DANIEL DOS SANTOS: Amílcar Cabral é um homem “com defeitos e virtudes, capaz de cometer erros e de fazer proezas”

. Publicado em Grande Entrevista

Desfazer mitos e alegorias, contextualizando o tempo e o percurso do fundador do PAIGC, é o objetivo de “Amílcar Cabral – Um outro olhar” – o livro dado à estampa pelo professor e investigador universitário, para quem os estudos até agora publicados sobre Cabral enformam uma forte carga ideológica e padecem de falta de míngua de distanciamento


 

Antigo jornalista, Daniel dos Santos lançou na última sexta-feira, 5 (nas fotos), “Amílcar Cabral – Um outro olhar”, uma obra de investigação que vinha preparando há vários anos e que tem por base “provas” documentais e testemunhais. Desfazer o mito e fazer conhecer o homem, com seus defeitos e virtudes, foi a linha seguida pelo professor e investigador universitário.

Factualizar o percurso do fundador do PAIGC perpassa por toda a obra, onde o autor procura contextualizar Cabral e compreender o seu trajeto pela história coletiva da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. Nesse sentido, em “Amílcar Cabral – Um outro olhar”, aquele que é visto como pai da independência dos dois países é retirado do “Olimpo” dos deuses e colocado na sua dimensão humana, tornando-o mais próximo dos demais.

Figura marcante dos nacionalismos guineense e caboverdiano, Cabral é apresentado como ideólogo do partido único e inspirador da ditadura que se afirmou em 5 de julho de 1975 e dominou Cabo Verde durante quinze anos. Segundo Daniel dos Santos, as suas ideias centrais não farão já sentido neste Estado de Direito democrático em que vivemos. E, ao contrário do que se supunha, 40 anos atrás, quem destruiu o PAIGC e o projeto de unidade Guiné-Cabo Verde não foram os inimigos de Amílcar Cabral, outrossim os seus próprios camaradas.

JSN - O essencial dos estudos e opúsculos publicados sobre o fundador do PAIGC ou são apologéticos ou detratores. Parece haver um défice de distanciamento. Pelo contrário, a ideologia substituiu-se à ciência na procura da “verdade histórica”. Mas, neste “Amílcar Cabral – Um outro olhar”, percebe-se a preocupação em contextualizar e factualizar o seu percurso. É isso?

Daniel dos Santos - Nunca quisemos procurar a verdade histórica, nem também a verdade científica quando iniciámos a redação deste livro. O que nos moveu foi simplesmente o desejo de contextualizar e factualizar o percurso de Amílcar Cabral. Tão-somente isso. Não o quisemos enegrecer, tão pouco o idolatrar. Apresentamo-lo como um homem mortal, com defeitos e virtudes, capaz de cometer erros e de fazer proezas. É esta a nossa visão, a de um investigador preocupado em descobrir, tanto quanto possível, coisas novas para depois as apresentar ao público, que as julgará. É de facto verdade que há um défice de distanciamento nos estudos sobre Amílcar Cabral. Isto chega para concluirmos consigo que a ideologia substituiu-se à Ciência nas investigações sobre este homem, nascido na Guiné, de pais caboverdianos.

Desfazer mitos e alegorias

Embora preveja que alguns “cabralistas” mais apressados possam lançar os demónios sobre o livro, perpassa da narrativa uma preocupação em humanizar Cabral, retirando-o do “olimpo” das figuras sagradas e colocando-o no terreno dos mortais, sem nunca pôr em causa a sua importância histórica. Amílcar fica, assim, mais próximo de nós. Foi essa a intenção?

Obviamente. A linha que orientou a investigação conduz-nos a ver Cabral como um homem. Não foi fácil fazê-lo em razão do mito que, em redor dele, o PAIGC/CV criou como estratégia de poder. Todos os partidos totalitários, como o foi o PAIGC, em muitos anos, precisa de mitos para sobreviver ou, mais exactamente, para conquistar, manter, exercer e, numa perspetiva mais lata, perpetuar-se no poder. Hoje, com este livro, Cabral ficou mais próximo de nós. Continua a ser uma figura de suma importância para a nossa História, mas isso o não coloca numa posição divina ou algo parecido. Humanizar Cabral significa estudá-lo num certo contexto para o podermos compreender na sua real dimensão. 

Uma questão curiosa – embora não seja evidente no seu livro, nem, teria que ser -, é que parece haver, ao mesmo tempo que subsistem algumas alegorias e mitificações, um apagamento de Amílcar Cabral do discurso e na iconografia dos partidos que, na Guiné-Bissau e em Cabo Verde (PAIGC e PAICV, respetivamente), se reclamam do seu legado. Ou seja, Cabral é citado uma ou duas vezes por ano, em alturas solenes, ou ainda para fins eleitoralistas, e depois é o silêncio. Concorda?

Concordo, sim. Amílcar Cabral é lembrado a espaços em Cabo Verde: ou em períodos eleitorais, ou em épocas solenes. O resto é o silêncio. Ademais, pergunto: Onde está o legado de Amílcar Cabral? Onde está o PAIGC que ele fundou? Onde está o seu projeto da unidade Guiné-Cabo Verde? O atual PAIGC, na Guiné-Bissau, e o PAICV, em Cabo Verde, não são partidos de Amílcar Cabral, embora se reclamem do seu legado. O PAIGC de Amílcar Cabral era um partido binacional, o que existe agora não o é. O PAICV, quem o criou, não foi Amílcar Cabral, mas sim provavelmente Aristides Pereira, Pedro Pires, Abílio Duarte, entre outros. Pergunto ainda: Quem destruiu o PAIGC? Quem destruiu o projeto da unidade Guiné-Cabo Verde. Não foram os inimigos de Amílcar Cabral, mas sim os seus próprios camaradas. Curiosamente, o MpD, em dez anos de governação nos anos 90, fez muito mais que o PAIGC/CV, em quinze, para manter vivo o legado de Amílcar Cabral. Nunca é demais recordar que foi o MpD, enquanto governo, quem mandou construir todas as estátuas de Amílcar Cabral, bem como o seu mausoléu, hoje existentes no país.

Contextualizar Cabral

É uma pena que se apague a história e o legado de alguém que - goste-se ou não - foi uma das mais marcantes figuras do século XX. Nesse sentido, não seria importante sistematizar a investigação independente sobre Cabral e colocá-lo no lugar que tem na História, sem sofismas nem preconceitos?

Uma vez mais, ponho-me de acordo consigo. O meu livro vai mesmo no sentido que indica. A cada dia, impõe-se a necessidade a que faz referência. Sendo ele uma figura emblemática de Cabo Verde, não é aceitável que não haja sobre ele um estudo sistematizado. Modestamente, já dei o primeiro passo. Evidentemente, seguir-se-ão outros.

Para alguém que (como eu) pertence a uma geração moldada politicamente no sentimento anticolonial e na luta antifascista, Amílcar Cabral (independentemente dos seus erros, que seguramente foram muitos), representa um universo de ideias que ainda hoje persistem e nos marcam. Consigo acontece o mesmo, ou o investigador já se apartou em definitivo desses referenciais simbólicos?

Como bem sabe, somos produtos do meio no qual nos inserimos e, muito dificilmente, nos afastamos dele. Enquanto investigador, distancio-me dos referenciais simbólicos a que aludiu. Contudo, embora não tenha vivido aqueles tempos de luta anticolonial e antifascista, revejo-me, com certeza, enquanto político, em alguns, nem todos, é claro, nessas referências simbólicas porque foram muito importantes para a minha formação política.

O que é em Cabral mais evidente, o seu lado libertário ou a leva autoritária aparentemente inevitável num partido moldado em contexto de guerra e de clandestinidade? Ou melhor, que marca deixa para a História?

O papel de Amílcar Cabral na História deve ser estudado num determinado contexto. Se o não fizermos, expor-nos-emos a riscos desnecessários que mais não servem senão para desvirtuar a investigação. É neste quadro que devemos estudar Amílcar Cabral. Foi importante no período anticolonial no qual, de resto, desempenhou um papel cimeiro, sendo, por esta razão, uma das figuras marcantes do nacionalismo guineense e caboverdiano. Deixou marcas em Cabo Verde? As marcas históricas, legadas por Cabral, estão presentes na mente dos caboverdianos? Em aberto fica a resposta.

Ideólogo do partido único

A ditadura de partido único que se seguiu à independência de Cabo Verde (e da Guiné, obviamente) é inerente ao património ideológico e vivencial de Amílcar Cabral ou reside nos jogos de poder em que envolveram os seus supostos prosélitos? Isto é, o caminho seguido encontra apenas sementeira na visão de organização social e do Estado defendida pelo fundador do PAIGC ou tem outras componentes? Mais ainda, em função do que apurou sobre o percurso de Cabral, pensa que ele se reveria nesses quinze anos de autoritarismo?

Amílcar Cabral foi o pai do partido único, ou melhor, foi o mentor político e ideológico da ditadura que tivemos em Cabo Verde depois da independência. Isto é já um dado adquirido e indiscutível. É do pensamento político de Cabral que saíram as sementes que permitiram, a 5 de julho de 1975, substituir no nosso país a ditadura salazarista pela ditadura autóctone, isto é, dos filhos da terra. Melhor dizendo, dos manuais cabralistas emerge a arquitetura política que serviu de base para a implantação do autoritarismo caboverdiano. Cabral foi um teórico de partido único. Escamoteá-lo é um erro histórico colossal. Desenhou um Cabo Verde dirigido por um único partido. Por isso, trazê-lo hoje descuidadamente a Cabo Verde, um país democrático, requer muitos cuidados e tamanha ponderação.

AAP

 

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