RACIONALISMO CRISTÃO: Uma conduta de vida e de eterna aprendizagem para a fraternidade universal

. Publicado em Grande Entrevista

 

Na sua passagem por São Nicolau, o nosso jornal esteve à conversa com Gilberto Silva, o presidente internacional do Racionalismo Cristão. Uma conversa muito interessante que aqui registamos e que dá a conhecer uma filosofia de vida com cada vez mais seguidores em Cabo Verde


O brasileiro Gilberto Silva é uma figura simples e um homem simpático, de grande sabedoria. E, na sua humildade tão intrínseca, vai viajando nas ideia com uma voz calma e um brilho no olhar que diz tudo sobre a profundidade de suas convicções.

O Racionalismo é uma boa cartilha de conduta para a vida das pessoas comuns e, ao contrário de outras filosofias, incita-nos a refletir sobre as coisas, num caminho longo para alcançar uma “inteligência superior”. Não é dogmático, não culpabiliza e é um instigador do que de melhor existe na nossas natureza tão corpórea e dispensável se comparada com valores mais altos.

Na conversa que mantivemos num restaurante do Tarrafal, nenhum momento levantou a voz, fez um gesto brusco ou acusou seja quem for: pessoas, religiões, convicções alheias. O Racionalismo Cristão parece ser a síntese do património de coisas boas que encerram as várias filosofias e religiões. Como se diz no início da conversa, é uma espécie de “caderno de encargos” para uma vida melhor.

Jornal de São Nicolau - Peço-lhe desculpa, mas em matéria de Racionalismo Cristão sou quase um analfabeto funcional. De qualquer modo, há algumas ideias que retive de leituras cruzadas que permitem perceber duas coisas – e corrija-me se estou enganado: o Racionalismo não é uma religião; antes é uma espécie de “caderno de encargos” para uma outra vida, mais harmoniosa, numa relação – e estou a citá-lo – de fraternidade entre as pessoas. Mas o Racionalismo parece também uma outra coisa: é uma cartilha que arvora as grandes causas da Humanidade, mas também as grandes ideias republicanas, a fraternidade, a liberdade…

Gilberto Silva - … a solidariedade.

E a solidariedade. É isso?

É bem isso mesmo. O Racionalismo Cristão é uma filosofia espritualista… logo, ela não tem um cunho dogmático, absolutamente nada místico, embora na definição da palavra religião se formos à procura da raíz da palavra, nós vamos encontrar “religare”, e quem se religa se liga a alguma coisa que acredita ser superior, que acredita ser bom. Então nós, racionalistas cristãos, acreditamos primeiro na reencarnação e, através da reencarnação, fazemos a nossa evolução espiritual em múltiplas etapas. Por tal é que, a nosso ver, isso explica as nossas diferenças, os nossos pontos de vista… enfim, o que nós chamamos o grau de evolução espiritual. Cada um possui um grau de evolução espiritual consoante o momento que está vivenciando de sua etapa evolutiva, ou seja, de uma encarnação.

E, portanto, as reencarnações – e utilizando uma linguagem académica – são fazes que correspondem à entrada do caloiro na universidade, à sua licenciatura, ao mestrado, ao doutoramento e por aí fora. Ou seja – segundo defende -, em cada reencarnação as pessoas tendem a tornar-se seres humanos melhores, vão corrigindo.

Sim, é essa a ideia. Se nós pudéssemos comparar o planeta Terra a uma escola – que no Racionalismo Cristão chamamos de Mundo-Escola -, poderemos comparar cada ano letivo, vai-se graduando, vai aprendendo. Nesse caminhar, também o espírito não só angaria bagagens, no sentido bom, fazendo o desenvolvimento dos seus atributos, como a inteligência, o raciocínio, a lógica, o bom uso do livre arbítrio, o bom uso de si mesmo, a força de vontade, o amor ao trabalho, a fraternidade, a solidariedade… mas, até por se tratar de um Mundo-Escola – é um mundo de erros e acertos -, o espírito acaba angariando nessa bagagem algumas notas não positivas, pelas quais tem de responder. Aí começam a entrar, então, as leis naturais. Nós nos firmamos muito e procuramos encontrar as leis naturais…

Por isso são racionalistas.

Exatamente. Leis que nós entedemos regerem o Universo. Entre essas leis – uma que nós estamos sempre arguindo para explicar as situações pelas quais os seres humanos passam -, há a lei de causa e efeito…

Que os cientistas também chamam luta de contrários.

Sim. existem outras denominações, como lei do retorno… A própria ideia do karma – lá atrás, na antiguidade, na Índia -, significa exatamente isso na nossa visão espiritualista. Então o espírito, nesse caminhar, vai angariando conhecimento, vai-se desenvolvendo até que chega a um ponto que ele não precisa mais aqui vir, não há atrativo neste mundo físico para ele, ao mesmo tempo não há lições que ele possa aqui aprender.

Então, passa a viver permanentemente no mundo da espiritualidade…

Sim. E o espírito, não mais precisando de encarnar, ele continua trabalhando no universo, continua trabalhando em alguma dimensão espiritual. E, como para nós o pensamento é uma força, uma vibração, o espírito onde quer que esteja ele vibra. E, ao vibrar – quanto mais for a sua força, quanto mais for o seu conhecimento, quanto mais for a sua espiritualidade -, ele transmite a outros espíritos, encarnados ou não nos Mundos-Escolas, o seu conhecimento.

E esse fenómeno da reencarnação estará associado àquela circunstância de as pessoas irem a um sítio que nunca foram, não têm memória nenhuma de ter ido, e ficam com a sensação que já ali estiveram?

Isso pode ter duas explicações. Uma, muito pesquisada pela ciência atualmente como comprovações da reencarnação… existe um cientista muito conhecido, falecido em 2007, um cientista americano chamado Ian Stevenson, que fez muitas pesquisas nesse campo. Ele identificava uma criança que contava histórias passadas em várias partes do mundo, que não tinha relação com a vida dela naquele momento. A criança dizia: eu vivi em tal situação, eu fiz isto, eu fiz aquilo… E, então, o Ian anotava tudo aquilo que a criança dizia e, depois, ele ia a esses locais identificar aquela situação e ela existiu. Se aquele espírito realmente ali esteve, se as experiências que aquela criança contou, até o jeito como ela morreu, se correspondia à realidade. Ele catalogou inúmeros factos, inúmeras situações que comprovam esse fenómeno da reencarnação. Mas existe uma outra situação que é mais comum: quando nós dormimos – e quem precisa de descanso é o corpo físico – o espírito não precisa de descansar… mais, ele não fica ali ao lado do corpo físico, nós temos um corpo – que chamamos corpo fluídico – que é o nosso subconsciente, onde estão registadas todas as nossas históricas. E esse corpo fluídico sai com o espírito.

Falando numa linguagem informática, uma espécie de memória remota.

Memória remota, exatamente. Então o espírito sai com esse corpo fluídico e ele vai para qualquer parte, normalmente associado no sonho aos seus sentimentos, ao que você passou, vivenciou durante o dia. Mas é muito comum as pessoas dizerem “ai, eu sempre sonho com a mesma coisa”, outras não, cada dia têm um sonho. Nem sempre os sonhos correspondem às vivências de desdobramento, podem ser também registos, ou de outras vidas ou desta vida, ou mesmo pensamentos.

E os sonhos podem também ser premonitórios?

Raros, mas podem. Eu estou aqui por um sonho premonitório, caso contrário não estaria. Então, nessa situação, o espírito pode ir a determinados locais que, depois, quando ele lá estiver fisicamente, poderá se lembrar. E outra coisa: nós sempre antecipamos as nossas realizações físicas. Aliás, tudo o que existe, tudo o que acontece no mundo físico é planeado no mundo astraal, no mundo espiritual. Por exemplo, eu não faria uma viagem destas a Cabo Verde sem antes a ter planeado.

É a primeira vez que vem a Cabo Verde?

Não, já viemos, esta é a quarta vez que estamos vindo. Viemos em 2006, 2010, 2011, por altura do centésimo aniversário do Racionalismo Cristão.

Pois, que foi fundado em 2010 por Luís de Matos e Luís Tomás.

Exato. E 2011, quando fez 100 anos da chegada do Racionalismo Cristão a Cabo Verde. E, nessa ocasião, houve o compromisso – até por sugestão do presidente de cá – que nós voltássemos a cada dois anos. E uma das ilhas que eu ainda não conhecia – e tinha-me comprometido a visitar – é São Nicolau. E porquê estou a dizer isto? Porque eu imaginava que esta ilha fosse assim mesmo: verde, montanhosa, bonita… e, quem sabe, talvez possa ter sonhado – não me lembro – e  ter vindo aqui. Então, quando me deparo com uma situação, após um sonho de desdobramento desses, é natural que a gente pense que esteve ali. Ou já estivemos mesmo em outras encarnações.

No conceito racionalista esta ideia do estádio superior de desenvolvimento, que é a espiritualidade, de que forma entra ou não entra a imagem que se tem de Deus? Há uma imagem de Deus associada a um ser todo poderoso, homnipresente e homnipotente. Ou, melhor ainda, se entra de facto alguma imagem de Deus, ou se entra um deus que não corresponde nada à imagem comum que se tem dele.

Nós temos uma visão bem diferente dessa visão antropomórfica de Deus. O Racionalismo Cristão entende que o Universo, na sua totalidade, é composto de força e matéria, princípio inteligente e matéria. Para nós são sinónimos: força, princípio inteligente, força criadora, inteligência universal, grande foco, são termos que, embora não expressem toda a grandiosidade – até para a nossa compreensão humana tão limitada -, do que possa ser isso… mas nós entendemos que não existe um ser…

…uma coisa fulanizada, o comandante do navio.

Não essa coisa antropomórfica para nós não existe. Agora, a força, a inteligência universal, está particularizada em todo o Universo. Nós somos uma parcela dele, somos uma parcela em desenvolvimento com os seus atributos latentes sendo desenvolvidos. A pedra – aliás, nós temos tanta pedra aqui, em Cabo Verde -, o que dá aquela união dos metais, nos minerais, nos componentes? Existe uma força de coesão ali. Essa força de coesão é a inteligência universal agindo através da matéria, seja ela densa, diáfana, fluídica, qualquer tipo de matéria. Então, no nosso conceito, a força vai passando pelos campos materiais, para o mineral, depois para o vegetal, depois para o animal irracional, depois para o animal racional até chegar a um ponto em que já não precisa mais de encarnar, mas continua a comandar a matéria. Porquê? Porque ela tem uma matéria fluídica, quanto mais flui mais diáfana, e a união de todas essas forças do Universo compõe o nosso “deus”: a inteligência universal.

Percebe-se que sejam racionalistas, mas porquê cristãos? Por que se revêem na palavra do homem Jesus Cristo?

O nosso fundador [Luís de Matos] estudou muitas filosofias, foi lá desde Hermes Trismegisto, Sócrates, Platão, Buda, Krishna, Jesus, Descartes…

Então, era um profundo conhecedor da Filosofia e da Teologia. Mas diga-me , o Racionalismo, digamos que é a síntese de todos esses percursos de todas essas experiências que Luís de Matos foi tendo? E porquê fixar-se no cristianismo. Por exemplo, podiam chamar-se Racionalistas Budistas ou outra coisa qualquer…

Ou universalistas.

Ou universalistas, católicos - neste caso -, pois quer dizer o mesmo.

Quando o Luís de Matos, estudanto todas essas correntes filosóficas, ele se encantou  - não com aquele Jesussofredor, que deu a sua vida, o seu sangue – com os conhecimentos e a filosofia do cristianismo. Ao estudar o cristianismo, ele viu que era a forma mais rápida de se chegar à fraternidade, somando a racionalidade, somando as outras filosofias até cartesianas. E percebeu que se conseguisse dentro de uma prática, mas principalmente dentro de um ideário filosófico, unir estas duas correntes, com certeza traria para a Humanidade um conhecimento e uma prática que seria muito mais útil e rápida de nós chegarmos à tão sonhada fraternidade, aliás, sonhada por Cristo – e se formos estudar a base filosófica do cristianismo e não a prática. O Luís de Matos enchergou também isso, as distorções, os interesses que se seguiram. Mas nós não estamos jamais para criticar quem quer que seja, mas sim fazer com que essa ideia de Cristo… inclusive, Jesus o Cristo ele tinha pelos relatos boca a boca e analisando o conhecimento que temos hoje da ciência espiritualista, podemos dizer que Jesus tinha vidência, ajudava a curar as pessoas com a sua força espiritual, mas dentro de princípios naturais, nada de milagres.

Aliás, o reiki explica alguns desses milagres…

Sim, sim, claro, é uma outra vertente de muito significado. Foi vendo tudo isso que Luís de Matos escreveu um livro, que nunca quis que nós disséssemos que foi ele – sempre dizia: “fui intuído pelo astral superior, pelos espíritos superiores, pertence a eles, não a mim, eu só fui um veículo” -, mas a gente reconhece que foi ele que escreveu em 1914 “Espiritismo racional e ciêntífico cristão”, vem daí o nome do Racionalismo Cristão. O que antes se praticava, de forma não disciplinada, objetiva, por curiosidade…

Portanto, não há nenhuma relação conceptual com os espíritas, por exemplo, com os seguidores da corrente de Allan Kardec?

Não. O Luís de Matos, num discurso de 1912, ele diz assim: Muitos pensam que me inspirei em Allan Kardec, não, eu me inspirei em Claude Bernard e Louis Bikner”. E, se formos analisar, o Bernard era materialista, era um médico fisiologista francês, inclusive ele escreveu uma obra – “Força Matéria” – que é muito materialista, mas ele admitia que existe uma força a incitar a matéria e que sem essa força a matéria é inanimada. O Louis Bikner era um filósofo alemão, médico também. E o Luís de Matos se inspirou principalmente nesses dois grandes filósofos e, evidentemente, em todas essas vertentes que já falamos.

Para os racionalistas, não existe esse Deus fulanizado – e muito menos de barbas e com ar muito severo -, revêem-se nessa imagem de Cristo, justificam os milagres, ou seja, decorrentes dessa força superior. E, portanto, também não se reveem nessa ideia do pecado.

Não existem castigos, tão-pouco pecados…

As pessoas é que se castigam a si próprias.

Exatamente.

Talvez reagindo à sua vinda, não sei, o Bispo do Mindelo disse, referindo-se aos racionalistas, que as “suas doutrinas e as suas práticas são muito contrárias àquilo que a Bíblia e o cristianismo nos ensinaram”, atribuiu ao Racionalismo Cristão práticas de adivinhação e evocação dos mortos e que “tudo isso encerra uma vontade de dominaar o tempo, a História e, finalmente, os homens, ao mesmo tempo que é um desejo de conluio com os poderes ocultos”. Que comentário isto lhe merece?

Não, preferimos não comentar, porque da mesma maneira que eu não conheço a instituição desse senhor ao ponto de poder comentar ou fazer juízos de valor, percebo que ele também não conhece o Racionalismo Cristão. Então, respeitosaamente, convidá-lo-ia a conhecer o Racionalismo Cristão e até estaria disposto a dialogarmos sobre isso. Até porque o Racionalismo Cristão em Cabo Verde muito deve, na sua expansão, ao Cónego Teixeira, que era uma pessoa do catolicismo e se encantou com o espiritualismo, com a prática do Racionalismo Cristão e disseminou o Racionalismo aqui em Cabo Verde.

Parece extraordinário que não sendo uma religião, não prometendo – como fazem algumas igrejas cristãs – a cura de males demoníacos ou apresente a garantia de uma vida eterna no céu, ao lado de Deus, o Racionalismo Cristão assinale um tão grande crescimento em Cabo Verde. Como explica isso?

Por não prometer nada e falarmos a verdade, de que tudo depende da pessoa, da sua força de vontade, da sua disciplina, do seu bem-querer, é que o Racionalismo Cristão se expande, porque as pessoas, quando têm essa visão real da vida, elas veem resultados, quando aplicam esses conhecimentos. E o Racionalismo Cristão, para resumir, ele nos diz o seguinte: tenha conduta.

AAP

 

comments

Comentários (0)

Cancel or

Comentar


Código de segurança
Atualizar

Edição em papel

Brevemente disponível
para download em PDF
(Gratuito)