TARRAFAL: Novo livro de Albertino da Graça apresentado ontem no Centro Cultural Paulino Vieira

. Publicado em Grande Entrevista

À margem do lançamento, JSN conversou com o reitor da Universidade do Mindelo, naturalmente sobre a obra, mas também sobre um tema recorrente da atualidade política - a Regionalização -, que publicaremos na nossa edição de 4 de agosto


 

Figura conhecida do Tarrafal, por onde foi passando ao longo da vida e tendo ali residido, Albertino da Graça, que chegou a ser jogador e treinador do Ultramarina, esteve esta sexta-feira, 1, no Centro Cultural Paulino Vieira para apresentar o seu mais recente livro. Ladeado na mesa por dois amigos, Emanuel Spencer e Augusto Neves (edil do São Vicente), professores na Universidade Mindelense, fundada pelo autor, Graça deu a conhecer “Um Modelo de Gestão Para uma Universidade Empreendedora e Competitiva” (a sua tese de doutoramento), prefaciado por Adriano Moreira e Onésimo Silveira. Antes, porém, conversou alguns minutos com o JSN. Aqui fica o registo.

JSN - Percebe-se que é um livro que nasce de dentro da sua universidade, decorrente da experiência vivida, mas também uma espécie de “caderno de encargos” de como se deve dirigir uma instituição universitária.

Albertino da Graça - Um case study [estudo de caso]. A Universidade Mindelense tem 12 anos, mas um crescimento enorme. Cabo Verde tem de ter o seu próprio modelo de gestão do ensino superior, não vale a pena copiar os modelos existentes que são uma espécie de fatos à medida. Isso não é possível, Cabo Verde é um país apenas com meio milhão de habitantes. E se fossemos pelos dados internacionais, eventualmente, Cabo Verde teria meia universidade, e nós temos dez instituições de ensino superior.

O que parece ser de mais, tendo em consideração ainda outro fator: estarem concentradas na Praia e no Mindelo.

Exatamente. Nós estamos a falar de muitas universidades, o que vai acontecer no futuro – não tenho dúvidas – será a sua fusão.

Se calhar, algumas até ficam pelo caminho…

Pois, quem não quiser seguir o caminho da fusão vai desaparecer naturalmente, e não precisamos de forçar as coisas. Nós não podemos continuar a adotar modelos de gestão de outras instituições, que tiveram sucesso noutros países e noutros contextos. A nossa realidade é completamente diferente e o que eu proponho no livro é um modelo de gestão para Cabo Verde.

Se nós formos reparar, a única instituição pública que temos neste momento – a Universidade de Cabo Verde - recebe do Orçamento do Estado certa de três milhões de dólares [250 mil contos] por ano mais o dinheiro das propinas [108 contos/ano, num universo à volta de 4 mil estudantes]. No entanto, as universidades privadas não recebem qualquer apoio do Estado. E deveriam receber porque estamos todos a prestar um serviço público. Os estudantes são de Cabo Verde, portanto, estejam na universidade pública ou na privada, os pais (que trabalham) já fazem os seus descontos que também são encaminhados para o Orçamento Geral, de modo que devem, de alguma maneira, beneficiar de alguma coisa. Não recebem nada, mas o que se verifica é que as universidades privadas vão funcionando e vão crescendo e a universidade pública não dá um sinal claro de desenvolvimento. Tem um desenvolvimento tímido que, comparado com a Universidade do Mindelo, é irrisório, já que nós crescemos entre 25 a 30 por cento (%) ao ano.

E a média de crescimento das outras, tem alguma ideia?

De acordo com os dados que tenho – e, às vezes, não temos todos os dados, ressalvo esse aspeto -, a Uni-CV cresce 0,3% ao ano.

Naturalmente que associará o êxito da Universidade do Mindelo aos modelos de gestão, mas isso são coisas que se sentem mas não são visíveis à primeira. Ou seja, o que torna apelativo aos estudantes e aos pais a inscrição na sua universidade? Porque o modelo de gestão só é percetível quando já se está lá dentro.

Acredito que temos um núcleo duro, dentro da universidade, que é um grupo que gosta da instituição. Na realidade, é um núcleo duro que não deixa apenas a universidade satisfeita pelo trabalho que faz, mas também deixa os estudantes satisfeitos. E os estudantes, depois, passam a palavra, porque são bem tratados e recebem desse grupo e dos docentes aquilo que precisam. Mas, também, tem outro aspeto que é o mercado. Na maioria dos nossos cursos não há desempregados. E nos cursos onde temos desempregados, não levamos os nossos estudantes lá por engano, são avisados. Por exemplo: “atenção, o curso de sociologia tem o mercado saturado, se quiser fazer o curso, tome atenção porque tem de ser, de facto, muito competitivo”. Depois não pode dizer que não sabia, que entrou ali por engano.

E qual é a principal valência da Universidade do Mindelo?

Creio que a principal valência tem a ver com cursos na área da saúde. Neste momento, acredito que seja essa a diferença em relação a outras universidades. Em enfermagem e Ciências da Visão. Até agora, por exemplo, todo o mundo trata da boca, mas ninguém diz “tens de tratar dos olhos”, dos cuidados da visão.

Ainda para mais, agora, que as pessoas passam horas infindáveis em frente ao computador…

Exatamente. Então, é um curso absolutamente inovador, que está a ter uma recetividade enorme, com um bom apoio da Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Lisboa. E vamos começar agora um mestrado em Enfermagem comunitária, e já fazemos cursos de curta duração na área das especialidades de Enfermagem, nomeadamente em matéria de leituras de eletrocardiogramas.

AAP

 

Leia na próxima segunda-feira

ALBERTINO DA GRAÇA: “Sou um defensor da regionalização desde a primeira hora”

 

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