EDITORIAL: PAICV - uma estratégia suicidária

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A linha seguida pelo PAICV nas autarquias onde é oposição não favorece a clarificação política e afasta os cidadãos dos partidos - instituições fundamentais para a consolidação da democracia em Cabo Verde -, sendo até de prever que nas próximas eleições autárquicas o fenómeno das listas de cidadãos venha a registar uma explosão, afastando ainda mais o partido do governo do sonho de vir a ser maioria nas autarquias


 

A pré-campanha já começou, disso não há objetivamente qualquer dúvida, e o PAICV - desgastado por quase uma década e meia de governação - procura desviar a atenção no governo da República apostando numa oposição de “terra queimada” nas autarquias onde está em minoria. Os alvos mais visíveis são conhecidos: Praia, Ribeira Grande de Santiago, Sal e Tarrafal de São Nicolau.

Praia: fazer a “vida negra” a Ulisses

Na Praia, as razões da estratégia são “compreensíveis”: o líder do principal partido da oposição – e putativo próximo primeiro-ministro – é o edil da capital e qualquer argumento serve para atacar Ulisses Correia e Silva, fazer-lhe a “vida negra” e tentando obstar à possibilidade da sua chegada ao Palácio da Várzea em 2016.

A administração de Ulisses Correia e Silva à frente do município praiense está a léguas de distância da atabalhoada gestão Filú e do manto de corrupção e incompetência que dominou a autarquia da capital durante dois mandatos do PAICV. A Praia de hoje não tem já nada a ver com o lugarejo de terceiro mundo governado por Felisberto Vieira, uma avaliação, aliás, confirmada em 2012 pela pesada derrota sofrida pelo candidato do PAICV.

Ulisses Correia e Silva, inaugurou em Cabo Verde uma nova forma de gerir as autarquias, onde a transparência e a boa gestão dos recursos públicos são notas dominantes, como aliás é reconhecido por figuras ligadas ao próprio PAICV, não permeáveis à politiquice de chinelo, como é o caso do anterior Presidente Pedro Pires. E catapultou a capital do país para o universo das cidades cosmopolitas, imprimindo-lhe uma agenda cultural de excelência e dotando-a de equipamentos públicos de reconhecida qualidade. Na hora de decidir, o eleitorado terá como referencial o elemento de comparação mais próximo: a desastrosa gestão de Filú. Por isso, em vez de atirar para a frente figuras importantes da direção partidária (como seria natural), o PAICV socorre-se de personagens menores, de figuras tristes, para protagonizar o combate político na capital.

Ribeira Grande: instigar ao caos

O caso da Ribeira Grande de Santiago é ilustrativo de como a política e a delinquência não raras vezes dão as mãos para levar a água ao moinho. A estratégia do PAICV é clara: esvaziar a autoridade municipal, pondo mesmo em causa a autoridade do Estado, e instigar ao caos, como aliás foi expressivamente sublinhado por um deputado municipal que associou as iniciativas autárquicas de obstar à construção ilegal como “perseguição” a militantes tambarina.

Ou seja, o eleito do PAICV reconheceu explicitamente que são os militantes do seu partido que estão ligados à construção ilegal no único sítio histórico de Cabo Verde elevado à dignidade de Património Mundial, como insistentemente vem sendo referido pela gestão municipal de Manuel de Pina.

O objetivo parece evidente: pôr em risco a manutenção do Património Mundial e, depois, responsabilizar a administração do MpD, utilizando-a como “bode expiatório” da perda dessa distinção. O que dizer, por exemplo, do silêncio (cúmplice?) do primeiro-ministro que só cerca de um mês depois se pronunciou sobre os graves acontecimentos ocorridos a 2 de agosto, com o apedrejamento da viatura do edil e de uma outra da própria polícia, por vândalos bem identificados como prosélitos do partido tambarina? O que dizer, ainda, da desconsideração de José Maria Neves ao presidente da câmara local, não dando qualquer resposta a um pedido de “audiência urgente”, contrastando com a pronta disponibilidade manifestada pelo Presidente da República?

Para o PAICV – o que, aliás, é compreensível -, ganhar em 2016 o Berço da Nação caboverdiana é um objetivo estratégico. No entanto, ao invés de se apresentar como alternativa à governação local, segue um caminho marginal à oposição política, incentivando as hostes a desafiarem a autoridade municipal e instigando ao caos para, depois, se apresentar como “salvador”.

Sal: estrangulamento financeiro como arma de oposição

No Sal, grosso modo, a estratégia da oposição tambarina assume as mesmas caraterísticas: desgastar a governação municipal de Jorge Figueiredo e, concertadamente com o governo, estrangular financeiramente a autarquia, ao mesmo tempo que recorre a um braço de ferro protagonizado pela Electra – que quer receber os seus créditos, mas não paga as dívidas que tem à autarquia -, uma posição, aliás, que a empresa vem seguindo em vários municípios dirigidos pela oposição ao governo, com principal incidência na capital (e que levou já à sua condenação em tribunal).

Acusar o executivo municipal salense de se estar perante uma situação de insolvência financeira e, depois, o governo não pagar mais de um milhão de contos de dívidas à autarquia, ilustra bem a desonestidade da oposição tambarina, que aposta na baixa política e na mentira, em vez de fazer aquilo que seria legítimo e útil para o município. Apresentar-se como alternativa de governação, com programa e novas ideias parta o desenvolvimento local.

Ao invés de exigir ao governo que pague o que deve, a oposição local utiliza o governo e a Electra para cercar a gestão de Jorge Figueiredo e, instalado o caos, apresentar-se como “salvadora” do alegado desnorte das políticas do executivo municipal, na apetecível capital do turismo caboverdiano.

Tarrafal: imbecilidade e desonestidade

No Tarrafal de São Nicolau, a estratégia do PAICV local é exemplarmente desastrosa, assentando na instigação de boatos e mentiras. Na memória coletiva está um comunicado anónimo saído no passado ano (e distribuído por militantes do PAICV), onde cada parágrafo continha um disparate e uma pegada aldrabice.

O ridículo do anonimato - e a associação imediata ao partido - levou os responsáveis locais a assumirem os comunicados seguintes. O líder local – uma figura reconhecidamente pouco dada ao trabalho e à consideração pública – passou a ter sobre si o ónus da encomenda, mas o resultado continua a ser desastroso. Desde a mentira dos salários em atraso dos funcionários municipais, passando pelas alegadas despesas espaventosas da vereação, uma a uma as aldrabices foram desmontadas pela realidade dos factos.

Ademais, a “autoridade moral” do líder local é o mesmo que nenhuma, pois é sabido que a personagem navega nas águas do parasitismo funcional, vivendo à borla em casa do Estado e ostentando um título de “coordenador” que nem existe na orgânica do Ministério da Educação e Desporto (MED). Isto é, o presidente da câmara, o delegado de Saúde, a procuradora, o juiz e o chefe da Polícia (e mesmo o delegado do MED, seu superior hierárquico) não têm casa de função, mas um mero “coordenador (!?)” vive à custa do erário público.

Na última semana, quiçá saído da “travessia do deserto” da sua derrota eleitoral em 2012, o anterior presidente da câmara (e líder regional do PAICV) veio a terreiro bradar contra o “autêntico desastre” da atual gestão municipal, logo ele que deixou um rasto de dívidas, ilegalidades e crimes praticados durante o seu reinado, de que ressaltam, entre outros, o favorecimento a “camaradas”, amigos e à sua própria família, utilizando bem públicos para fins pessoais, como era o escândalo do transporte em viatura oficial de uma professora dos filhos, atual deputada municipal do partido.

O PAICV tenta a todo o custo contrariar a hecatombe de 2012 em São Nicolau, quando perdeu a autarquia do Tarrafal e as eleições legislativas e presidenciais (de que os atuais protagonistas foram os principais responsáveis). Por tal, entrou numa estratégia rasteira de provocar a confusão, esgrimindo com mentiras e manipulando factos. É o desespero de um partido dividido por contradições internas e caciques que se digladiam entre si e que se coloca cada vez mais longe de poder constituir-se alternativa seja a quem for, e angustiado pela possibilidade real de ser remetido globalmente para a oposição.

Oposição faz-se com alternativas

A estratégia do PAICV, assente em mistificações, mentiras e utilização do Estado (por si controlado) para cercar as autarquias que lhe são desafetas, é absolutamente suicidária, desde logo porque os caboverdianos cresceram muito nos últimos anos e já não vão em “cantos de cisne”, nem compactuam com enviesados esquemas de política rasteira e de calúnia. Os cidadãos querem conhecer alternativas, confrontar projetos e isso só é possível com um combate político elevado e sério, que não se compadece com atitudes de desespero.

A linha seguida pelo PAICV nas autarquias onde é oposição não favorece a clarificação política e afasta os cidadãos dos partidos - instituições fundamentais para a consolidação da democracia em Cabo Verde -, sendo até de prever que nas próximas eleições autárquicas o fenómeno das listas de cidadãos venha a registar uma explosão, afastando ainda mais o partido do governo do sonho de vir a ser maioria nas autarquias, um objetivo que persegue há vários anos sem qualquer êxito, precisamente porque vem assentando a sua oposição na linha que durante anos imputou ao adversário: o “rabentolismo político”.

O mesmo critério se aplica às autarquias onde o principal partido da oposição é minoria municipal. Os tempos da política de “terra queimada” estão em contramão com a crescente consciência cidadã, pelo que quem não mudar de métodos de confrontação política vai ficar pelo caminho…   

A Direção do JSN | Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

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  • Fazer politicas necessita principios. Caso contrario, estara' em perigo o homem e a sua virtude.

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