EDITORIAL: Uma causa que vale a pena

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O sinal dado pelas três centenas de subscritores da petição, que a acompanham com estudos precisos, não só sobre a história do templo, mas fundamentalmente pelos impactos futuros da recuperação do estatuto perdido, são inspiração para este tempo novo de iniciativa cidadã que se expressa ainda noutros domínios, como recentemente se comprovou pela mobilização de cidadãos do Tarrafal em defesa da Saúde Pública


 

A 28 de março, representantes de um grupo de cidadãos que subscreveram uma petição para que a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário (Ribeira Brava) retome o estatuto de Sé Catedral, fizeram entrega do documento ao Bispo de Mindelo, D. Ildo Fortes, num ato público que teve lugar no Seminário e contou com a presença dos dois presidentes de câmara da ilha, Américo Nascimento e José Freitas de Brito, que quiseram dar um sinal claro de engajamento dos seus municípios num ato e numa reivindicação que, tendo um caráter simbólico, está para além da recuperação do estatuto perdido.

De facto, a reivindicação da recuperação de um estatuto que o templo já teve significa também que São Nicolau começa a despertar de um esquecimento antigo que tem amarrado a ilha ao colete-de-forças da resignação e do imobilismo, tentando recuperar um bem mais vasto: a auto-estima.

A ilha de São Nicolau, para além da sua importância histórico-religiosa, foi pioneira do ensino em Cabo Verde, daqui tendo saído grandes nomes da nossa cultura entre os quais se pontuas cérebros como Baltazar Lopes da Silva, Pedro Corsino de Azevedo e tantos outros que projectaram a ilha no universo maior do cosmopolitismo e a afirmaram como alforge do conhecimento. A Igreja Matriz é apenas um exemplo do que a ilha já teve, mas a verdade é que o processo de decadência se tem prolongado por tempo mais longo do que seria aceitável e que se traduz, por exemplo, no seu isolamento, no imobilismo da sua vida económica e no empobrecimento das suas gentes.

Neste contexto, a recuperação do Estatuto de Sé Catedral, para além de qualquer leitura religiosa, significa antes de mais projetar a ilha internacionalmente, abrindo-lhe possibilidade de vir a ser – caso a Santa Sé assim o entenda -, um destino para o turismo religioso, histórico e cultural. Uma Igreja – é bom dizê-lo claramente – que foi erguida à custa do sacrifício, do trabalho persistente e do suor de várias gerações de saniculaenses que, movidos pela sua fé e a sua vontade, construíram o templo arrancando à terra, com as próprias mãos, a matéria-prima.

O azeite de purgueira extraído da planta e enviado à capital do então império, alumiou as ruas de Lisboa durante décadas e permitiu financiar a obra que juntou homens e mulheres num djunta mon que vai além da própria fé e se estende ao terreno das convicções, da determinação e da consciência de que é a vontade coletiva de um povo que permite fazer a vida e o mundo rolar para a frente. E é nesse espírito que, neste nosso século de modernidade e novas tecnologias, podemos ir buscar forças para engajar a vontade coletiva com a urgência de retirar a ilha deste torpor de resignação em que se encontra.

O sinal dado pelas três centenas de subscritores da petição, que a acompanham com estudos precisos, não só sobre a história do templo, mas fundamentalmente pelos impactos futuros da recuperação do estatuto perdido, são inspiração para este tempo novo de iniciativa cidadã que se expressa ainda noutros domínios, como recentemente se comprovou pela mobilização de cidadãos do Tarrafal em defesa da Saúde Pública.

Seria talvez fastidioso estar aqui a enumerar as vantagens da recuperação do estatuto de Sé Catedral, mas não é de todo inoportuno referir as oportunidades de progresso e desenvolvimento que ele traria para a ilha. Desde logo para o turismo, o comércio e a economia familiar.

JSN quer expressamente associar-se a esta causa e a esta iniciativa iniciada pelo médico cabo-verdiano João Soares que, por sua determinação, conseguiu ganhar para a ideia centenas de cidadãos e – esperamos - acolher a compreensão e boa vontade da Santa Sé, única autoridade com competência para dar provimento à reivindicação.

António Alte Pinho | Editor do JSN | Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

(na foto, a Igreja com as cores originais)

 

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