NISH WADADA: Chegou a hora de o povo abrir os olhos e dominar o medo

. Publicado em Grande Entrevista

Mais do que falar sobre música, falou-se do movimento à volta do Reggae, da revolução dos espíritos, da necessidade de inconformismo, de protestar contra o controlo dos poderosos e da identidade africana dos caboverdianos


 

No final do Festival de Praia d'Tedja, já passava das sete da manhã quando nos sentamos à conversa com a Nish. O cansaço era recíproco. A cantora leva ao palco uma agitação que lhe exige muito do corpo, e cantar de madrugada, com horas roubadas ao sono, é sempre um exercício complicado. O jornalista estava também de pé há muitas horas e tudo fazia crer que a prosa seria curta. Mas não foi. Por mais de trinta minutos, olhos nos olhos, conversamos à solta por coisas menos óbvias. Coisas importantes.

Nascida na Holanda, filha de caboverdianos, Nich (uma nominha que quer dizer vitória) medeia a sua vida entre concertos na Europa e temporadas pelo Tarrafal; Wadada (que quer dizer amor no primeiro alfabeto africano que nasceu na Etiópia) tem outros projetos para além da música, coisas ligadas ao turismo, mas também um programa na rádio local. É de sua natureza não estar parada, ser parte das vivências deste mundo.

Com passagem pelo Zouk, Eunice (Nish) Vieira já percorreu os maiores festivais de Reggae do mundo, mas ainda sem ter gravado um álbum ou clip, objetivos que estão para breve. No palco do Rotontom Sunsplash, de Barcelona (em 2012 e 2013), emparceirando com nomes recorrentes do Reggae internacional, como Damien Marley, Anthony B, Third World, Misty in Roots, Ky-Many Marley (filho de Bob Marley) e Lutan Fyah, entre outros, Nish tem vindo a construir um nome que a levou nesta tournée de verão ao Dub Camp Festival, em Nantes (França), e logo a seguir à Servia, ao Exit Festival, onde subiu ao palco com Jamiroquai, Carl Cox, Gloria Gaignor, Stromae e Queens of Stone Age, também referências do Reggae internacional. Passagens também pelo Worm Festival, na Holanda, pelo Dour Festival, que se realiza na Bélgica, e ainda pelo francês Garance Festival

Nish regressa à edição deste ano do Rototom Sunsplash, na próxima quinta-feira, 21, fazendo ainda uma passagem pelo Reggae Bus Fest, na Bélgica, encerrando a tournée de verão.

Na sua fase Zouk passou pelo Liviti, mas mais adiante cruzou-se com os Delidel Touch, uma banda de caboverdianos residentes na Holanda que a levaram a abraçar em definitivo a filosofia rastafári.

Três anos atrás (2011), juntou-se aos Kolabeat, na cidade da Praia, e foi construindo o seu nome no mundo do Reggae, passando uma mensagem de busca de um mundo melhor, justo e tolerante, onde o amor universal prevaleça sobre a ganância e o controlo dos poderosos – uma revolução sem armas que considera fundamental para salvar o mundo.

Conversar com Nish Wadada é um conforto para a alma!

JSN - Não me apetecia nada trazer para esta conversa aquelas coisas recorrentes, “passou pelo Zouk , depois foi para o Reggae”, falar de lugares comuns, ainda para mais quando se trata de um jornalista que não tem nenhuma especialidade em música, por isso os disparates seriam a dobrar (risos). Mas houve duas ideias que transmitiu no palco que são muito interessantes: Uma que tem a ver com a revolução e a outra sobre a identidade africana dos caboverdianos, uma velha polémica sempre presente.

Nish Wadada – Estamos a viver numa era em que há muita manipulação, a globalização e a mídia, em geral, que é aquilo que mais influencia a população. O que a mídia dá é aquilo que o povo tem na mente. O povo está tão cego de entretenimento e de coisas que passam na televisão…

E é até direcionado em termos de consumo, para comprar isto e deixar aquilo.

Exatamente. E aí o pessoal perde a sua própria identidade e o controlo sobre si próprio e a conexão com a natureza, que acontece desde pequeno. E vendo televisão demais, vendo coisas para distrair o pessoal vai cegando, digamos assim. E, aí, surge a oportunidade dos líderes globais, que têm uma certa intenção, mais facilmente dominarem as pessoas.

Não será uma certa intenção, serão as intenções todas…

Claro, todas as intenções (risos). Já sabemos que decorre de uma maneira de pensar global, é cada vez mais óbvio. É a nova ordem mundial, a comida está a ser manipulada, as vacinações… São muitas coisas para nos distanciar da nossa natureza. Está na hora de não só o povo abrir os olhos, mas também de dominar o medo de falar, o medo de protestar contra o que está a acontecer. Porque, no momento, estamos a viver um tempo não só de dominação mental, mas também físico, biológico, estão a acontecer muitas coisas que influenciam o nosso bem-estar e está na hora de o povo despertar.

E essa revolução passa só ao nível do espírito, da mente, ou pode adquirir outras proporções. Porque essa fase embrionária leva, de imediato, à necessidade de levar a revolução até ao fim e ser consequente nisso.

Penso que tem de ser uma revolução inteligente, intelectual, e não necessariamente com manifestações agressivas.

Mas os que controlam isto não vão deixar de o fazer, não abandonam a pedido.

Por isso é que temos de abrir a mente e conhecer o nosso Eu próprio para saber reagir em relação a essa ameaça dos poderosos, que é constante.

E isso também passa muito pela relação que temos com os outros, não é?

Exatamente. A relação que tens contigo próprio vai-se repercutindo nos outros, e acho que começando assim, na base do amor universal, porque hoje já não é os europeus ou os africanos, com a globalização estamos todos a sofrer os mesmos problemas.

Uns com mais intensidade que os outros.

Sim, mas vem tudo do mesmo controlador. Temos de nos consciencializar da nossa universalidade, do amor universal, porque a partir daí nem vai ser necessário como antigamente, é uma coisa mais emocional.

Quando falamos em revolução temos em mente os métodos clássicos, que vêm já da antiguidade.

Mas que já não funcionam mais.

Agora, gostaria que falássemos daquela velha polémica sobre a identidade dos caboverdianos, a sua origem mais remota. E que tem mais expressão no Barlavento, particularmente no Mindelo, onde a natureza africana é muito questionada.

Há até uma atitude de discriminação, e eu já vi isso, de superioridade em relação aos outros.

Daí aquela velha dicotomia badios-sampadjudos…

Exatamente. E é uma coisa que vem desde o tempo da escravatura, é uma manipulação que foi implantada nos escravos, diferenciando os mais clarinhos dos escurinhos, as mulheres e os homens, e implantar a ideia de que são diferentes. Isso passa de mãe para filho, de geração em geração. Aqui em Cabo Verde, como tivemos muita mistura com portugueses, franceses, ingleses… isso tudo moldou a mentalidade dos caboverdianos em relação ao continente africano. Tem muito a ver com educação nas escolas, penso que há um défice de conhecimento sobre África. Em vez de se centrar na História e na Cultura da Europa, tem que se centrar em África. O Ministério da Educação tem uma grande responsabilidade pelo facto de os caboverdianos não se sentirem africanos. Não aprendemos quais são os países africanos, mas sim quais são os países europeus. Na televisão só se vêem cinco países africanos onde se está mal, mas dos outros cinquenta não se sabe nada.

Mas há também uma grande hipocrisia nesta história. Por um lado, há o discurso oficial, em determinadas alturas do ano - “nós somos africanos” -, que até assume um discurso pontual contra os “tugas”, contra os brancos; mas, por outro, os governantes vão lá todos de mão estendida, à espera da “ajudazinha”, de umas prebendas…

Exatamente.

E até há aquela coisa ridícula da “ajuda portuguesa”, que é um meio de as empresas portuguesas levarem tudo, eles emprestam o dinheiro mas as empresas vêm cá buscá-lo todo. E são os bancos portugueses que emprestam.

É uma grande hipocrisia, por isso é preciso abrir os olhos, construir uma nova consciência. Os problemas hoje são outros e temos que aceitar que somos africanos, sim; somos diferentes dos outros africanos, sim, porque a nossa Cultura é muito influenciada por outros países, mas as influências são normais e não contrariam a nossa natureza africana.

E como pensa que a sua mensagem tem sido receptada pelas pessoas, aqui em Cabo Verde? Porque, se calhar, a sua mensagem em Almada (Portugal) teria outra repercussão que não tem aqui, onde as pessoas têm uma atitude de grande passividade em relação ao que as rodeia. E, mais complicado que isso, é a atitude de subserviência em relação ao poder. Como, por exemplo, aquela de se tratarem eleitos municipais por “Excelência”…

Isso tem a ver com um complexo de inferioridade que temos. Por acaso não cantei muitas vezes em Cabo Verde, porque o novo projeto está só a sair agora. No entanto, penso que as pessoas estão a perceber a mensagem, por isso procuro sempre cantar não só em inglês mas também em crioulo. Tem que ser uma parte em inglês porque o Reggae é mais universal que o Zouk, mas o crioulo é muito importante até porque o povo daqui gosta muito de Reggae, e no Reggae a mensagem é o principal. Mas estão a perceber e isso é uma maneira de eu ajudar.

O Reggae, neste aspeto, é bastante similar àquilo que, na Europa, se chama a canção de protesto, porque a música pode ser muito boa, feita por grandes compositores, mas o fundamental é a palavra. A música é um instrumento de comunicação das ideias.

Exatamente, palavra, som e poder é uma combinação, porque a palavra tem poder. Não é por acaso que os batimentos do Reggae são os batimentos do coração. Aqui, as pessoas gostam muito de Reggae, mas não percebem a maioria das vezes, por isso também canto em crioulo e o pessoal está a receber isso muito bem.

Presumo que seja a primeira vez que está a cantar no Tarrafal, ou já tinha acontecido de outras vezes?

Não é a primeira vez que estou a cantar no Tarrafal, mas não como Nish Wadada. Na altura era Eunice Vieira, estava na onda do Zouk mas já estava a mudar para o Reggae.

E a sua carreira – não gosto muito desta palavra, porque dá a ideia de funcionário superior de um ministério (risos) -, a sua passagem pelo Reggae está a ter muito êxito, reparei que está a correr o que há de melhor em termos de festivais internacionais. O que, certamente, não é por sorte ou bruxedo (risos).

Não, tem a ver com muito trabalho, talento. Começa com qualidade, talento e uma equipa, tenho uma excelente equipa. Fomos ao Rototom em 2012, para ver o que era o Reggae e para senti-lo no pêlo. Foram palestras, debates, era Reggae em todo o lado, até nos supermercados (risos). Fiquei muito impressionada e percebi mesmo o que era o Reggae. Que não é só música, é todo o movimento à volta.

E chega ao Reggae porque começa a sentir, cá por dentro, que é preciso fazer qualquer coisa, de alimentar a revolução.

Exatamente. De não usar apenas a voz.

Pois… “que voz tão bonita, não há nenhuma fífia, mas afinal o que é que ela quer dizer?”… é isso?

É. E percebi que essa é a minha missão, por isso levo isto muito a sério, tenho uma equipa, um agente que me introduziu no Reggae muito a sério, trabalhamos muito, temos uma estrutura. Ainda não lancei um álbum nem um clip, mas tem sido muito trabalho duro, um bocadinho de ousadia, ir lá e perguntar se posso cantar (risos). Através disso fui aparecendo cada vez mais e agora estou a cantar com os melhores.

E consegue viver da música?

Esse é o objetivo, estou no caminho mas ainda não cheguei lá. Passo o verão na Europa, nos festivais, e o resto do ano fico aqui em São Nicolau, onde tenho agora uma empresa de guias turísticos, e tenho um projeto de fazer aqui um ecoresort. Mas tenho outros projetos, sou também professora de inglês e vou ter um programa na Sodad FM.

AAP

 

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