TRANSPORTES: Governo tem de encontrar solução para São Nicolau

. Publicado em Grande Entrevista

 

O deputado do PAICV Carlos Ramos confia nas promessas da ministra Sara Lopes mas concorda que o isolamento da ilha já se arrastou por muito tempo e que este é o momento de dar o salto para fazer crescer a Economia e melhorar a vida das pessoas


 

Carlos Ramos é um homem afável, não nos fez esperar, chegou à hora marcada e brindou-nos com um sorriso. O encontro foi na Ribeira Brava, num espaço muito degradado que lhe foi reservado para as suas funções de presidente da Assembleia Nacional, que acumula com a sua qualidade de deputado.

Olha nos olhos e não foge às perguntas, embora se perceba a incomodidade por o seu partido não ter ainda resolvido o problema central dos transportes que atrasa o desenvolvimento de São Nicolau e a isola do mundo. Mas percebe-se também o seu amor pela terra-mãe e parecem sinceros os seus esforços em ajudar a resolver o problema, pressionando o governo, “batendo à porta” dos ministros e conversando muito com o seu colega da oposição – o deputado Nelson Brito – por quem transparece uma cordial simpatia.

É um homem ponderado e seguro nas suas respostas e, entre o partido e a ilha, diz que São Nicolau está primeiro porque foi eleito para servir o povo.

As queixas mais recorrentes dos operadores económicos têm a ver com os transportes e, em particular, sustentando a ideia que a situação se tem vindo a degradar na última década. E decorre daí ser impossível planificar a atividade das empresas e estabelecer compromissos em contrato por nunca se saber a data de chegada das mercadorias. Por outro lado, as ligações aéreas são muito deficitárias. E, das pessoas inquiridas, ficou-se com a ideia de que foi logo a seguir à independência e nos anos noventa que as ligações navais funcionaram melhor.

Os transportes são, efetivamente, o grande constrangimento da ilha, seja a nível dos transportes aéreos, seja a nível dos transportes marítimos, com maior incidência nos transportes marítimos, visto que temos ligações aéreas quatro vezes semanais, no entanto, também com alguns problemas, nomeadamente o facto de não termos ligação aérea com a capital. Os transportes da Praia para São Nicolau passam normalmente pelo Sal e, às vezes, por São Vicente e, algumas vezes com duração de algumas horas nestas ilhas. Este problema a nível dos transportes aéreos cria-nos constrangimentos. Os turistas querem ligação rápida e com garantia de regresso. E, muitas vezes também, com os problemas que os TACV têm, as garantias de regresso não são…

Não são nenhumas…

Temos esse problema. O governo de Cabo Verde deverá – e temos insistido nesse sentido – procurar uma solução para São Nicolau. De todo o modo, é preciso também dizer que o governo tem sensibilidade nessa matéria e tem estado a trabalhar, nomeadamente, podemos dizer que, a partir de agora, estamos em condições melhores pare receber os nossos passageiros, aqueles que nos visitam, com o novo terminal.

Se não houver voos com capacidade para transportar as pessoas, também não serve para nada.

Se não houver voos vamos continuar com o problema que acabamos de mencionar, Mas estamos certos que o problema dos TACV é resolvível e a ministra dos Transportes [Saara Lopes] tem dado esta ideia de que vai procurar uma melhor solução a nível nacional e São Nicolau também terá… A situação dos transportes aéreos para São Nicolau não é a melhor.

Não pondo em causa as boas intenções da ministra que, naturalmente, também quererá apresentar trabalho, a questão é esta: a ideia com que se fica é que têm sido feitas ao longo do tempo várias promessas de resolução do problema, por exemplo, o Primeiro-ministro chegou a prometer a ligação marítima entre todas as ilhas em 24 horas e ainda ninguém viu isso. Há ideias, há projetos – alguns até interessantes -, mas não se avança. E isto é desesperante para as pessoas. E, conquanto o transporte aéreo seja importante, aquilo que faz falta para fazer crescer a Economia é o transporte marítimo.

É claro que é um outro problema, eventualmente até maior, do que os transportes aéreos. Nós temos uma situação em que os operadores económicos se queixam – e com razão – de não conseguirem colocar os seus produtos – e isto falando dos agricultores – em determinados mercados, temos uma situação em que se queixam de não termos uma ligação marítima com a capital do país, e isto constrange bastante a atividade económica. É uma situação também complicada para a nossa Economia. Mas é preciso ver o seguinte: quando se diz que os anos noventa foram o melhor período dos transportes marítimos, é preciso reparar que nos anos 90 tínhamos uma companhia pública que fazia as ligações entre as ilhas.

Ainda a propósito dos anos noventa, foi também nessa altura que se começaram a fazer voo diretos com a Praia.

Também. E tudo era feito por esta companhia pública, mas também nessa altura os barcos foram vendidos e passaram para as mãos dos privados. Os privados operam conforme lhes dá maior lucro. Mas é preciso dizer também que o Estado tem as suas responsabilidades e deve subsidiar as linhas com mais dificuldade, nomeadamente esta para São Nicolau, e tem de tomar uma atitude para resolver este problema. No entanto, a situação tem melhorado, ainda que ligeiramente, nestes últimos tempos. Temos um barco fazendo ligação permanente entre São Vicente, São Nicolau e Sal, uma linha subsidiada.

Mas a maior queixa refere-se às ligações com a Praia.

A maior dificuldade é a ligação com a capital, sim. E esta ligação com a Praia traz muitas dificuldades aos operadores económicos. No entanto, é preciso frisar que, em relação aos agricultores, tinham uma reclamação que não conseguiam colocar os seus produtos nos nossos principais mercados – que são Sal e São Vicente -, hoje nos dizem claramente que a situação melhorou bastante.

Mas a Boa Vista também, é um grande mercado, juntamente com o Sal, para fornecimento das unidades hoteleiras.

A Boa Vista, com a expansão turística, seria também para nós um bom mercado. Mas o nosso principal mercado tem sido o Sal. E, como dizia, os nossos agricultores têm-nos dito que a situação hoje é relativamente boa e não há grandes problemas neste particular. Mas é preciso também referir que os agricultores quando dizem isto, e quando têm necessidade de colocar os produtos noutros mercados, é porque a Agricultura está a ter uma grande expansão nesta ilha e porque sejamos, talvez, um exemplo para o País pela forma como as novas tecnologias estão sendo introduzidas na nossa Agricultura e como a nossa produção está sendo feita, como os nossos produtos têm qualidade e condições para serem colocados nos mercados turísticos.

Nomeadamente, introduziram aquele sistema gota a gota.

Exatamente, que deu uma enorme expansão à nossa Agricultura, mas também introduzindo novas espécies e espécies melhoradas que se reproduzem com maior rapidez e maior qualidade. Tudo isto a bem da nossa Agricultura e da Economia local.

Certamente que a Agricultura é um setor-chave da Economia da ilha, mas Também a Pesca e o Turismo. Um Turismo, até, numa lógica diferente do Turismo de massas, que seria um desastre para a ilha e, como se sabe, nem deixa muito dinheiro no país, fica quase tudo na origem.

Certamente. Terá de ser um outro tipo de Turismo, um Turismo de montanha, cultural, onde as pessoas possam levar tudo o que de bom a ilha tem e gozar das nossas paisagens, e não aquele Turismo de massas de sol e prais, como acontece na Boa Vista e no Sal. Portanto, a nossa ideia é que o Turismo deve ser virado para outros aspetos.

Os deputados da situação têm, de alguma forma, maiores constrangimentos que os da oposição. Os da situação estão condicionados pela permanência do seu próprio partido no governo e, até, por lógicas de fidelidade partidária, mas na sua ação enquanto deputado o que está para si primeiro: o partido ou a ilha que o elegeu?

Nós estamos no poder para servir o povo, só podemos continuar no poder se resolvermos os problemas. A nossa ilha, para nós, está à frente de tudo e qualquer outra coisa. E é por isso que, existindo esses problemas, nós no grupo parlamentar, em todas as jornadas insistimos para que os ministros também vão lá para discutirmos o País, insistimos junto dos membros do governo para a resolução dos problemas. O PAICV está no poder, cumprindo o seu terceiro mandato, porque tem conseguido resolver, paulatinamente – com os constrangimentos que temos, económicos e financeiros –, os problemas do país. E, em relação a São Nicolau, muitas coisas foram feitas, outras estão sendo feitas. Nós somos um arquipélago, com nove ilhas habitadas, portanto, temos os problemas multiplicados por nove.

Mas uma das queixas mais recorrentes – e não só nesta ilha – é que há uma lógica de canalizar recursos, fundamentalmente, para Santiago. E em concreto, aqui em São Nicolau, traduz-se no incontornável problema dos transportes. Como é que se pode estar uma década sem resolver o problema? Olhe, por exemplo, construiu-se aquela Circular da Praia que não serve rigorosamente para nada, por qual razão não pegaram naquele dinheiro e acabaram com o isoladamente de São Nicolau?

A queixa de que os recursos são fundamentalmente para a ilha de Santiago, existe e quem a faz, eventualmente, poderá ter alguma razão. Digo, poderá ter. Mas é preciso ver que Santiago, como a maior ilha do país, com mais de metade da população do país – e com maiores dificuldades em certas zonas -, deverá merecer uma fatia do Orçamento do Estado bem maior que a das outras ilhas. Com isto, não estou querendo dizer que São Nicolau não mereça mais, pelo contrário, entendemos que tudo o que for bom para São Nicolau deve vir e, junto dos membros do governo, andamos a fazer esta luta, para que a São Nicolau seja atribuído mais. E, também, andamos a fazer esta luta junto do governo para que o problema dos transportes seja resolvido. São Nicolau tem este constrangimento, mas também há outras ilhas onde o problema dos transportes se põe. Não é um problema exclusivamente nosso. Brava, por exemplo, o Maio também se queixa.

Mas é fundamentalmente em São Nicolau, Brava e Maio que o problema persiste.

E Santo antão queixa-se dos transportes aéreos…

Mas Santo Antão tem ligações marítimas rápidas e diárias, é uma situação bem diferente da que vivemos aqui.

Mas numa coisa estamos todos de acordo: São Nicolau merece e o governo deve trabalhar para melhorar os transportes aéreos e marítimos nesta ilha. E continuaremos essa luta.

Mas a questão que lhe coloco é esta: o PAICV está há treze anos no poder e, descontando os quatro primeiros que de, algum modo, foram para apanhar os restos do governo anterior, são nove anos – segundo toda a gente diz – em que a situação se degradou. Ou seja, ficou ainda pior do que já estava. E, por exemplo, pegando nos TACV, verifica-se uma absoluta desorganização. Em agosto, o mês de maior afluência de emigrantes porquê não efetuar voos diretos da Praia? Outro exemplo: novembro, dezembro e janeiro são bons meses para o Turismo, com pessoas provenientes da Europa, porquê não reforçar as ligações com São Nicolau?

Concordamos, nós sofremos na pele essa situação, porque temos de viajar com alguma frequência para a Praia. O problema é do conhecimento de todos e estamos sensibilizados para a situação, temos reclamado junto do governo e vamos continuar a fazê-lo. Vamos continuar a pedir ao governo que encontre soluções para os transportes em São Nicolau e para o País.

Mas tem sinais de que a situação se pode resolver a curto prazo?

Temos sinais.

E quais são os sinais, para além das declarações de Sara Lopes?

Eu confio nas declarações da ministra.

Percebo que tenha razões para confiar, mas deve perceber o lado das pessoas comuns… Está bem, a ministra disse mas as pessoas não vêem sinais concretos. Por exemplo, sei que há empresários cabo-verdianos que têm disponível um barco na Noruega, todo equipado, que estão só à espera que o governo conceda um aval para o negócio se efetuar. E a intenção é, precisamente, fazer a ligação entra a Praia e São Nicolau. E esperam há vários meses sem terem qualquer resposta.

Já ouvi falar, mas não tenho conhecimento concreto nem por parte do governo nem por parte desses cidadãos. Ouvi apenas, da mesma forma que estou a ouvir de si. Mas, confirmando-se essa situação, farei também o forcing que for possível, junto do governo, no sentido de desbloquear a situação.

A ilha de São Nicolau tem dois deputados eleitos, de partidos diferentes, e uma coisa que me faz confusão é verificar que, muitas vezes convergem na apreciação dos problemas da ilha, mas parece não fazerem o que seria fundamental: um lobby em defesa de São Nicolau.

O nosso Parlamento é o modelo “arena”, faz-se a briga política com todas as aspas que se queira, no entanto, temos outros espaços. Já lhe disse, por exemplo, que a nível do nosso grupo parlamentar todos os meses recebemos os ministros para discutir o País, da mesma forma que podemos ir ao Palácio do Governo. O problema reside no facto de, quando estamos em sessão plenária, muitas vezes aquilo que se faz fora da comunicação social não é o que parece. É claro que a preocupação pelos problemas da ilha é comum e eu e o deputado Nelson Brito [MpD] falamos e, muitas vezes, temos visões comuns sobre a sua resolução. Eu e o Nelson temos uma boa relação e conversamos, discutimos sobre os problemas da ilha. Mas o que aparece na comunicação social é o debate parlamentar, com o calor, com cada um querendo fazer vingar a posição do seu partido, pode fazer crer que estamos lá numa guerra com interesses diferentes. Não, somos deputados por esta ilha e defendemos os interesses de São Nicolau.

Independentemente das promessas da ministra, para além da sua natural confiança de que o governo do seu partido resolverá a questão, quanto tempo prevê para que o problema dos transportes seja resolvido?

Não lhe poderei avançar uma data…

Mas o que considera ser aceitável?

Aceitável seria que a ilha tivesse, pelo menos, cinco ligações aéreas semanais e que a nível dos transportes marítimos melhorassem as ligações São Vicente-São Nicolau-Sal e que o barco melhorasse as suas condições de transporte de passageiros – que são más - e que tivéssemos, pelo menos quinzenalmente, ligação marítima com a Praia.

 AAP

 

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Comentários (1)

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  • é por isso que as coisas não andam para a frente, li as duas entrevistas dos deputados, e não vi mais do que a defesa partidária, cada um defendeu o seu partido. Estão de acordo sim mas não há um consenso entre os dois. Um Responsabiliza e o outro defende. Por favor ... nô uni, nô junta mô nô luta pa nôs ilha, pa mdjor condição pa nôs gent. O partido pode não extinguir mas a vossa passagem pelo partido tem prazo de validade, aproveitai a oportunidade que o povo vos deu e marcai a diferença

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