DESENVOLVIMENTO: Turismo e Cultura vão dar novo impulso a São Nicolau

. Publicado em Grande Entrevista

Cecília Moreno, João Lopes Filho, José Martins e Renato Lopena falaram com o JSN sobre o projeto “Sodade” e os novos caminhos para o desenvolvimento de São Nicolau. O Turismo e a cultura estão no centro de uma “revolução” que se pretende profunda e permita alavancar o crescimento económico e o progresso social


 

A conversa decorreu num restaurante do Tarrafal, à margem da realização de uma semana intensa de trabalho onde se debateu “A Cultura como vetor para o desenvolvimento sustentável de São Nicolau”. Entre 30 de junho e 5 de julho, conferências com a presença de especialistas internacionais, ações de formação, debates e atividades culturais deram a conhecer o “Sodade”, um projeto financiado pela União Europeia da responsabilidade da Comissão Regional de Parceiros (CRP), em parceria com a organização italiana Mediaservizi, mas que conta com o apoio de várias instituições, entre elas a Fundação João Lopes.

Cecília Moreno é a técnica responsável pelo projeto, João Lopes Filho é o presidente da Fundação João Lopes, José Martins é presidente da CRP e Renato Lopena dirige a Mediaservizi, Cooperação & Comunicação.

Um museu com várias coisas dentro

JSN – Como é responsável do projeto, fazia uma sugestão; começamos pela Cecília que, além do mais, é a única senhora aqui presente. E gostaria de saber tudo sobre este projeto “Sodade”.

Cecília Moreno (CM) – é um projeto que tem como objetivo principal promover a Cultura como vetor de desenvolvimento económico e social de São Nicolau, é financiado pela União Europeia (UE), foi elaborado pela CRP em parceria com a Mediaservizi, de Itália, e como objetivos específicos propomos criar um museu difuso, são conceitos que nós estivemos a discutir…

JSN – Trata-se de um museu que abarca todas as coisas.

CM – Exatamente, a ideia não é aquele museu tradicional, mas um museu que comunga da experiência das pessoas, tudo o que é património, tudo o que é cultural, natural, entra dentro desse museu e, também, as próprias vivências. Para fazer tudo isso é preciso fazer muita produção, muita comunicação e, então, temos também prevista a criação de uma plataforma web onde vai entrar tudo o que é informação sobre São Nicolau, a todos os níveis. Um turista ou um emigrante que está lá fora podem aceder à plataforma e vão encontrar toda a informação que quiserem sobre a ilha. Esse projeto é para dois anos, o período que temos para fazer toda essa promoção de São Nicolau.

Para além disso, todo esse trabalho, em termos de operacionalidade, tem como ideia criar uma incubadora de microempresas que irão ser identificadas a partir das necessidades do mercado, tendo em conta aquilo que já existe e aquilo que é preciso complementar. E, para criar essas microempresas, estamos a apostar numa orientação muito específica do convite da União Europeia que é tentar debelar o problema do desemprego. Então, vamos dar prioridade, sobretudo, aos jovens licenciados que estão desempregados.

Mas para fazer tudo isso é preciso criar uma rede onde vão estar todos os parceiros, o financiamento que foi disponibilizado é insignificante para aquilo que queremos e precisamos fazer…

JSNE de quanto é a insignificância?

CM – (risos) São cerca de vinte mil contos, uma insignificância, por isso, este projeto é uma audácia da CRP. Sabemos que não vai chegar.

JSN – Mas os cabo-verdianos também têm essa capacidade de transformar pedras em qualquer coisa de útil… (risos)

CM – Portanto, a intenção é essa, envolver todos os que estão implicados, as associações, o governo, os filhos da terra, todos aqueles que puderem e quiserem dar a sua contribuição para o desenvolvimento deste projeto. São, mais ou menos, estas as linhas gerais.

JSN – Esta iniciativa é uma proposta da CRP à União Europeia, ou foi a UE que propôs à Comissão Regional de Parceiros? Bom, percebe-se que o nome do projeto foi escolhido por vocês, mas como surge esta dinâmica?

José Martins (JM) – A CRP de São Nicolau respondeu a um convite que foi formulado pela União Europeia, no sentido de grupos organizados poderem concorrer com projetos de promoção cultural. Então, em parceria com a Mediaservizi, inscrevemos um projeto de promoção de São Nicolau. Mas, anteriormente, já tínhamos concorrido com um outro projeto que não foi aprovado.

JSN – Quer dizer que houve várias instituições a concorrer.

JM – Concorremos com mais 55 projetos e ficamos entre os seis vencedores.

JSN – Os seis vencedores de Cabo Verde?

CM – Sim, de Cabo Verde. Os outros foram a Citi Habitat, a ONMCV juntamente com a Câmara da Ribeira Grande de Santiago, o Ateliê Mar, a Associação Sete Sóis Sete Luas…

João Lopes Filho (JLF) - Eu gostaria de complementar sobre a maneira como, em Cabo Verde, são selecionados estes projetos. A Fundação Amílcar Cabral, que nunca trabalhou nesta área, vai também trabalhar num projeto de Turismo com vista ao desenvolvimento. Isto demonstra como são selecionados esses projetos da União Europeia. E a fundação foi seleccionada em primeiro lugar.

JSN – Fica o registo, mas não deixa de ser interessante… Mas, agora, gostaria de saber como é que a Mediaservizi aparece no meio disto. Presumo que já tinha por cá outras atividades.

Renato Lopena (RL) – Já tivemos uma outra experiência na Ribeira Brava, com a Rádio Comunitária. O meu trabalho é dirigir uma empresa de informação, e começamos em 2009 quando, por razão das grandes chuvas, a rádio foi muito afetada. Trouxemos equipamentos novos e organizamos cursos de formação para os jovens. Foi nesta altura que começamos, correspondendo a um apelo da câmara Municipal. A partir daí começamos a apresentar projetos.

A CRP é uma autêntica agência de desenvolvimento local, um consórcio de câmaras, associações comunitárias, ministérios. É natural esta nossa associação ao projeto. Estamos também a trabalhar noutros países: no Afeganistão, na Argentina e no Camboja em projetos de comunicação.

Duas perspetivas de desenvolvimento

JSN – Fiquei com a ideia, decorrente da conferência realizada na Ribeira Brava, na última segunda-feira (e que parece ter criado grande polémica), mas também por conversas avulsas, que existem duas perspetivas para o desenvolvimento de São Nicolau. A dos que defendem que o motor deve ser a Agricultura, e uma outra que sustenta ser o Turismo, associado à Cultura, o setor base. E eu, estrangeiro e recente habitante desta ilha, sempre achei que a primeira perspetiva não fazia muito sentido, até porque a Agricultura emprega à volta de 5 por cento da mão-de-obra- e o Turismo anda à volta de 20 por cento. É isto? Como é que se pega nestas coisas todas e se produz desenvolvimento para a ilha?

JLF – Concordo que a Agricultura possa dar algum contributo para o desenvolvimento da ilha, mas a Agricultura de regadio em Cabo Verde (e eu sou também engenheiro agrónomo) é escassa e de pouca qualidade e, depois, mesmo conseguindo produzir, há ainda o problema do escoamento dos produtos. E temos de pensar também que, hoje em dia, os produtos têm de ser certificados, e há um terceiro aspeto importante que é a ligação com as outras ilhas.

JSN – Nomeadamente os mercados de São Vicente, Boa Vista e Sal, com ligações muito deficientes.

JLF – Exatamente. É este o contexto da Agricultura. Quanto ao Turismo, penso que há mais potencialidades, desde que seja bem organizado e integrando várias áreas complementares para que haja uma reprodução dos proventos. É sabido que o Turismo é a indústria que mais redistribui sendo bem organizada. Portanto, só valerá a pena investir no Turismo em São Nicolau se tiver essa capacidade de redistribuir. Mas, tudo isso é muito bonito, e transportes? Há que pensar primeiro nos transportes.

JSN – Pois, senão é como a história da fábrica dos queijos de Belém, montada com grande pompa, mas depois não havia leite, porque na ilha não há o hábito de se produzir queijo… (risos)

JLF - Eu nem queria ir por aí… (risos)

Mobilizar parceiros e filhos da terra

JSN – Parece que este é um bom caminho para o desenvolvimento, mas gostaria de saber como é que se constrói isto no terreno. E a CRP é uma organização muito virada para o terreno.

JM - A implementação do projeto no terreno não vai depender, por si só da CRP, mas sim dos parceiros, das instituições e dos serviços. Por isso é que aconteceu este evento em que um dos objetivos é o engajamento dos parceiros, juntamente com os filhos da terra…

JSN – O engajamento, mas também a formação.

JM - Exatamente. A Fundação João Lopes esteve connosco durante estes dias, o IIPC…

JSN – A fundação é que forneceu, digamos assim, mais “massa cinzenta”.

JM – Sim, mas não só. O IIPC, a ADEI, que também fazem parte do comité que vai tomar todas as decisões. O IFP, também. Então, são esses parceiros que, juntamente com a CRP, vão chegar aos aspetos concretos de implementação do projeto, sempre respeitando a linha dos objetivos. Como se trata de uma matéria nova que a CRP não domina, temos que contar com todo o apoio.

JSN – Apesar de não dominar, também tem a vantagem de se chamar Comissão Regional de Parceiros, é só ir buscá-los…

JM – Exatamente, o fundamental é isso. Tivemos uma formação durante estes três dias para os possíveis formadores. E, a partir deste encontro, já estamos a executar o projeto.

Projeto já está em marcha

JSN – O projeto iniciou-se em março e vai até ao mesmo mês de 2016, têm cerca de vinte mil contos para gastar, mas quando é que se vai começar a sentir isto no concreto? Ou só se começará a sentir depois dos dois anos?

CM – Já falei da criação da incubadora das microempresas, mas em termos operacionais tudo vai passar por formação, capacitação e organização, porque não vamos conseguir prestar um serviço de qualidade ao turista se não tivermos capacidades e organização. Hoje [sexta-feira, 3] dividimo-nos em dois grupos: um a nível do património; o outro, ao nível da gestão. E sabemos que um dos constrangimentos maiores do saniculaense e do cabo-verdiano é a questão da individualidade. Se queremos ter esse serviço de qualidade, a primeira aposta é na capacitação.

Esse processo, em termos de cronograma, estamos a pensar desenvolver agora, a partir de julho, até ao mês de dezembro, formando os agentes culturais, nomeadamente, os músicos, o pessoal da dança, do teatro, da gastronomia e, possivelmente também, outras áreas que o próprio comité irá identificar. Esse comité é formado pelopúblico-alvo que queremos atingir: as câmaras municipais, os ministérios, O IIPC, a ADEI, o IFP, os agentes culturais e os operadores turísticos. Portanto, há esse potencial que já existe, mas que é necessário também formar, e há os que podem vir a ser criados.

Dar a conhecer a gastronomia local

JSN- Falou numa área – a da gastronomia – que me parece ser aquela que tem uma atividade mais deficiente aqui na ilha. Não fará muito sentido um turista vir cá e encontrar nos restaurantes lasanha, costeletas com batatas fritas e bifes e, grosso modo, nada em termos de gastronomia local.

JLF – Como antropólogo, constatei esse aspeto e fui saber junto dos restaurantes por que é que isso acontece. E explicaram-me que ainda não temos uma indústria turística instalada, as pessoas da terra que vão aos restaurantes preferem comer aquilo que não consomem em casa, daí a necessidade de terem algo diferente. De modo que, todos esses pratos, são fora da tradição gastronómica cabo-verdiana. Mas, contudo, isso é uma coisa que vai ter de mudar porque os turistas querem aquilo que não têm na terra deles.

CM – O problema também tem a ver com a procura, nós fizemos a tarde cultural na Ribeira Brava, na altura do lançamento, e as cozinheiras do “Saudade” fizeram questão de confecionar comida tradicional e tiveram prejuízo, mas venderam toda a batata frita e não ficou nenhuma garrafa de cerveja. Por enquanto, não há mercado para a nossa gastronomia tradicional.

JSN – Os italianos, por exemplo, são muito ciosos da sua gastronomia que tem origem na comida dos pobres, os ricos não comiam pizza nem pasta, mas foi essa gastronomia pobre que se impôs ao mundo e hoje consome-se em todo o lado.

RL – Nos melhores restaurantes de Milão e de Roma, os pratos mais elevados, de qualidade e mais caros são os pratos tradicionais, que eram a cozinha dos pobres, uma gastronomia que foi muito reabilitada porque está ligada à identidade e ao território, no Norte há uma cozinha particular e no sul há uma outra, mas são os pratos ‘pobres’, como também é o Caso de São Nicolau e de Cabo Verde, que contam a História. A primeira maneira de conhecer outras culturas é a gastronomia, comer à porta para entrar.

AAP

 

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