todos os eventos rotativos.

Este evento vai continuar a chamar-se Fórum Cultural Nacional ou vai ter uma denominação mais associada ao Carnaval?

Estamos em processo de discussão porque não queremos alterar a marca de um dia para o outro. Mas o evento passou para o Carnaval por uma fluidez própria. Antes foi genérico, no segundo escolhemos um tema e o tema pegou. E vimos que não havia um espaço para o diálogo sobre o Carnaval, e o Carnaval é tão importante, faz-se em todas as ilhas. A música tem, o teatro tem, a literatura tem, agora vamos criar o das artes plásticas, o do cinema… é preciso criar espaços próprios para as pessoas conversarem. Então, criamos este espaço para o Carnaval.

Até pode vir a chamar-se “Carnavaleando”, acho que é um nome fantástico.

Pode perfeitamente. O que nós queremos é não impor absolutamente nada, não mandar diretrizes. Chegar a um fórum como este, discutir com toda a gente – “o que é que vocês acham?” – e o que for adotado a gente está lá é para apoiar.

Agora vou-lhe colocar uma questão que, aparentemente, pode parecer maldosa na última parte, mas não é de todo. Tem a ver com isto: já falamos do balanço deste fórum e gostaria que fizesse um breve balanço da sua atividade à frente do Ministério da Cultura. Isto porque – e eu não estive na abertura do fórum – me transmitiram a ideia de que o ministro Mário Lúcio estaria de partida. As pessoas podem-se ter enganado na sua avaliação, mas hoje, no discurso aqui no Tarrafal – e é evidente que pode haver outra interpretação -, disse que um dia iria regressar ao mundo artístico de onde veio. Isso pode ser entendido como uma visão futura e óbvia: ninguém se mantém como ministro toda a vida. Mas não é uma coisa datada, não está a sentir que o Mário Lúcio-artista tem alguns problemas de relacionamento com o Mário Lúcio-ministro? Ou seja, a loucura da arte, a desbragada liberdade da arte, não se sente contida, aprisionada no formalismo do cargo de ministro?

Nesse aspeto eu me sinto dentro do Governo como vim: tarde. Os meus colegas todos são muito meus amigos, muito solidários comigo e o Primeiro-ministro põe-me completamente à vontade. Já viajamos juntos para meio mundo e eu vou aos mais altos encontros mundiais de sandálias, junto do Primeiro-ministro – muito mais elegante [risos] – e ele respeita absolutamente aquilo que sou. Aí sinto-me completamente à vontade. A mensagem que eu passo é a de que se fosse um homem da vida política estaria agora a preparar-me para outros voos, mas a mensagem que passo à comunidade artística é a de que eu vim prestar um serviço, mas eu pertenço àquela comunidade. E que, por isso, devemos manter uma grande união para não nos magoarmos, porque eu sou daquela comunidade e não quero sentir mágoas da minha comunidade. E amanhã pode ser um deles, ir-se buscar à comunidade artística um ministro.

Aliás, tem acontecido em várias partes do mundo…

Claro, em vários países. E, por ter esse conhecimento de causa, vimos que dá alguma ajuda. Aprendi, desde criança, a colocar-me ao serviço do outro, tenho uma grande simpatia pelo ser humano, sou feliz por ver o outro e não vejo mácula, absolutamente nada, e isso é uma coisa boa. O que estou a fazer neste momento é de corpo e alma, cancelei todos os meus concertos, as minhas editoras andaram a pedir livros, o segundo devia ser entregue logo a seguir ao Novíssimo Testamento… - não tenho tempo! Agora, deram-me esta loiça para eu cuidar e vou cuidar bem desta loiça. Mas também sabem que a loiça é temporal, chegará o momento que eu direi “tomem a vossa loiça, que já dei a minha contribuição”. E é nessa perspetiva de aproveitarmos ao máximo essa sinergia que existe, porque não estou lá para fazer uma carreira política. Por isso é que peço à comunidade que se envolva porque este é o momento para criarmos uma família cultural para gerir a cultura. Falei muito disso com os senhores vereadores também. E daí a minha forma de gestão que é trabalhar com os municípios, com os vereadores. Não posso ter a tentação de centralizar porque não é o meu feitio.

Mas o artista Mário Lúcio nunca teve uma daquelas acaloradas discussões com o Mário Lúcio-ministro?

Não, e não porquê? É evidente que todo o homem é dois homens em si próprio.

E, às vezes, três ou mais, mas ser dois é o mais conveniente…

[risos] …no mínimo dois. Porque nos fiscalizamos, como somos prudentes, enfim. E há, também, a quebra de rotina. Mas a minha felicidade é que, quando entrei no Governo, já tinha muitos anos de meditação. E o que ensina? Você, simplesmente, tem que se concentrar no que faz e não ter desejos para além disso. Não tenho tentações! E é controlado, porque no dia em que eu sentir a tentação de voltar para o palco, volto e não há nada que me impeça. No início tive saudades, mas depois disse: “Mário Lúcio, calma, você aceitou fazer isso, faz. E fechei o meu estúdio, a minha biblioteca… Agora estou a fazer isto e tenho que ler muito, trabalhar muito, preparar os documentos para o Conselho de Ministros, trabalhar as Leis, viajar, visitar as ilhas, estar em contacto com os agentes culturais. De modo que acho que a minha mente absorveu isso e não tenho tido conflitos internos. E, também, há uma coisa boa: aproveito todos os lugares onde vou para tocar com os meus amigos, trazem-me um violão e isso tem-me ajudado muito… os meus amigos poetas convidam-me…

Uma última questão, mesmo para terminar. Parece-me – e vai haver sempre alguém a dizer que os jornalistas não devem ter opinião -, tendo em conta outras experiências e outros ministros, que este ministério e este ministro assinalaram um tempo novo, desde logo em termos de relacionamento com os municípios. E isso é assumido pelos próprios autarcas. Ou seja, aquela velha dicotomia tambarina-ventoinha [risos] deixou de se acentuar tanto. E o ministério tem um universo de intervenções… nos campos da música, nas artes cénicas, no livro, no cinema e noutros domínios… e a questão que coloco – até porque estas atividades são implementadas para além delas próprias, mas também porque podem ser oportunidades de negócio para o Pais - tem a ver com um tipo de Turismo que está muito sistematizado em Cabo Verde: o Turismo de massas, digamos assim. E faria todo o sentido – não só no plano da Cultura, e da música em particular, mas também na agricultura e nas pescas – que se colocasse aos operadores, como condição para se instalarem, a contratação de artistas cabo-verdianos. E isso não está a acontecer.

Concordo consigo. Logo no início, quando entrei para o Governo, visitei todos os municípios e uma das componentes teve a ver com a necessidade de se criarem valores que pudessem ofertar ao Turismo. E essa é uma preocupação nossa. Mas a abordagem tem de ser diferente porque as coisas são complexas. Nós temos vários destinos competitivos e se, aqui, impusermos alguma obrigação à cabeça, perdemos competitividade. Então, a minha estratégia foi criar a rede nacional da distribuição. A minha equipa já esteve nos encontros do Turismo, no Sal, estamos em contacto com todos os operadores, temos o apoio da Câmara do Turismo para eles nos ajudarem a entrar nos hotéis. Então, entramos com uma casinha certificada e lá vende-se vinho do Fogo, artesanato, CD’s, DVD’s… e de lá sai um artista todas as noites.

É uma forma de ir penetrando aos poucos, é trabalho de formiguinha…

Exato. Deve ser por aqui: nós temos esta oferta, você aceita? Mas concordo consigo, a Cultura tem de se constituir como Turismo alternativo.

AAP

 

comments

Comentários (0)

Cancel or

Comentar


Código de segurança
Atualizar

Edição em papel

Brevemente disponível
para download em PDF
(Gratuito)