MILTON PAIVA: “Desejo de mudança é maior que em 2011”

. Publicado em Grande Entrevista

Considerado um dos jovens mais promissores da sua geração, lança este mês “Construindo uma visão”, um livro que é um “caderno de aprendizagens” pelos caminhos da intervenção política e cidadã. Sem responsabilidades partidárias, Milton Paiva não se inibe de opinar sobre o momento político e considera que estão maduras as condições para uma mudança política no país em 2016. Mas alerta, contudo, para o descontentamento dos jovens com os partidos e os políticos


 

“Construindo uma visão”, uma coletânea de intervenções públicas do autor nos últimos anos, traça o percurso e a evolução de um jovem pelos caminhos da democracia caboverdiana, da intervenção partidária à cidadã, apresentando a visão do país de uma cidadão inconformado e empenhado enquanto agente da mudança.

Milton Paiva não se deixa arrastar pela provocação das questões colocadas, nem gosta de trilhar caminhos de facilidade, não segue por atalhos nem se enreda pelo secundário. Das suas palavras antevê-se a linha de coerência – concorde-se ou não com as suas opiniões – que vem pautando desde 2008, altura em que mergulhou por inteiro na atividade política. Primeiro dentro do seu partido – o MpD -, onde assumiu cargos de grande responsabilidade, até à sua atualidade de “paisano”, onde parece sentir-se como peixe em água.

Quanto ao futuro, considera estar tudo em aberto e não parece deslumbrado com a possibilidade de vir a assumir responsabilidades públicas, pese embora ser um dos mais promissores elementos da sua geração. A sua passagem pela política é uma aprendizagem e, acima de tudo, o que o fascina é essa eterna dinâmica da vida, estar integrado em projetos coletivos e em alforges de valores que lhe permitam contribuir para o desenvolvimento do país e ser um homem do seu tempo.

Consultor, advogado e secretário geral do Instituto Democracia e Desenvolvimento (IDD), Milton Paiva foi recentemente selecionado pelo Instituto Mandela para participar no MINDS’2014, que teve lugar em Kigali (capital do Ruanda), entre 21 e 22 de julho. Uma seleção que teve como critério a produção de trabalhos relevantes para o futuro do continente em matéria de Governação, Desenvolvimento Económico e Cultura.

O livro, autêntico “caderno de aprendizagens”, tem a chancela da Artemédia, e é apresentado a 23 de setembro na Livraria Pedro Cardoso, cidade da Praia.

Feita à distância – inevitabilidades arquipelágicas -, esta entrevista teria maior fulgor “olhos nos olhos”. Contudo, o universo de ideias não sai minorado pelas inconveniências do método e o jovem autor apresenta-se em toda a sua dimensão.

Navegador inconformado

Este “Construindo uma Visão” parece uma espécie de “diário de bordo” de um navegador por estas coisas da intervenção política e da cidadania. Um navegador, diga-se, não raras vezes solitário e inconformado com as inevitabilidades do “politicamente correto” e magoado com pequenas “traições”. É isso?

Antes de mais, começo por expressar o meu agradecimento por esta oportunidade de divulgação que o JSN está a dar a esse evento meu com a Artemédia editora. Tenho acompanhado de perto o crescimento do jornal e desejo-vos os maiores sucessos. Relativamente ao livro e ao que me pergunta, posso adiantar que não se trata de um diário, longe disso. Um diário de 6 anos de atividade não seria publicável, tanto por excesso de quantidade de ocorrências como por desinteresse de outras. Será mais uma pequena recolha de entre o que estava escrito, pois muitas das intervenções foram orais na rádio e na televisão, organizado com alguma sequência cronológica e precedido de uma introdução inédita de quem eu sou e como vim parar às atividades públicas, contado na primeira pessoa.

Se sou um navegador solitário e inconformado, diria que mais inconformado do que solitário. Aliás, uma das ambições do livro, como digo na introdução, é encurtar distâncias. E uma das distâncias é entre perceções de dentro e de fora sobre pessoas que conhecemos da vida pública. Quem me conhece sabe que sou uma pessoa, antes como agora, integrada, trabalho com grupos, pessoas e organizações diversas, partilho com amigos e colegas, e estou conetado com o que se passa. Penso que seria mais exato dizer que em muitos aspetos da vida da nossa sociedade e do mundo pode acontecer sentir-me momentaneamente em minorias, mas não na solidão. Se calhar, ainda não cheguei a esse ponto de evolução e de luz.

Finalmente, se estou magoado com pequenas traições, digo-lhe que não, pelo contrário. Verá que o livro não tem conteúdos negativos, nem muito menos acusações ou lamentações. Os conteúdos do livro são positivos, ideias ou intervenções para melhorarmos, mesmo os que forem considerados críticas à governação, a organizações ou políticas. Não encontrará uma única linha a falar mal de pessoas, apenas intervenções com posições diferentes. Nada é fácil, não ganhamos todas as lutas, todas as vezes, mas estou de bem com o que tento fazer na minha escala pequena como cidadão caboverdiano e africano.

Intervir na vida pública é uma aprendizagem

Aliás, o título transcreve um outro que deu capa ao manifesto político da sua candidatura à direção da Juventude para a Democracia (JpD), em 2008. Este “caderno de aprendizagens” – como ao livro se refere – sugere, ainda, algum desencanto da atividade política partidária. É por isso que, desde há uns tempos a esta parte, a sua intervenção se circunscreve ao exercício da cidadania fora do partido?

Ainda bem que me coloca essa questão, será oportunidade para desmistificar um bocado a questão para quem não me acompanha mais de perto. “Caderno de aprendizagens” é um subtítulo que procurei, e encontrei com a ajuda de um amigo, não para exprimir desencanto mas uma certa humildade na compreensão que tenho hoje do tempo e de como a história se processa. Entendo que na minha idade não devo simplesmente apresentar um livro que seria “A minha visão para Cabo Verde”. Seria pretensioso e impreparado. Daí que o “construindo” e a “aprendizagem” são realistas e justas. No fundo, estar a intervir na vida pública é um processo e uma aprendizagem, não se começa nem se acaba com as mesmas ideias e velocidade, mas existe um processo e um percurso.

Vivo num país onde as lideranças do Estado, do governo e das grandes empresas são protagonizadas ainda por atores da fundação do Estado e da democracia. Concordemos ou não, é onde estamos. A minha geração tem um vasto campo de possibilidades de intervenção tanto no setor público como mais ainda no privado. Temos um peso eleitoral maioritário e será inteligente sabermos negociar equilíbrios para que esse facto e as suas virtualidades se reflitam também na governança pública e privada do país.

Militância partidária não esgota a existência

Está desencantado com a intervenção partidária? É que as suas mais recentes intervenções parecem sugerir que defende haver mais vida para além dos partidos. Ou melhor, revê-se no ordenamento partidário caboverdiano e nessa dicotomia tambarina-ventoinha que domina o debate político?

Estou a gostar que me esteja a pôr essa questão do desencanto de forma insistente, porque será uma excelente ocasião de a desmistificar no meu caso particular. Sei bem que uma grande massa de pessoas hoje em dia, no país, no continente e no Mundo está descrente de tudo o que é política e até dos negócios privados. Eu até por defeito de formação não me enquadro (ainda?) nesse grupo.

Fui professor de Ciência Política e Direito Constitucional e toda a minha formação e ação é no sentido de ensinar as pessoas sobre as virtudes da política e governação e suas regras legais, e o que podem trazer de muito válido para a vida das pessoas e sociedades. Porém, outra coisa diferente é como eu entendo e levo a atividade política no meio disso tudo. Devo recorda-lhe que desde que regressei a Cabo Verde, em 2006, nunca exerci política como profissão. Andei estes anos todos a exercer profissões jurídicas, ensinando e fazendo consultoria. Ora, isso significa que o facto de fazer parte de um partido político, o MpD, não resume e nem esgota toda a minha existência, nem inspiração.

Vivo ligado também a universidades, empresas, organizações internacionais e da sociedade civil que me proporcionam perspetivas diversas sobre coisas distintas, inclusive sobre política e governação do país ou das empresas. Penso que não é uma negação intervir, também, fora do espaço partidário, mas um enriquecimento saudável e recomendável. Antes, em circunstâncias de campanha, intervim muito no espaço partidário, mas é um dos espaços, não tem de excluir os demais. Na minha opinião, o espaço que efetivamente deve inspirar a governação e a política é a sociedade e a vida real e não a vida dentro dos partidos.

Redesenhar o Estado

Se regressasse-mos a 2008, altura em que iniciou de forma mais evidente a sua vida política, teria seguido os mesmos caminhos ou faria tudo de novo?

Hoje penso que se não tivesse feito esse caminho teria de o fazer mais tarde e com atraso. Por isso, devo ter ganho tempo. Devo muito à minha participação ou passagem pela política o que conheço hoje de Cabo Verde. Essa aprendizagem acaba por reflectir-se e enriquecer uma série de outras dimensões da minha vida pessoal e profissional. Tem muitos custos e consequências também, mas isso quase tudo na vida.

O que falta a Cabo Verde para ser uma democracia avançada e um país de justiça, desenvolvimento e progresso social?

Olhe, aqui volto à linha da minha intervenção recente no programa “Conversa em dia” da TCV, sobre o tema “Cabo Verde visto por jovens”, para partilhar uma vez mais algumas linhas do que acho que devemos melhorar para subirmos degraus: sermos mais realizadores, ver nos nossos problemas grandes oportunidades de políticas e de negócios, quebrar a excessiva dependência do Estado e do governo, produzir informação fiável e independente (estatística, económica, de segurança, saúde, etc), desenvolver o setor privado como parceiro do Estado na satisfação das nossas necessidades coletivas, educar para o emprego e para a competição global, investir na integração regional e continental de Cabo Verde à nossa dimensão e como espaço de oportunidades, investir no quadri-linguismo do país (francês e inglês massificado), redesenho do Estado mais pequeno, simplificado e barato.

Eleições não se ganham automaticamente

Acredita numa mudança política a partir de 2016? Acha que o MpD está em condições de tornar ganhadora a sua mensagem ao eleitorado? Está disponível para assumir responsabilidades políticas, a concretizar-se a alternância de poder no país?

Penso que o desejo de mudança já era visível em 2011 e em 2016 será ainda maior. Isso é natural, principalmente quando se está num contexto de forte crise e dificuldades. As pessoas aspiram legitimamente a mudanças e a melhorias. Agora, não se ganham eleições automaticamente só por isso. Existem outros fatores que pesam nesse processo, como o desinteresse generalizado pela política e pelos partidos, o fator de descontentamento da juventude (maioria dos eleitores), a confiança nas pessoas e nas listas, o controlo do processo eleitoral e recenseamento feito e a própria dinâmica das campanhas. Penso que o MpD apresenta-se com um bom líder, Ulisses Correia e Silva, uma bolsa de pessoas capazes, jovens e experientes (incluir o back office que é sempre desconhecido), um diagnóstico claro do país e uma visão promissora para o futuro. É fazer bem o trabalho que será preciso.

Em relação à pergunta direta que me coloca sobre a minha disponibilidade, digo-lhe duas coisas. Uma, que sou uma pessoa decidida a participar ativamente do desenvolvimento de Cabo Verde, seja na governação pública seja na privada. São ambos espaços muito interessantes. Se reparar no meu livro, as intervenções e propostas que aí estão cobrem um período de 2008 a 2014, portanto independentemente das eleições internas do MpD e das do país. Não vejo razão para deixar de o fazer. Claro, sempre tendo em consideração o papel que tenho em cada momento. Sou um defensor de que as pessoas não devem tentar fazer os papéis que não têm em vez de fazer bem os que têm. Não sou do governo, nem sou atualmente dirigente destacado na oposição, daí que tento não exceder-me nesses territórios. Atuo noutras sedes e faço-o com intensidade.

AAP

 

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